13 outubro 2008

prova de história

Ainda na dúvida.
Escrever, ler outro livro
Ou comprar uma bicicleta
Ou fazer mestrado
Meter a cara num escaninho
Ou encher a cara de vinho
Ou ser comum


A verdade dói. Na maioria das vezes, ela é pior que sentir pena de si e ainda achar que há um exército na porta de casa, em barricadas, aguardando o momento oportuno e acabar com tudo. Mas caminha com fé que tudo ainda tem uma saída. Moramos no país do "em tudo dá-se um jeito". Então chorar pra quê? Agarra a melancolia, a auto-compaixão e vai ao supermercado e faz a terapia básica. Compra o desnecessário. Talvez um tapete felpudo que vai encher ainda mais a casa de ácaros e você é alérgico. Ou então, compra muito produto dietético e come tudo de uma vez. Zero de açúcar e felicidade zero também. Aí a teoria encontra um campo em que possa se justapor. Você é a cobaia da teoria. Em tudo dá-se um jeito. Até em você. Você é o centro de tudo. Nasceu num dia único. Aguentou a infância. Todo mundo diz que infância é fácil, fase bela, experiências poéticas. Mas nada. É difícil. Vacinas, escola, professores, amigos estranhos que mais parecem adultos. E você se sente esquisito. Aniversário e você queria pegar essas lembrancinhas que os adultos fazem. Cheias de balinhas e brinquedinhos que só servem de tapeação. No dia seguinte, tudo quebrado. Aí tropeça o tempo. A cara enche de espinhas ou não - com muita sorte - você não sabe quem é ou se é alguém. Adolescência. Um estranho em desatino. Querendo ser adulto e não querendo ser criança. Tranca a porta do quarto quando se tem um quarto. Alguns de vocês não têm quartos, mas aí já entra a questão social. Ainda não. Isso é coisa de adulto. E vem gente e vai gente. O corpo explode e vem médico falando em hormônio. Então você cai num cigarrinho e outro e também cai na cama errada que não a sua e no fim da noite, cama da mãe. Outros de vocês acompanham os pais à igreja e outros ouvem música e outros fogem de casa. E passa o tempo. É como aquelas cenas de filme tipo "alguns anos mais tarde". E você trabalha, tem chaves de casa quando tem casa quando tem trabalho. Mas aí vem de novo a questão social e isso é coisa pro jornal e aquela mulher de cabelo liso fala tão bem. Jornadas de escravidão remunerada e clichê, mas fazer o que se tudo se repete? É uma constante. Trabalho, casa, cara de preocupação porque o assombro que a vida causa nem de joelho atrás da porta a gente dá jeito. Mas, talvez, de um modo bem coerente, a gente aguente. Farmácias são caminhos para um calmo passeio vida adentro. E agora a vida fala com você como sua mãe ou pai ou tio ou o responsável. Já reparou nessas fichas que pedem assinatura do pai ou responsável? Quem será o responsável? Mas aí a questão já é semântica e chove um pouquinho e tem gente que dorme tranquilo mesmo no frio da noite vazia. Sem casa. E a vida fala. Com a voz mais delicada, ela fala. E você ouve, mas amanhã é outro dia e pra tudo há uma saída. Sejamos otimistas. Já alcançamos a idade adulta. Agora, até a dor é por nossa conta. As esquinas com meninas que vestem roupas indecentes e meninos fazendo malabarismo no sinal é uma cena tão trivial. Tudo é cartão postal e vale ainda o sol que nasce a cada dia.



Photo by MeninaLua

3 comentários:

Zélia disse...

O sol sempre valerá o dia. O que não vale é esquecermos de nós, dos outros e da vida. Dar um jeito em tudo é coisa de conformista. Nem tudo tem jeito. Pelo menos, não aquele que gostaríamos que tivesse. Essa é a verdade e ela dói mesmo. Tanto para quem é criança como para quem é adolescente. Dói para quem é adulto, pai ou responsável. Ela dói e por isso, a maioria a deixa esquecida atrás da porta. Entra dia e sai dia... ela fica ali. E você, aí. Na mesma com o que você chama felicidade. Algo que não tem cor, nem sentido nem nome...

Germano Xavier disse...

Olá, leitores alicianos!

Vocês já repararam no "humor noir" que os textos da escritora dos "diários cósmicos" têm? E novamente mais um ponto pontuado na Cartilha Aliciana: Humor Negro ou Negro Humor. Só para os mais desavisados, segundo aquela coisa da "Enciclopédia Livre", "o humor negro é um subgênero do humor que utiliza situações, normalmente macabras ou de natureza mórbida, para fazer rir ou divertir o público menos susceptível. Entre os temas retratados pelo humor negro estão a morte, o suicídio, os preconceitos étnico e racial, as doenças, a orientação sexual e a violência, dentre outros."

É que a entidade escritora escreve para rirmos, para sorrirmos. Ela quer extrair da gente o mínimo do sorriso, mas não identifica motivos. Não identifica identificando, se é que vocês me entendem. Veja o exemplo da parte "dietética" do texto. Eu me acabei de rir, como se diz por aí. Mas é um riso preso o riso que Alice quer da gente, um riso desesperado, de alerta. Um riso de alguém que acabou de despistar o policial após ter estuprado a mocinha branca atrás da lata de lixo da esquina. Eis um fator a mais para o meu considerar cronístico dos textos dessa mulher: o sentido de alerta. Mais um ponto apontado na Cartilha Aliciana. Coisa de gente grande, é bom que fique bem claro, apesar das fotos coloridas e do tom rosáceo das paredes.

É isso, como diria o outro.

Leandro Neres disse...

Sim Germano, eu ia justamente comentar da perturbação que os textos de Alice me causam. Eu vou lendo, dou uma risadinha aqui, acho romântico ali, mas depois vai dando um nó, algo em se desperta e eu me sinto confuso, mas uma confusão boa, sabe? Você termina de ler e (ao menos comigo é assim) parece que acabei de ouvir Alanis ou Tori Amos cantando uma música daquelas confusas sobre dor. Eu fico ali, perturbado, parado, muitas vezes eu saio da página sem dizer nada, dou uma respirada, volto num outro dia e leio novamente e arrisco a dizer o que senti, o que me despertou... E os textos de Alice são textos de gente grande.
Enfim,
Bjos
Leandro