06 outubro 2008

o francês

Noite e já era tarde. Estávamos eu e alguns amigos quando, de repente, surge essa típica figura européia. Branco, magérrimo, olhos claros e aquela beleza chata que mata certa gente de inveja. Era bonito sim. Problema nenhum em dizer que era bonito o europeu de olhos claros com carinha de ator de seriado feito para adolescentes. Não reparei de primeira. Eu estava conversando com amigos sobre assuntos que não lembro e surgiu a tal figura. E se dirigiu a mim e disse com sotaque bem fricativo "speak English?". Eu disse sim. E aí começou a conversa. Todo mundo parou pra ouvir. Era uma marciana conversando com deus. Que faria uma brasileira que mora no nordeste, àquelas alturas, conversando em inglês com um francês? Parece que falar outro idioma fere algumas pessoas. Mas, voltando ao francês, não perguntei nome nem nada, só sei que ele tinha uma pulseira com o nome dele. Nicolas. Só assim me dei conta de que era humano. Tinha nome, então era humano. E segui a conversa. E falou-se no pequeno número de pessoas que falam inglês em João Pessoa ( cidade em que moro). E falou-se nas belas praias da cidade, na Praia do Jacaré, que é um dos lugares mais visitados por aqui. E reparei que ele estava todo vestido de branco. Pensei que, talvez, fosse pai-de-santo ( se é que franceses acreditam nisso) ou então, mais um praticante de capoeira. E no pescoço dele tinha tipo uma echarpe à la carnaval e o homem estava feliz e contente porque tinha encontrado gente pra conversar. E conversamos. Meus amigos e eu. Conversa vai, conversa vem, descobrimos que ele estava a passeio pelo Brasil - o que não era novidade. Estava conhecendo novos horizontes e pessoas e culturas diferentes. Além da roupa de lutador de capoeira, calçava havainas e esboçava cara de festa o ano inteiro. E logo estávamos falando sobre a Áustria e um de meus amigos, que já havia estado na França, conhecia alguns lugares e mesmo não falando inglês, se comunicaram. A comunicação é assim. Depende da necessidade. Não tem essa de falar tudo certinho e expressar conhecimentos infinitos sobre o mundo porque o mundo é aquele momento, alguns minutos em que se conhece alguém ou se abre um livro. E seguiu a conversa e o francês, que estava com outros amigos, não arredou o pé de onde estávamos. E mais conversa. Era Radiohead in rainbows e perguntei algo sobre a cidade e ele disse que tudo era lindo. Pessoas lindas, lugar mágico, rico e mais conversa, só que agora, falávamos de música, literatura, cinema e filosofia. Alguém apareceu e falou sobre Freud. O francês flutuou porque era só um cara de roupa branca que achou o Brasil um lugar lindo, de belas praias e sentido algum. Tudo bem que não estávamos no melhor lugar pra falar sobre política e literatura, mas o francês não conhecia um único escritor brasileiro ou político ou nome de algum produto - como a havaiana que calçava. Tenho até minhas profundas dúvidas se ele conhecia mesmo o Bonaparte. Falou que tinha saído da França porque os franceses são meio "Narrow-Minded". Casam e criam filhos e têm animais domésticos. O mundo é assim. Um aquário gigante cheio de peixes de todo tipo, mas no fim da linha, é só alga e a mesma vida. E conversamos um pouco mais e até pensei, no alto de minha ingenuidade de quem usa óculos, que ele realmente estava interessado em conversar e fazer um intercâmbio clichê de informações. Mas era tarde e ninguém é sério àquelas alturas. E o francês, cheio das melhores intenções, se despediu correndo porque percebeu que, nem eu ou meus amigos, iríamos vestir traje de escola de samba ou muito menos fazer festa como se faz na Marquês de Sapucaí. Logo, o ser que mora do outro lado do atlântico, expressou o "have to go" básico e ficamos meus amigos e eu rindo. Porque brasileiros compram malas gigantes e roupas que mal podem pagar quando viajam para a Europa ou para os Estados Unidos. Correm para monumentos para exibir fotos para família e provar que realmente estiveram lá e conheceram outro mundo e comeram fondue e pagaram caro para sentir enjôo na maior montanha russa do universo e beijaram os pés da Torre Eiffel e colecionam fotos com toda a turma da Disney. Enquanto isso, muitos vêm ao Brasil, assim como fizeram o descobridor e os colonizadores. Eles vêm porque o Brasil possui índias e árvores e arte esquecida que não se compara a um quadro de Rembrandt. E agora vamos ser cult e assistir Amélie Poulain e elogiar a cultura que acha que a nossa não passa de uma aventura de Gulliver ou uma cena daquela novela que até hoje reprisam na China. Lucélia Santos ainda banca a Escrava Isaura e meus amigos eram índios e o francês procurou outro rumo. C'est Fini.

Não generalizo
Há franceses e franceses
Tipos diferentes de gente
E outros planetas em nossa constelação.
É só um retrato de um dia qualquer.



Photo by Minam

15 comentários:

Phil disse...

Olá!

Acho que sempre dói quando lemos críticas negativos sobre compatriotas, porém tenho que concordar contigo que infelizmente nós, européus, temos muitos preconceitos a respeito do resto do mundo, na maioria impostos pelos próprios outros países e não atualizados.

Pegando o exemplo do Brasil, o que podemos fazer se o próprio país passou decenias colocando na frente do palco seu carnaval e seu futebol...? Sem dúvida, tudo muda, o Brasil se fortalece na cena internacional como uma potência econômica crescente, os resto do mundo descobre que o Brasil não é populado por escravos negros e não vende apenas café...

Eu cheguei aqui com bastante preconceitos. Aprendi corrigir minha visão das coisas, como o mundo aprende a descobrir que os franceses não são tão "gloriosos" que a história diz... Arte, literatura e história não são o principal: vivemos num mundo em evolução onde amanhã dependerá mais dos comportamentos de hoje que dos dos séculos passados...

No entanto gostei do seu blog. Bem escrito, inteligente, parabéns!

Abraços,
Phil.

Germano Xavier disse...

Sei muito bem do que você trata em tua crônica, Branca. Nasci num lugar onde caboclos sertanejos se batem com europeus e norte-americanos e australianos e tantos nas esquinas das ruazinhas de paralelepípedo torto. E relembro passagem e contos e rapsódias e lendas de lá acerca desses "intercâmbios" clichês. E o Phil aí em cima tem razão numas coisas. E você é cronista e distorce o texto no meio do texto e nos leva para outro caminho. Digo o que a Tebet diz? ou não precisa?

Você sabe.
Li umas algumas vezes.
Caindo do...

GUILHERME PIÃO disse...

Tem os prós e contras, morei por lá...e é terrivel, principalmente a discriminação, quando eles vem para cá, os brasileiros os acham de outro mundo e não o são.
É que lá não tem o que tem aqui,
Bom, isto é conversa para mais de metro, então...
Gostei do Blog e do post, só acho que temos que ter cuidados com os estrangeiros....são "estrangeiros"...
Abraços

Ana Cláudia Zumpano disse...

Olha só... me vi aí no texto tentando me comunicar com um australiano que estava aqui em minas mês passado e até fez uma participação na minha banda, ele estava num cruzeiro e veio parar aqui... só que ele até se interessava de verdade pelo nosso país.
Adorei a história, e dei muitas risadas no final... realmente, as vezes, não sabemos nos valorizar...

Lorena disse...

Eu conheci um francês que era enorme e branco avermelhado, e cantava Édith Piaf, sem brincadeira nenhuma... Por culpa de um francês tão típico eu mesma criei pré-conceitos em relação aos franceses e europeus de um modo geral. A verdade é que o mundo é isso mesmo, e a gente vai criando conceitos em cima de conceitos, fala com a boca cheia, dá nome de ruas e pontos turísticos, como se fôssemos OS entendedores. E não entendemos nada, não conhecemos nada, porque o principal a gente nem procura conhecer, que são as pessoas....
Em contrapartida, concordo com o Phil ali de cima. Nós temos um certo "orgulho" da nossa condição "samba-mulher-futebol-novelas globais", o brasileiro gosta de alimentar certos conceitos... Sem generalizações, claro.

beijos conotativos...

Éverton Vidal disse...

É... pois é Letícia. O mesmo ocorre aqui na Bolívia. Cheio de europeu atrás do paraíso perdido rs, enquanto uma "ruma" de bolivianos fazem uma fila pra tirar passaporte pra ganhar a vida, ou algumas fotos por lá rsrs.

Caramba você mora em Joao Pessoa? Pensi qu morava fora do Brasil. Nao sei de onde tirei isso.

Minha namorada mora aí perto em Campina Grande.

Bj.
Inté!

Letícia disse...

E gente, que somos senão formadores de preconceitos? A gente nasce e vive assim, colocando etiqueta em tudo e por aí vai. Como será um homem sem preconceitos?

Agradeço os comentários. As leituras e tudo.

E Vidal,

Por que achou que eu morava fora? E que bom. Moro bem perto da sua namorada. Duas horas nos separam. Um dia, quem sabe, a gente não se encontre por aí. :)
Bjs.

Leandro Neres disse...

"os resto do mundo descobre que o Brasil não é populado por escravos negros" E quem disse que o Brasil não é isso aí? Já visitaram presídios e favelas? (risos)

Eu também entendo esta coisa de conhecer estrangeiros, nas faculdades onde estudei sempre tinha programa de intercâmbio, e São Leopoldo tinha muito alemão e norueguês... O que percebi é que não dá pra generalizar muito, boa parte destes preconceitos dá-se por culpa da própria mídia, para mim, americanos são todos imbecis metidos a besta e franceses são românticos (risos)... O fato é que acredito nas relações sociais, é relacionando-se que preconceitos e divergências vão sendo rompidas...
Enfim, ótimo texto! Um dos que mais gostei!
Bjos!
Leandro

João Videira Santos disse...

Um texto interessante. O Brasil é um país gigante e ele próprio "salpicado" pelos filhos do mundo. Mesmo considerando o "afrontamento" que alguns fazem aos Portugueses...gosto do Brasil!

Zélia disse...

O mundo é simples, pessoas são simples e coisas também. Nós é que insistimos em colocar chifre em cabeça de cavalo. Vejo essas cenas de "assombro" é do povo brasileiro e não de estrangeiros no meu cotidiano. Cabedelo,lugar onde trabalho,é um lugar que atrai muitos estrangeiros - e eu não estou falando dos marinheiros que aparecem por lá,não. Olha aí o preconceito!!! :D Vejo gente comum, simples, de mochila nas costas, pegando ônibus pra conhecer a cidade de Cabedelo e também de João Pessoa.O espanto é da população sempre que me vêem interferindo para ajudar em alguma coisas:é a parada que ninguém consegue ensinar,é o troco que o cobrador faz questão de dar errado,é o meu concordar que o Brasil não merece ser destratado por políticos,é a surpresa da criança em poder falar com alguém...Falar inglês em terra de "indío" assusta até os índios! Assim como eu me assustei em saber de francês falando inglês.Talvez, ele não tenha preconceito com a língua inglesa.Hehehehe!

Cadinho RoCo disse...

Somos todos diferentes.
Cadinho RoCo

Jaque Lima disse...

e quem disse que alguém leva nosso país a sério?
depois da última eleição, falo da municipal mesmo. acho que nem os brasileiros, levam o Brasil a sério.

Beijos moça!

Narradora disse...

Roupa nova e mala enorme, foi assim que viajei a primeira vez, como se fosse visitar parente rico. Nada mais ingênuo, desconfortável e ainda assim, divertido....rsrsrsrs
O seu francês fantasiado de "local" perdeu a chance de ver por dentro, afinal de contas, não somos só paisagem... :D
Beijo.

Camilla Tebet disse...

E esse francês foi cruzar justamente você. Hehehehehehe. Sorte e azar dele.
Percebeu que Xavier gostou do P* texto né? Então lá vai:Puta texto.
Um beijo.

Letícia disse...

E veio mais gente conhecer o francês. As histórias crescem à medida que são lidas. Agradeço a todos pela leitura.

Leandro,

Já te falei que gostei do que disse? Gostei mesmo.
Bjs.

E Camilla,

Essa coisa de "puta texto" já é parte do nosso vocábulário. :)
Bjs.