15 outubro 2008

hamlet e a cultura groselha

Então hoje é dia dos professores que poderia ser dia dos pintores que poderia ser também dia das flores que não nascem. É um dia e já é motivo pra qualquer coisa e não apenas um sorriso simbólico que talvez indique uma sóbria alegria ou bondade de quem fecha janelas quando começa a chover.

Estava pensando e conversando com meus botões. São muitos e alguns até precisam de uma nova mão de linha. É assim que se diz ou devo consultar um dicionário? Já não sei. Aí vem alguém e lê e diz que não saber é sinal de insegurança. Que seja. É sinal de algo e isso já é sinal de vida. Na verdade, escrevo mais um relato que não chega a ser um texto cabeça ou cabeça texto. É uma redação. Sou professora e sei que preciso ser coerente e procuro coesão e há tanta palavra no mundo que um único texto é aquele navio antigo, quilha sem pintura, perdido no meio do mar imenso.

Em que século estamos? Sim, o século da televisão, das crianças hiperativas e das crianças pobres ou pobres crianças. E tudo é tão moderno. Computadores menores que controles remotos e controles remotos menores que os botões que fazem subir e descer elevadores. Século moderno então. É só nomear a coisa como se faz com um bicho de estimação ou algo mais que se possa ter e observar. Rotulamos e de tais rótulos, crescemos. Crescemos e quem não aparece é por preguiça, alguns dizem. Crescemos e quem não lê, morreu. A morte intelectual.

Venho pensando nisso há uns dias. Tenho um blog e sempre publico textos. Escrevo uma linha e depois outra, colo tudo e leio. Quando estou em dia de boa vontade, até corrijo. Quando não, deixo como está. É que já escrevo desde não sei quando e tive a primeira experiência de ser lida no Cosmic Library, outro blog que tenho e, às vezes, ando por lá lendo uma coisa e outra. Eu escrevia e só. Coisa que me surgia e depois eu elaborava mais frases soltas, idéias que me vinham à cabeça e pronto. Uma confusão. Mas o que me levou a escrever o presente texto, é uma certa agonia que sinto ao ver gente citando autores e livros como quem fala de relacionamentos amorosos. Todo mundo se gabando. No capítulo tal, do livro tal de Fulano de Tal, tem uma referência à questão citada por você. E daí? Precisa fazer propaganda? Acho de um tremendo mau gosto a até clichê esse comportamento de pseudo-intelectuais-leitores. E que me atirem pedras. É a minha opinião.

Sou professora, como já disse, e já vi crianças que mal entendiam suas próprias letras em provas que eu corrigia. E me vem gente citar Florbela Espanca. Tudo bem. Ela é o poema em Pessoa. Cada poema melhor que outro, mas será que posso atravessar a rua agora? Aí frequento lugares. Barzinhos são cheios de gente que se entulha dessas edições de livros de bolso. E lá vem Maquiavel dançando rumba. E logo em seguida, vem Drummond datilografando. E entra Voltaire e Baudelaire e Verlaine e Rimbaud e Clarice Lispector, me parece, já participou até de novelas das oito. E admito, em muitos de meus textos, uso citações de outros autores. Leio a nova cotação do dólar. Caio Fernando Abreu. Leio porque gosto e acho que leitura por obrigação é uma tortura. Hoje leio porque, talvez, aquelas propagandas do Ministério da Educação - não lembro o ano - eram boas e diziam que ler era como se ter um mundo além deste no qual vivemos. Então comecei a ler. E leio até hoje. Mas tem dia que faço outras coisas. Tem dias em que vivo e saio e não enfio minha cara num livro só pra fazer meu belo desfile de conhecimento.

Ler, antes de qualquer coisa, vem de estímulos. Educamos as crianças para que se tornem seres pensantes. Educamos e não empurramos goela abaixo um livro qualquer. A leitura é um ato livre, assim como caminhar e amar. Livros são mundos criados por outras pessoas. Seres como você, como eu ou como o doente que morre dia após dia. E mundos devem ser respeitados. Acho que, explorar conhecimento e abrir a boca ou citar autores e páginas, é uma triste demonstração de teatrismo. Sejamos respeitosos. Livros são vidas e não enfeites em carros de taxistas. Falo de enfeites porque cansei de ver gente desfilando com a Ilíada embaixo do braço, sufocando o livro no calor da manhã e expondo e imagem "Sim, eu leio Clássicos." Era tudo quanto é livro grande na mão. A Odisséia, Marília de Dirceu, Os Lusíadas e só não se carregava a Bíblia porque haja pulso pra aguentar e religião não é cult.

Como professora, sei que o aluno mais falante, na maioria das vezes, é também o menos produtivo. O silencioso, solitário, que senta lá na última cadeira da última fileira e mal olha pros lados, este sim, na maioria das vezes, produz algo. Silenciosos conhecem a vida porque observam. No mais, ler ou não ler não é a questão. A questão é ler para fazer crescer algo de produtivo em você. Ler por obrigação? Ler para recitar meia dúzia de infelicidades? Abrir um livro, encontrar uma citação qualquer e fazer dela o hino do dia, não fará de você um leitor. Leia em silêncio. Bibliotecas são silenciosas assim como o aluno que observa, assim como a voz que se cala diante da platéia. E livros não são peças decorativas.




Photo by HondaGiih

13 outubro 2008

prova de história

Ainda na dúvida.
Escrever, ler outro livro
Ou comprar uma bicicleta
Ou fazer mestrado
Meter a cara num escaninho
Ou encher a cara de vinho
Ou ser comum


A verdade dói. Na maioria das vezes, ela é pior que sentir pena de si e ainda achar que há um exército na porta de casa, em barricadas, aguardando o momento oportuno e acabar com tudo. Mas caminha com fé que tudo ainda tem uma saída. Moramos no país do "em tudo dá-se um jeito". Então chorar pra quê? Agarra a melancolia, a auto-compaixão e vai ao supermercado e faz a terapia básica. Compra o desnecessário. Talvez um tapete felpudo que vai encher ainda mais a casa de ácaros e você é alérgico. Ou então, compra muito produto dietético e come tudo de uma vez. Zero de açúcar e felicidade zero também. Aí a teoria encontra um campo em que possa se justapor. Você é a cobaia da teoria. Em tudo dá-se um jeito. Até em você. Você é o centro de tudo. Nasceu num dia único. Aguentou a infância. Todo mundo diz que infância é fácil, fase bela, experiências poéticas. Mas nada. É difícil. Vacinas, escola, professores, amigos estranhos que mais parecem adultos. E você se sente esquisito. Aniversário e você queria pegar essas lembrancinhas que os adultos fazem. Cheias de balinhas e brinquedinhos que só servem de tapeação. No dia seguinte, tudo quebrado. Aí tropeça o tempo. A cara enche de espinhas ou não - com muita sorte - você não sabe quem é ou se é alguém. Adolescência. Um estranho em desatino. Querendo ser adulto e não querendo ser criança. Tranca a porta do quarto quando se tem um quarto. Alguns de vocês não têm quartos, mas aí já entra a questão social. Ainda não. Isso é coisa de adulto. E vem gente e vai gente. O corpo explode e vem médico falando em hormônio. Então você cai num cigarrinho e outro e também cai na cama errada que não a sua e no fim da noite, cama da mãe. Outros de vocês acompanham os pais à igreja e outros ouvem música e outros fogem de casa. E passa o tempo. É como aquelas cenas de filme tipo "alguns anos mais tarde". E você trabalha, tem chaves de casa quando tem casa quando tem trabalho. Mas aí vem de novo a questão social e isso é coisa pro jornal e aquela mulher de cabelo liso fala tão bem. Jornadas de escravidão remunerada e clichê, mas fazer o que se tudo se repete? É uma constante. Trabalho, casa, cara de preocupação porque o assombro que a vida causa nem de joelho atrás da porta a gente dá jeito. Mas, talvez, de um modo bem coerente, a gente aguente. Farmácias são caminhos para um calmo passeio vida adentro. E agora a vida fala com você como sua mãe ou pai ou tio ou o responsável. Já reparou nessas fichas que pedem assinatura do pai ou responsável? Quem será o responsável? Mas aí a questão já é semântica e chove um pouquinho e tem gente que dorme tranquilo mesmo no frio da noite vazia. Sem casa. E a vida fala. Com a voz mais delicada, ela fala. E você ouve, mas amanhã é outro dia e pra tudo há uma saída. Sejamos otimistas. Já alcançamos a idade adulta. Agora, até a dor é por nossa conta. As esquinas com meninas que vestem roupas indecentes e meninos fazendo malabarismo no sinal é uma cena tão trivial. Tudo é cartão postal e vale ainda o sol que nasce a cada dia.



Photo by MeninaLua

06 outubro 2008

o francês

Noite e já era tarde. Estávamos eu e alguns amigos quando, de repente, surge essa típica figura européia. Branco, magérrimo, olhos claros e aquela beleza chata que mata certa gente de inveja. Era bonito sim. Problema nenhum em dizer que era bonito o europeu de olhos claros com carinha de ator de seriado feito para adolescentes. Não reparei de primeira. Eu estava conversando com amigos sobre assuntos que não lembro e surgiu a tal figura. E se dirigiu a mim e disse com sotaque bem fricativo "speak English?". Eu disse sim. E aí começou a conversa. Todo mundo parou pra ouvir. Era uma marciana conversando com deus. Que faria uma brasileira que mora no nordeste, àquelas alturas, conversando em inglês com um francês? Parece que falar outro idioma fere algumas pessoas. Mas, voltando ao francês, não perguntei nome nem nada, só sei que ele tinha uma pulseira com o nome dele. Nicolas. Só assim me dei conta de que era humano. Tinha nome, então era humano. E segui a conversa. E falou-se no pequeno número de pessoas que falam inglês em João Pessoa ( cidade em que moro). E falou-se nas belas praias da cidade, na Praia do Jacaré, que é um dos lugares mais visitados por aqui. E reparei que ele estava todo vestido de branco. Pensei que, talvez, fosse pai-de-santo ( se é que franceses acreditam nisso) ou então, mais um praticante de capoeira. E no pescoço dele tinha tipo uma echarpe à la carnaval e o homem estava feliz e contente porque tinha encontrado gente pra conversar. E conversamos. Meus amigos e eu. Conversa vai, conversa vem, descobrimos que ele estava a passeio pelo Brasil - o que não era novidade. Estava conhecendo novos horizontes e pessoas e culturas diferentes. Além da roupa de lutador de capoeira, calçava havainas e esboçava cara de festa o ano inteiro. E logo estávamos falando sobre a Áustria e um de meus amigos, que já havia estado na França, conhecia alguns lugares e mesmo não falando inglês, se comunicaram. A comunicação é assim. Depende da necessidade. Não tem essa de falar tudo certinho e expressar conhecimentos infinitos sobre o mundo porque o mundo é aquele momento, alguns minutos em que se conhece alguém ou se abre um livro. E seguiu a conversa e o francês, que estava com outros amigos, não arredou o pé de onde estávamos. E mais conversa. Era Radiohead in rainbows e perguntei algo sobre a cidade e ele disse que tudo era lindo. Pessoas lindas, lugar mágico, rico e mais conversa, só que agora, falávamos de música, literatura, cinema e filosofia. Alguém apareceu e falou sobre Freud. O francês flutuou porque era só um cara de roupa branca que achou o Brasil um lugar lindo, de belas praias e sentido algum. Tudo bem que não estávamos no melhor lugar pra falar sobre política e literatura, mas o francês não conhecia um único escritor brasileiro ou político ou nome de algum produto - como a havaiana que calçava. Tenho até minhas profundas dúvidas se ele conhecia mesmo o Bonaparte. Falou que tinha saído da França porque os franceses são meio "Narrow-Minded". Casam e criam filhos e têm animais domésticos. O mundo é assim. Um aquário gigante cheio de peixes de todo tipo, mas no fim da linha, é só alga e a mesma vida. E conversamos um pouco mais e até pensei, no alto de minha ingenuidade de quem usa óculos, que ele realmente estava interessado em conversar e fazer um intercâmbio clichê de informações. Mas era tarde e ninguém é sério àquelas alturas. E o francês, cheio das melhores intenções, se despediu correndo porque percebeu que, nem eu ou meus amigos, iríamos vestir traje de escola de samba ou muito menos fazer festa como se faz na Marquês de Sapucaí. Logo, o ser que mora do outro lado do atlântico, expressou o "have to go" básico e ficamos meus amigos e eu rindo. Porque brasileiros compram malas gigantes e roupas que mal podem pagar quando viajam para a Europa ou para os Estados Unidos. Correm para monumentos para exibir fotos para família e provar que realmente estiveram lá e conheceram outro mundo e comeram fondue e pagaram caro para sentir enjôo na maior montanha russa do universo e beijaram os pés da Torre Eiffel e colecionam fotos com toda a turma da Disney. Enquanto isso, muitos vêm ao Brasil, assim como fizeram o descobridor e os colonizadores. Eles vêm porque o Brasil possui índias e árvores e arte esquecida que não se compara a um quadro de Rembrandt. E agora vamos ser cult e assistir Amélie Poulain e elogiar a cultura que acha que a nossa não passa de uma aventura de Gulliver ou uma cena daquela novela que até hoje reprisam na China. Lucélia Santos ainda banca a Escrava Isaura e meus amigos eram índios e o francês procurou outro rumo. C'est Fini.

Não generalizo
Há franceses e franceses
Tipos diferentes de gente
E outros planetas em nossa constelação.
É só um retrato de um dia qualquer.



Photo by Minam

04 outubro 2008

peixes de aquário

Sou pisciana sem antescedentes criminais. Um ser perfeito já que igual a mim, só eu mesma. Chata e meio lenta. Acordo dormindo e durmo acordada. Quem me conhece sabe. Não sou um poço de alegria, mas também pouca coisa me tira de meu estado romântico-letárgico. Adoro ler e escrever também. Mania de ler. Leio até pára-choque de caminhão. Gosto da chuva, do mar e de olhar estrelas. Aprendo a cada dia o que não aprendi ontem. Sou apaixonada, mas não sou tonta. Sou um pouco esotérica sim. Aprendi a ver através das palavras. Sobrevivente dos temporais. E assim caminho entre os dias, sendo Alice, Mariana ou a lúcida habitante dos quadrinhos. Posso ser também um erro comum entre uma página e outra. Um erro de impressão ou acerto de contas já que sempre nos reinventamos. Somos músicas, inúmeras batalhas românticas, fugas temporárias ou infinitas. Sou e somos o som do sol chegando depois da chuva forte.



Gravura de Romero Britto