29 dezembro 2009

crônica e poética



Fim de ano e mais clichê. Por isso me dispo, por isso me deixo ver. Sou Drummond com extremos níveis de progesterona e qualquer coisa em mim me diz que nasci rainha da Mesopotâmia e quem liga? Ninguém à porta, ninguém me acorda e durmo o sono dos dias. Tenho mais amigos que posso carregar e, certas horas, não tenho ninguém. Mas a culpa é minha. Busco estar sozinha, fritando minhas quinquilharias em minha cabeça de mulher enguia que desliza longe de qualquer coisa prática. Gente prática, moderna, gente descolada que sabe tudo de cor e resolve todo e qualquer problema, vou me rebelar: Não é o fato de odiar vocês, Gente Moderna, é simplesmente o afastamento. Não se pode Ser humano assim. Tudo certinho, ponto com nó bem afiado e risadinhas no fim do dia em algum barzinho maçante cheio de gente maçante que me cansa os ouvidos. Por isso um quarto só para mim. Sou Virginia Woolf cheia de extremos de um cigarro a outro e apresento altos níveis de testosterona. E a coisa poderia estar bem pior. Se eu decidisse estudar Filosofia ou me afundar em tequila e fazer amor? Isso seria o fim porque não se vive assim declarado. A vida está mais para uma viela onde todo mundo se conhece do que para uma viagem sem volta ao desconhecido. E há crimes, barbárie e eu ainda não entendo as tais agulhas no corpo da criança; passei noites tendo sonhos e correndo atrás de um homem e minha terapeuta me mandou conversar mais. Por isso busco a natureza e deixo coisas para trás. Sou Walt Whitman pagando impostos e apresento altos níveis de insensatez. E ainda consigo dizer que o dia é bonito e acordo colorido pra ver mais um tempo passar. Um amigo me telefona e diz que tem problemas. E eu vou anotar seus problemas e ajudo você. E você também pode me ouvir? E, antes que eu termine de me contar, ele desliga e vai cuidar da vida. É assim. Olho por olho e um fiasco de amizade. Por isso insisto e penso e faço tanto existencialismo arrebentar a cara de quem me quer. Sou Martin Heidegger olhando pros lados e assistindo reprise em sessão da tarde. Que custa ser fraco? Que custa dizer que é difícil dar o próximo passo? Por que é tão impossível admitir que o fundo do poço também faz bem? E, olhando meus livros agora, percebo: Sou eu mesma. Lendo mais que dou conta, pagando minhas dívidas, amando insegura, ainda querendo conhecer a Islândia, tentando escrever poesia e recebendo crítica. Essa coisa de mulher moderna me emperra o dia. Sou Amélia atordoada e coberta de adjuntos adverbiais da Dorothy Parker, marchando em busca do soldado desconhecido e meus atentados terroristas sempre mal sucedem. As bombas explodem em meu jardim. O melhor a se fazer é abrir champanha, brindar nossas âncoras, adorar santos e esquecer. Por isso me arrisco. Por isso faço alarde e durmo tarde. Sou a mão que ainda arde a espera da outra face. E o Alberto acorda certeiro escrevendo crítica e eu dou o primeiro mergulho em minhas relíquias e não compro brigas. Acho que ainda não amadureci. Não o suficiente.



E uma música para acompanhar.







26 dezembro 2009

cinema mudo



Ela não seria tão discreta, comendo delicada as delícias que a noite traz. Não seria você esculpindo falsa oratória em busca de se ajustar ao meio mundo que está em todo canto e já seria absurdo o entusiasmo das meninas rebolando nas esquinas da cidade enquanto o padre novamente redige homília? Ela não seria tão drástica. Talvez uma chaminé caduca de tanto exalar o pó dos dias e fazer navegar os pássaros no céu azul com cinza de papel queimado e lixo não aproveitável. Ou seria talvez um Quem Sabe de quem deseja amar e não diz nada porque falar é pecado entre os humanos. Nada diz é o que se fala entre os olhos e ela não seria tão ruborizada, pois já nasceu esbaforida, sem vergonha na cara. E ao recomeço ela viria, dizendo malícias em todos os tempos e seria talvez um beco onde o crime reforça a estupidez ou o viaduto de novo escondendo homem e mulher ou mulher e mulher ou homem e homem se encarnando. Não importa. É tudo humano. E a saliente vontade da mulher que olha outra mulher a fazer compras. A vontade de penetrar a mulher seria contradita porque mulheres e túneis se confundem e vale o fato de não enfrentar o entender. E amo uma mulher e nada vem ao caso porque de tanto fracasso tenho dúvida se realmente causo o querer ou me deixo esquecer. E ela continua zumbindo, acontecendo, explodindo enquanto velhos morrem, homens se atormentam porque querem e não atingem o maldito ponto g que é história. Não existe. E ela dança tal feito macumba e toda outra religião santa e seu futuro é rubro e a nascente é hoje e hora de qualquer criança nascer. Não poderia ser castrada feito os anos 30. Mulheres de um lado e homens em qualquer lugar. Não seria temida tal anos 60 realizando rebeldia em vitrola que hoje não mais se vê. Não seria indigna tal como os 70, dissimulando ausências e alardeando praças. Não seria os 80 perdidos tempos de nada explode e atentados imorais. Não seria hoje nem o tudo que se move ininterrupto ao vulgar coincidir das ilusões. Nem Virginia, nem alforria, nem carta de Ana Cristina. Não seria café barato e contrapeso das medidas egoístas e ela sabe que existe individualismo em todo ato de ingênuo e belo prazer altruísta. E não seria você que chora e acorda no meio da noite e respira fraco de medo porque ela não permita que seja visto o dia de amanhã. E estamos cegos de tanto ver que só vive aquele que se permite morrer.




Image by Slawekgruca

20 dezembro 2009

persona



Aos estrondos cai por terra o que tanto quis. Carta de baralho, sonho marcado e eu mesmo por decidir e me veio, preguiçosamente, a persona que me desmarcara. Tantos atos e falho a me reproduzir. E sopra ainda o vento a casa e vai embora e nada diz. Eu e minhas mãos buscando tempo, estando certo ou errado, meu inconsciente sempre me diz que devo ser feliz e não sou. Vai encher teus bolsos e não realizo ação porque me surpreendi com a vida batendo à porta, sorri ao ouvir os homens e seus simpósios de sabedoria e eu ainda era criança malfadada, típica imagem que de minha mãe saiu sem cura deste milagre desatento que das espécies se transfigura e me desacato minúsculo em adulta estatura. Viver com meus erros e retribuir espantos. E ainda sopra o vento aos imensos olhos torpes de minha necessidade. E a cidade se ergue sonhando que ainda irei desnudá-la, que irei habitá-la, que hei de comer vísceras e domesticar víboras que me seguem por ruas e que sempre irei viver cativo de uma sorte que nada faz por mim. Espera indecente a cidade que eu sirva sua vontade tecendo a vida que não me redimiu. Eu verbalizo e me desmascaro porque o que sou já não me cabe mais. E, somente quando eu retornar a mim, direi a que vim. E, ao subjaz do tempo, às voltas com minhas memórias, estimo melhoras e observo tranquilo, em exílio, o vadiar dos aviões.




Image by Bryan Collins

11 dezembro 2009

algarismos solitários



"Que culpa temos nós dessa planta da
infância, de sua sedução, de seu viço e
constância?"

(Jorge de Lima)


Do acorde ao instante em que adormeço permanece o desassossego que, embora tranquilize, ainda me arranha. E existe algo mais que a rede e o pescado, mais que o mar e o rastrear dos passos, mais que o olhar perdido de uma saudade, de um tempo. Existe algo que emerge em minha alma, de minha louca ventania que me alucina e me agride e, após minutos, permanece a vertigem das numerosas mãos que me invadem quando solitária sou mulher. Que eu diga todas as palavras e cante meus verbos, minhas orações, minhas culpas prediletas e todas as inquietações que não me deixam dormir. Eu penso em você. Não é lembrar. É pensar e poética a esmo. E adoro as horas em que você chega. Faço a cama, faço comida, fico amiúde feito música antiga. Velhas canções de rádio ou Nat king Cole que é pra acabar comigo de uma vez. Lembro do começo. Você veio e eu nunca mais consegui acreditar em vidente, cartomante e nunca mais li nada de irrelevante. Eu insisti em você e absorvo a verve que nos une desde antes até nosso primeiro segundo e digo que amo você, que te amo, que me arrebento toda por você. Escrevo a lápis no espelho e acho engraçado bancar a puta em uma história em que sou neo-romântica e assumida leitora de Nabokov. E nada me permite. E vou bancar a vítima. Fazer de você o diabo roubando a cruz, homem ruim. Ruim de ser visto, de ser amado e ruim de me alargar. Mas eu insisto e tremem minhas carnes em euforia quando vejo que me trai e volta sempre com sede. Eu aceito e faço drama. Minto como amo. Destruindo e engolindo seus erros e não lembro. Deixei tocar o telefone e nos queríamos tanto e eu exagero em meus movimentos de ir e vir. Nua ao redor de sua cintura sua mulher o beija e a boca morde a outra boca e molha o lábio e agita a cama, as paredes e a estante onde nos rasgamos e negligencio afetuosas formas de contato. Mulher santa que beija a boca de um único homem. E o sangue faz queimar nosso estrondoso balé de tanto corpo. Soma de um que atravessa o outro e ainda sinalizo quando me aproximo e digo que amo e minto tão bem como causo engano.




E faz algum tempo
Ouvi dizer de um livro
E da leitura permanece algo que me traduz.



Image by Heather Horton

07 dezembro 2009

antiquários



Faz chuva, faz sol, faz medo e faz-de-conta que somos parte da crença que se eleva da ponta de nosso nariz e se desfaz contra o vento. E seremos nosso próprio calvário, aniquilando pesares, equilibrando vontades e seremos também quem somos, em nuas verdades, e viveríamos a vida, todo dia, a fazer nosso reverenciar. E se espalha pelo corpo um espasmo quando somos interrogados a respeito do tempo e buscamos da retórica o que ela pode nos dar e cegos dizemos apenas do que nossa pobre vista alcança. Não violente nossa ignorância com suas demandas. Nós queremos nos rebelar. Forçar portas, almejar tudo e esquecer que nos apavora o limite entre o que há e o que verdadeiramente existe, e detestamos lembrar que perdemos nosso desejo, nossa virtude e nossa idiotice. Há muito perdemos nossa castidade. Nossa fé sofre aleijada e nossos quartos, temerosos cômodos nos quais a úmida poeira faz brotar fungos, espera algo de nós. E não há mais lençóis. E a verdade é flor que, ao mesmo tempo que nos alimenta, nos arrebenta por passados passos pesados presos ao calçar de nossos sapatos. E vejo no futuro, à porta do antiquário, em letras garrafais, a lisonjeira sentença de nosso diário e caduco esquecimento. Em anúncios seremos exibidos, violados pela liberdade que a terra nos permite e tomados pelo silêncio que nosso corpo ao findar de nós exige. Porque agora somos exemplares feitores de grandes obras, e amanhã, por não sermos exceção da história, nossas vozes se tornarão destroços do que já fomos e não mais seremos e, por vezes talvez relembrados, sufocados em álbuns guardados, sejamos belos retratos de um amarelo e sorridente presente que urge apagado pelas sombras e rastros do caminhar do tempo que nos esquecerá no passado ao estridente arrastar de nossas correntes.




Image by Galcha

26 novembro 2009

joni mitchell, Veja e fauna e flora

Estou ouvindo Joni Mitchell e sou romântica e a Veja é uma revista que me causa diversos males, mas é preciso que se leia. Sou uma péssima vendedora de livros, não sei fazer marketing pessoal e o perfume do Jasmim de minha vizinha invade minha casa durante o dia. E hoje estou me preparando para colocar em ordem as cadernetas de minhas turmas. E vou corrigir provas e trabalhos e telefonar para minha mãe e ela vai dizer que sou meio desligada e nunca dou as caras. Minha mãe sempre tem razão. A pergunta que deve estar na ponta da língua é: E daí? E daí mesmo. Certas coisas são tão nossas que chega a ser crime torná-las públicas. Mas, acredito eu, coisas boas devem ser registradas. Hoje estou feliz porque recebi um e-mail do Cronópios e lá está um texto que escrevi. E compartilho com vocês que leem minhas linhas feitas de avessos um instante de uma vida.


É só clicar na imagem e dar uma olhada, ler, reler e ler mais e assim por diante.







E ouço Folk pela manhã. Joni Mitchell





Um beijo para todos.
E segue o dia em harmonia.

21 novembro 2009

inventei de amar você


Eu inventei de amar você. Tateando entre ladrilhos, fazendo agrado ao inimigo e querendo me sufocar. Uma serra sofrendo de tão cega cortando troncos de Baobás. E me acostumei a sua antipatia porque amantes nem sempre recebem as boas-vindas em elogios escritos em bilhetinhos ou presente que demonstre o exagero de amar. A vida engana ou nos enganamos e isso não é pergunta. É coisa que digo toda hora pra ver se acredito em algo mais. Hoje estou romântica e arrastei a cama e a coloquei bem embaixo da janela. Deito e vejo estrelas e penso em coisas exclusivamente minhas. Horas pensativas em que me perco e se, de tanto pensar eu de repente me encontre, é tão estranho saber de mim através de mim. Parece flashback de filme americano. E as estrelas estão por toda parte. Deixo a Adriana Calcanhotto cantar. E me espreguiço na cama e lá fora, buzinas, ambulâncias e a cidade em urgência. Quem me dera pudesse me levantar dessa cama e agir como agem todas as pessoas e me esbaldar de alegria falsa. Não. Prefiro ficar aqui. Meu quarto, um incenso e o tic-tac do relógio ainda consegue ser mais alto que o som que vem da voz da Adriana. Me levanto e troco a música e é um esforço enorme sair da cama e pisar no chão. Cada passo é uma eternidade. E ouço mais música. De todo tipo, de toda cara. O quarto quase às escuras e eu brinco com as mãos e faço aquela coisa de imitar imagens. Um avião com as mãos e a luminária é o spotlight e eu sou um coração feito de mãos. Veja só que mediocridade. O mundo imenso e eu aqui, figurante de uma solidão egoísta e vasta. Eu estendo a mão e pego o livro que não largo há dias. Leio poesia e tudo que leio é uma forma de auto-comoção. E há um texto de amor. E não sei por que quando se fica romântica como estou a gente perde o pedigree. E volto no tempo e fecho o livro. Você me desnuda e eu finjo que acredito que a sabedoria que você suporta é sua e de mais ninguém. Eu finjo porque quero agradar. E sabe aquela hora em que você comprou vinho e ficou feito idiota me procurando? Eu estava procurando taças. Só bebo vinho em taça. Mas acabei não comprando e acabei tomando vinho em um copo sem graça. Amor tem disso. A gente perde a identidade. E eu bebi que nem lembro e falei aquelas verdades que amargam o beijo. Eu caí no sono e você também dormiu. E não sei ao certo se você dormiu ou fugiu ou ficou me olhando. E ainda comi de um tacho de coisas que não gosto só pra fazer o que achei que seria certo. E inventei de amar mais e, em silêncio, eu observava seus intervalos de fim de orgasmo e chama que acende cigarro. E me senti um poço de ingenuidade. Não consigo ser como dizem ser outras pessoas que agem racionalizando tudo. Por mim, é verdade, não me importo muito com os resultados. É o momento que importa e todo o resto. Você, eu e mais nada. Porque a gente precisa de pouco e eu não gosto de espetáculo. E eu gosto de ficar lembrando da história toda como se pudesse trazer tudo de volta pra mim. Como quem comete crime e se arrepende e quer de volta a inocência. É assim que me vem agora todo o tempo que houve um dia. E ainda há tempo. A vida continua lá fora, outra música me amplifica, fumo dois cigarros e caminho ao banheiro e meu rosto é de sorriso. Me pergunto por que a gente é assim, tão vergonhosamente imbecil? Por que a gente transforma tudo em fim? Por que você sempre me esquece no dia seguinte? Por que você não me procura quando sabe que preciso viver um pouco mais de você dentro de mim?



Image by Caitlin

06 novembro 2009

napoleão



E cora o tempo a declarar satisfações. Pardos homens e mulheres se confundem entre braços enquanto dialogam o tempo e a imensa população. É o mundo criando fatos e há quem diga que o fim reside na esquina. Mas não dou ouvidos. Ignoro vozes que oram insípidas por atenção. E o que tenho que tanto sofro que me adormece o corpo e não fecho os olhos para o noturno repouso? Dizem ser loucura. Ou medo. Ou doença. Ou vadiagem que é o resultado de quem resolve cruzar os braços enquanto redige o tempo outras orações. Pois digo e escuta. Abre bem teus ouvidos porque minha língua é feito gente sem educação. Falo alto, idolatro santo falso e ainda construo ilusões. Odeio linha reta, dialética e geléia em pão dormido. Aborrece-me tudo que é bonito, belo, estético, político e certeiro. Ainda vivo a montar cavalarias, assassinar flores coloridas, perfumadas, repetitivas que tanto exalam vida e causo loucura em todos os que me guardam cheios de fé. Puritano sou de engano porque minha face é duplo escárnio de todas as dúvidas e me alegra a visão do espaço aéreo. Digam aos homens que existo, sinistro, engolindo todos sem permissão. Sou a voz que amedronta durante a noite e, ao violentar dos dias, cativo olhares que me alvejam através do retrovisor.




Image by Slawek Gruca

29 outubro 2009

embarcações



Tudo há de passar, Eulália
E teu nome de poesia
Há de suportar
A eufórica urgência
Com que a vida nos faz caminhar.



É apenas mais um dia frio de vastas tempestades. Ouvi alguém dizer isso, lá de longe, como um eco entre as montanhas. Um soluço e tento dormir. Se servir de consolo ou até como auto-ajuda passageira, também não estou lá essas coisas. As sete maravilhas do mundo e não estou entre elas. Sempre um lugar para se visitar. Daria tudo — esse tudo que quase não tenho — só para enxergar as pirâmides ou fazer parte da história e tocar o busto que adormece no Père-Lachaise. Tantos dormem e tenho insônia. Mas comigo é assim. Não é aquela coisinha tímida que um chá de camomila possa resolver. É insônia mesmo. Não durmo. Tanta cogitação. Ontem mesmo tentei assistir ao filme que tantos me recomendaram. Assiste porque é cult. Preguiça de andar, preguiça de controle remoto, preguiça de legenda, preguiça de tentar entender. Então tentei um livro. Tem sempre um livro na escotilha de minha embarcação amotinada. Não li. Comecei e parei. Era algo sobre um jantar comum. Era um livro do Guy de Maupassant. Que descanse em paz. Mas não quis entrar em outra atmosfera. Era um caracol na cerâmica. Querendo ficar quieto, em silêncio, escondido. Mas nada chama tanta atenção quanto um caracol na cerâmica, no piso que, de tanto brilho, já se torna espelho. E caminhou a noite assim como outras noites e pensei em amores e sofri vertigens. Queria estar viajando de avião. Destino desconhecido. One way Ticket e ainda ouvindo Ticket to Ride. Mas não estou abandonando você. Só me sinto como se sente aquele que diz que o fundo do poço é escuro. E acabo de descobrir que não é tão escuro assim. Estou aqui, bem no fundo. A típica parede de tijolinhos aparentes, a água gelada porque é tão parada a coitada. Um pequeno lago gélido dentro do fundo do fim. E vejo cores. Minhas mãos têm cores. Minhas roupas também. Não me largaria assim no fundo do fim sem roupas. Essa é a minha dignidade. Sempre espalho meu corpo, mas me preparo. Um pára-quedista antes do salto. E entre cores e o lago que me molha os pés, sinto que encontrei meu semelhante. Sou eu. Sou igual a mim. Futuro mito sem rito, sem hino, sem procissão. E um dia alguém diz que as janelas nem sempre ficam fechadas. Inocentemente eu acredito. Acredito em tudo e por isso eu digo que hoje, no fundo do fim, caracol solitário, o vento que não atrasa, não abandono você. Aquela história de adeus e lágrimas não é a minha teoria. É só um dia e dias passam e ainda penso em comprar um pouco mais de fé e ter alegria. Acredito que sou otimista apesar de ser quem sou. Espero o tempo me curar e ainda acredito que todo esse caos comovente me ajuda a respirar e nado contra a corrente. Eu e minhas embarcações.




Image by Rovi Jesher

28 outubro 2009

in natura



Amar e armar a esmo, torcendo dedos e masoquismo é enredo e me machucas que ando nua nas ruas de minha infância. Praga de ingênua horta de tuas mãos cultivar. Há em mim o que de fato existe. Homens escravos e a história de meus país. Manchetes em meus ouvidos e eu com isso? E eu com o mundo? Torta fêmea feita de horas e aborto beijos calculados. Quero susto e que me corram deuses e demônios em minhas veias de mulher pedinte e sedenta. Transito de dia e, à noite, hemorragia é a vontade que me guia. Não colho absurdos coitos de homem que sente medo. Já ouvi de todos que medo nos encolhe, então, ágil, espalmo o piso e ele se curva e ele faz de mim a fenda por onde se vê que trêmulos dizemos amor e há pornografia bela dita em nossas línguas. E assombra a hora de ir embora e não me deixa o homem que elabora. Homem vasto de tanto espaço e sou a sombra do que ejacula tua obra in natura. Em instantes. Minutos em caos de eternidade. Sirvo em ritmo alfabético, ereta e discreta, e declaro o que poesia não diz. Estou vaga feito lâmpada acesa enquanto caminha mais um dia e diga você o que deseja. E diga você o que espera sentado à porta de casa cruzando braços enquanto espalho meu corpo em sua cama doente de tanto sorrir. Meu feminismo é entregar-se. Coragem é deixar-se larga, sorrindo feito menina, enquanto te ergues farto e composto trajando tua face de covarde. Minhas mulheres trabalham mais e eu alimento animais. Estes cegos e amedrontados verbos passivos que habitam em ti.




Image by blind-awakening

27 outubro 2009

adormecidos



Engraçado como tem gente que sente falta de si mesmo. Saudade vazia que nem mesmo o espelho do banheiro consegue acalmar. Essa gente vive a procurar sinais que provem a existência, o violento transformar da alegria em tristeza, o acordar do tempo e a natureza que se faz assumida trem da vida e leva todos nós. É como se sentir anestesiado. O corpo existe, mas falha a voz e a verdade não passa de um contratempo. Como provar que ainda se está ali? Na sala de estar, no quarto do filho, na casa de amigos? Como voltar a se sentir vivo? Tonalizar fios brancos, enfeitar a casa para um bando e fazer digno o realçar das incertezas? Não há nada mais triste do que a busca de si mesmo e ver que tudo se foi. Já se partiu e agora o ser que habita a gente não passa de uma obra decadente que o tempo esqueceu de enterrar. Melhor viver logo o dia de aniversário e se deixar envelhecer. A perda maior é o esquecer de si mesmo. A gente se esquece no rosto de alguém, vivendo outra vida, lavando calçadas ou apagando marcas, cauterizando outras dores enquanto há fome de tanto e por tudo que se sente. A gente precisa viver. À tortura ou à plena felicidade absurda. É bem melhor que se viva. Antes mesmo que o cenário mude e a saudade se torne moribunda. Não há saudade maior do que essa que a gente sente de si mesmo. A gente, de repente, se torna o produto com prazo vencido.



Image by jasinski

22 outubro 2009

moinhos de um caçador



E meus olhos cerrados ao abismar-se minha constatação. Onde se perdeu a fruta madura colhida da árvore dos quintais de minha eterna vida de antes? E o sumo da fruta que escorria de meus lábios e brincava em minha garganta que hoje não mais canta e quando cessou de ecoar minha voz? Em que lugar de todo o universo esqueci minhas ideias, minhas aflições de jovem que era e meus planos que tanto refiz e eram sensatos e teriam por fim a glória? Onde estancou minha palavra que era dita de lado a lado em ruas e todos ouviam minhas vidas porque eu acreditava enfim. Por onde, nesse mundo vasto de todas as sedes, se esconde minha luz que era eterna e eu abria janelas e meus olhos avistavam terras e madura gente em que eu costumava acreditar? E as esquinas de meus pensamentos? Onde irão dar agora que minhas imensas dúvidas habitam o cume de minhas irradiações? Qual o dia certo de confronto entre o eu que sou e o eu que era tão diverso em credos que mesmo colhi em tantas idades que vivi? E a mulher que amo? E o homem que canto? E o abrasivo costume de andar ao vento olhando ao redor e ser pacifista entre guerras alheias? Onde vai dar o tempo que esperei? Ora, mas tanto costume criei. E os alfinetes com os quais minha mãe prendia seus longos vestidos e nos alimentava de seu ofício? Onde a vida irá estar? Será nostálgico o momento em que repousam nuvens na enorme tela em que acontece o sol? Nostalgia não passa de mentira que me faz imaginar vidas das quais estive ausente porque sempre estive ausente querendo viver mais. Invento quintais e amores e livros de tantas bibliotecas de minha pequena cidade que era eu. Eu era minha própria cidade. Meu sítio. Meu estado amplo de toda bandeira. Meu regionalismo era rico porque, de todos os lugares, tive o sopro e o hálito de todas as bocas. Terá mesmo vivido o meu idolatrar de instantes? Quando adormeceram as vozes de ontem? Quando se tornou inferno o bonito e lúdico menino que tanto era o que eu costumava ser? Mentirosas memórias que me trazem tempos e eventos de outras paisagens. Acumulo dentro de mim, de pura inveja e vontade, a vida que é de todos e nunca minha porque me poupei de sofrer porque sofre em vida o ser e eu seria sempre a criança com a fruta madura correndo através dos jardins. E ainda estou vivendo, embora ainda questione e perca, em vida, mais um momento de ser deslumbramento, vaidade e desconcerto.




Image by broda502

21 outubro 2009

templários



Deus que me livre de dizer seu nome. Deixo tudo guardado. Certas coisas são sagradas e você tem dimensões verbais e discursivas que não me atrevo a reler. Guardo. Limpo suas cartas, limpo seus retratos. Na verdade, amo essas velharias pré-datadas. Um cemitério de lembranças. E protejo as inutilidades que amo. Não falo de você. Falo de mim. Nem todo poema tem entrelinhas, pois alguns se mostram completos. Ontem mesmo vi um poema passeando em minha rua. Tão exuberante quanto você no dia em que me disse que a casa estava fechada. Casa fechada, roupas vendidas e partilha de bens. Fiquei com pouco. Levei alguns trapos — minha terrível mania de manter sempre folhas amarelas ao meu lado. Levei também um sorriso sem graça. Engraçado acreditar que tudo um dia termina. Final de filme e uma sensação de que o mundo ficou vazio, longe, perecível. Sorriso sem graça e eu só queria mesmo um pouco de paz. Queria acordar e fazer meu cenário de novo. E corri pra arrumar novas casas. E você não faz ideia de quantas casas refiz. Casa casada, divorciada, casa mal resolvida, casa de avelã, casa de gente mais nova que meu filho que ainda estava por nascer. Refiz casas e refiz nomes e prédios inteiros. Também fiz incêndio e fiz novena pra ver sua casa aberta de novo. Foi tempo de me refazer também. Plantei tudo no meu quarto e, a cada passo em falso, lembrava de você. Tão meigo com cara de fugitivo. Sempre pedindo migalhas de mim. E dei tanta migalha que acabei ajoelhada vendo que o tempo não cura nada. Outro amor também não cura. Amar de amor, já amo e descanso ao som do violão. Amei você até o fim e deu certo. Teve letreiro e uma citação em homenagem a nós dois. Éramos tantos e profanos. Éramos arames farpados sem soldados nem armadilhas. Hoje somos casa cheia e jantar em ação de graças. Hoje você funciona e eu vendo histórias que ninguém quer comprar. Mas sou boa sim. Faço doações, colaboro, beijo estreito e longo e deito em meu curto movimento. Há poemas para você e para outros estranhos que bem conheço. Mas não sou de enganar. Amor mesmo, amor de doer e passar noite lembrando que amanhã vai ser dia de sentir-se igual, na multidão, rosto esgotado de cansaço e voltar ao trabalho, não guardo mais. Por nós e por todas as promessas, deixo respeito e também um pouco de vingança. Sou militante das causas perdidas, mas não sofro de graça. E sobre a qualidade ambiental, nada sei.



Ao som da Ani DiFranco.





Image by AnnWeaver

02 outubro 2009

águas de chuva de janeiro


Solidão entre cinco paredes. Vezes mais, vezes menos e são belos seus pequenos azulejos imaginários portugueses. E construímos. Você constrói. Lembra o dia de ser herói? Salvar amigo, ainda criança, quando feliz corria em sua bicicleta e cai o menino e você o salvou. Enquanto chorava a criança, algo de valor fora dito, e fora de sua boca e, de um minuto a outro, a cena era completa e você pôde sentir felicidade em ajudar alguém. Mas o tempo faz esquecer. O dia seguinte transforma o que sente a gente e é sorte. Porque se arde em nós a dor, pode ser que amanhã passe, haverá cura para todo mal, o sol brilha e ainda existe motivo para continuar. E se acredita. E não hipoteticamente. É certo que navegamos cegos no mar de imensa gente, mas, entre o elaborar de todas as coisas, há mistérios que até os mais incrédulos se acometem e se atrevem a proteger. E é este o mistério maior. Aguentar o tranco. E há quem aguente? As estatísticas não mentem. E se mentem, perdoa que será perdoado também. E vive em família. Família de um, geladeira quase vazia, dias de domingo sem fim. Família de dois, entre a discórdia e a hora de abrigar o outro corpo, contas e a fé na sabedoria e gera filho e cria mais família e faz o mundo ser maior. Família de tantos, tantas mulheres e tantos homens, de lá pra cá entre os cômodos da casa e respeita ordens porque não se faz barulho enquanto os mais velhos dormem seus sonos. E assim se faz república. Independente, prudente, grande mãe de todos nós. E lê e estuda tanto que o futuro traz respeito. E dá de cara com o vazio das portas fechadas e depressão existe. Não é invenção. A mãe diz que não. Depressão é invenção da nova era, amigos falam em beber e você, querendo ser homem e forte, bebe com amigos, faz graça da vida e acha, inocentemente, que dia seguinte tudo há de se equilibrar. E faz família com moça que se aninha em seus umbrais. Metáfora? Não há quem diga. É que segue em margem a vida e, mesmo quando se desalinha, quando parte alguém antes da hora prevista, é ela quem dita nossas leis e, altruísta, que muitos dizem ser egoísta, a vida é o que ocorre entre a sala de estar e a mesa de nossa cozinha.



Image by pesare

01 outubro 2009

anáfora dietética



Ela gosta de fazer teatro. Sai de casa de nariz empinado e ela mente pra todo lado e há quem diga que é feliz a mulher de batom. Primeira rua e olha pro alto. Prédio gigante e o vento ágil faz o cabelo dela se espantar. Então se arruma e reflete no carro sua fragilidade de gente comum. Um lanche, café da esquina, e trabalha como qualquer um. Fala pelos cotovelos, contando casos que nunca teve, fazendo templo sem altar de santo e, Ave Maria, ela é feminista, saia curtinha e mechas no cabelo pra homem notar. E o homem vê. E passa todo dia, ensaiando sua cantoria, portando inocência de menininha e os seios evitam a gravidade e o tempo dela é de estandarte e ela, rindo alto, bela falando demais. Acredita em tudo que é conversa. Elogio cega, moça esbelta — pensa que é novidade quando, na verdade, vive e trafega como qualquer um. Triste é ser comum. E há gente que dá conselho, ela obedece e segue em frente, mesmo dando passo pra trás empacando em seus repentes envergonhando suas mulheres ancestrais. Astrologia da modernidade, recém-casada e mula de quatro. Caberia a mula em um elevador? Em coro o dia canta, esbanja sua vida, menina tonta e ninguém se importa se você veste prata ou dias de março e, estonteante, o dia chega ao fim. Dia seguinte, o mesmo quadro. Vai as ruas em salto alto, acreditando que seu bloco é único e seu carnaval é visto por todo mundo e lágrima desce quando a mula percebe que vive e morre como qualquer um. E ela sonha ser predileta, mocinha magricela, mas é cópia de novela e, fabulosa que só ela, bolsa vermelha e carrega dentro dela, a originalidade e a elegância de um sanduíche de mortadela.



Image by mollie

26 setembro 2009

a sombra e a prece



Do panorama aos edifícios, escolho o que me causa risco. Gosto de assombrar-me. Gosto também de ressaltar solidão quando deliberam-me companhia. Ah, que bela é a vida sob a cegueira da qual o sol se desmantela. Hoje, exata hora em que escrevo, lembro-me; roguei pragas à costureira, ao sapateiro e ao plebeu de nome rude. Tantos anos agora e não há quem diga que surtira efeito minha vernácula mesquinha que fez de mim triste e equivocada sombra em acúmulo de tudo que por tempos disse. As pragas caíram sobre mim. Não ando; arrasto-me. Não falo; balbucio. Não amo; aleijados sentimentos cercam meu olhar. Não politizo; monarquia perdida na história. Não planto, não colho e, ao que me resta de contento, semeio maldade que é a única coisa que me alegro em fazer. Velhice enrugada, beleza engolida pelo tempo e, de agora em diante, aos velhos e sujos padres e oradores cristãos, servirei meu corpo de alimento para que roguem a mim o bendito perdão. E descanso em paz porque a vida é longa demais aos que dela fazem diversão.



Image by Slawek Gruca

24 setembro 2009

artesã de ilusórios



Um belo dia decidi que escreveria um livro. Em minha imaginação, tudo seria simples. Uma capa, muitas folhinhas cheias de palavras, muitas idéias para a capa, contracapa, prefácio, muitas imagens e eu poderia publicar um livro, plantar uma árvore e viver feliz com meus botões. Mas o quadro foi bem diferente do que sonhava minha mente infantil. Em fevereiro de 2009, eu já estava com todo o material que seria publicado e saí em busca de editoras. Recebi orçamentos, muitas palavras de encorajamento, oportunidades de ter um livro meu publicado e divulgado via internet. E eu só queria o livro pronto. Nada mais. Um livro com as minhas palavras que ora vêm trocadas, ora consigo deixá-las na linha. E, com a ajuda de muitas pessoas, fui tecendo o livro. Entrei em contato com a Editora Universitária, aqui em João Pessoa mesmo, e o editor me disse pra enviar o material por e-mail, com as devidas correções e, em um passe de mágica, o sonho seria, de uma vez por todas, concretizado. Eu não sabia como funcionavam questões editoriais, prazos e muitas viagens à editora pra ver o livro sendo construído. O livro Artesã de Ilusórios nasceu de um conto, narrativa, texto que traz o mesmo título. E, na procura por uma capa que vestisse bem o que eu havia escrito, enviei um e-mail à artista plástica Jô Cortez que, prontamente disse poder fazer com grande alegria uma tela que ilustrasse meu trabalho. E, no meio do caminho, encontrei uma pessoa que se dispôs a me ajudar. Logo, passei a enviar e-mails. A querida amiga e escritora Eulália Isabel Coelho (Biba) aceitou de boa vontade e grande generosidade ler o material que eu enviei e escrever algumas palavras que ilustrassem a contracapa. Palavras que já receberam muitos elogios dos poucos que já estão com o livro em mãos. O prefácio não poderia ser escrito por outra pessoa que não a Zélia Maria, especialista em Literatura Anglo-Americana, grande amiga com quem falo a respeito de literatura, falo de meus textos e ela me ajuda a ver onde preciso refazer palavras e consertar pensamentos que não ficam muito claros quando escrevo. E corri com o tempo pra fazer tudo como deve ser feito. Diagramação da capa, do livro em si, revisão, outra diagramação e assim por diante. Foram muitas revisões, releituras, muita organização e fé para que a Artesã existisse no plano material. E, em outro belo dia, o editor José Luiz disse que gostaria de levar meu livro à Bienal do Livro no Rio de Janeiro. E fomos. O livro e eu. Pude estar lá, ver a reação das pessoas ao tocarem o livro, fiz amigos e fiz mais fotos do que se fosse dia de casamento. Eu digo que foi um pré-lançamento porque haverá outro lançamento aqui em João Pessoa, cidade onde moro. Já recebi e-mail de amigos querendo adquirir o livro em questão e decidi escrever no afeto e dizer que sim, podem adquirir o livro entrando em contato comigo. Eu bem queria ter escrito uma página só de agradecimentos, mas esqueceria alguém e isso seria injusto. Tenho muito a quem agradecer. Vocês que, desde sempre vêm ao afeto, leem o que exponho e me encorajam e me fazem, cada vez mais, seguir adiante. Pretendo escrever por muito tempo. Mesmo que esse muito tempo seja apenas um raro instante.

E para ler Artesã de Ilusórios (204 páginas em papel pólen e tamanho normal) basta entrar em contato comigo, enviando um e-mail para leticiapalmeira@gmail.com. E ficarei mais feliz, autografando livros para os meus amigos escritores e pensadores do mundo virtual.

No fim das contas, que é ponto que agora chego, estou feliz. É gratificante. E sobre o conteúdo do livro, adianto que tentei fazer do artesanato, palavras.



18 setembro 2009

amor de ética



Quero amar cara de alma e corpo na mão. Amar doente morrendo toda, agonizando clemente, fazendo simpatia pra dizer que tenho amor. Chamar curandeiro que me faça desistir e voltar a amar como marcha à ré de carro automático. Doente de amor e vadia. Fé torta de minha língua em pescoço de amor e amar de ferro, fogo e pontapé na rua quando o amor esfria. E se esfria, quero amar mais cara e veemente. Amor de idólatra, romana, esquecendo de mim e amando Deus, somente Deus, e amando tudo. Até as sujas e simplórias mãos. Amar de vagabundo dormindo no chão e rir tonta de mim mesma porque amar me faz rir e abrir flores e ler em voz alta cartão clichê que diz que ama. Me deixa amar mais cara o seu signo, sua voz e a fome que tem de tanto procurar velas no cais. É tudo vazio e amor só há em mim porque sofro de amor e repudio padrão e não caio na boca grande que diz mal de mim. Eu amo imenso de corpo e talos de tudo quanto é flor que existe. Amo mais que mãe quando o filho vai embora dizendo que não volta e não olha pra trás. E você me perde porque não sabe que amor é doença boa que acomete de tristeza e crueldade tudo de um tempo só. Amor meu é copo cheio entornando água e relógio contando minuto que já passou. Amo largo em farto tempo e, se morre o amor primeiro, amo outros tantos mais.



Image by radina

10 setembro 2009

curta metralha



Túrgida amanheceu Dona Maria. Ao pé da letra, cheia d'água, que a casa dela ficava ao pé do barranco e a chuva, que é boa na seca, fez mal à Dona Maria e levou tudo que ela tinha. Fogão, geladeira, colchão e um monte de imagem de santo. Levou as paredes da casa também. Que a casa de Dona Maria era feita de papelão, resto de casa de gente rica e um pouco de barro que era pra dar liga à mistura da casa de Dona Maria. Quando fez a casa, ela ficou feliz que nem gente. Encheu as paredes de retrato dos filhos que se debandaram pra cidade grande. Para Dona Maria, cidade grande era chance de outra vida, melhor, de sustento, de boa coisa abastecida. Era sinal de vida ganha. E Dona Maria sabia, através do diz-que-me-diz, que seus filhos vendiam pedrinhas e faziam arte no sinal de trânsito. Dona Maria sentia orgulho que seus filhos eram artistas. Mas essa parte não fez notícia. E era manhãzinha quando a chuva decidiu levar tudo que era de Maria. O barranco desmoronou. Dona Maria acordou com um tronco de pé de árvore dentro da cozinha e chegou o recém-formado repórter querendo exibir sua fome erudita e enfeitou o dia de Dona Maria declamando em retórica a tal palavra desconhecida. Túrgida estava Dona Maria. E a senhora de muita idade e muita vida sofrida sabia nada da tal palavra bonita. Sabia apenas que teria de refazer a casa, catar mais papelão e dar um jeito de encontrar sua vida que ali seguia fugindo com a água da chuva que leva tudo que é mundo desde o alto céu até o triste chão.


Image by W. J. Solha

06 setembro 2009

pátrias



E nada mudou. Sempre espero, de ingenuidade que sofro, que algo de novo aconteça. Que portas se abram de forma mais obesa — exageradamente escancaradas, porque de frestas já basta a vida que espanca a rotina que dela nasce criança e cresce adulta a caducar. Ainda vejo praças e o caminhar da gente. Chafariz ateando água em meu fogo e que sufoco viver do lado oposto onde nada acontece e tudo que fora vivo fenece de poeira e esquecimento. Quisera eu viver ao vento. Ser poeta ou enamorado das coisas de simples aspecto. Mas adoeço todo dia desta agonia de ser complexo. E novamente à espreita. A vida não nos respeita e canso de falar. Amarguras tantas sofro e calcifico minhas devotas multidões de mim. Caço à margem dos simbolismos minha identidade que fora tão minha e nunca furtada e é verdadeiro o medo de cada um. E alcançou-me a mudez atônita da verve. Enclausurado não é somente aquele que adormece entre quatro paredes e grades em pequena janela de onde o sol ensaia humilhar. Sou também prisão de órbitas e minhas poucas e parcas alucinações não me fazem mundo. Apenas solidão. Se me demora a alegria que é dita pela vida, a tristeza vem a mim forte tenaz feito pássaro de voo raso que me faz mergulhar fundo ainda mais em meu deserto. De olhos maciços o exército vem ao meu encontro. O confronto não é brutal, embora ecoe em mim aversão que se nutre de minha vertical masculina fonte. Debruçadas nos degraus de minha casa, elas se armam. Sorridentes entre meus pertences, elas me ameaçam ofuscar. Penitentes de tantos santos oram minhas vidas antigas que me fazem vivo enquanto existo. E se aproximam a me esnobar. Acordo em grito de flagelo, abraço a mulher que tenho e meus filhos dormem no segundo andar. Essas memórias de ontem me inquietam e não vivo do presente porque glória não há neste tempo de agora. Minha mulher não entende a vida que um dia deixei passar. A vida que tentei sufocar de tanto tentar esquecer. E me julga louco? Portanto, declaro óbito de minha lucidez e ainda à espreita a vida a me desgovernar.



Image by pesare

01 setembro 2009

o revés do anzol


Será que se pode ficar ainda mais vazio? Vazio de sentido, de espírito, de significado? Será que chorar faz mesmo tão bem assim? Sempre aquela voz de compaixão dizendo que chorar faz bem. Chorar liberta. Então vamos tratar de chorar só pra ver se vale a teoria, se realmente funciona a crendice e chorar até raiar o dia. E o azar realmente existe? Onde mora? Onde decora seus truques e quem ele escolhe primeiro? Finas perguntas — parece mais coisa de criança. E talvez seja. E a paz? A paz das brancas passeatas. A paz de fim de filme. Quem criou? Que dimensão tem? Tantos precisam dela, mas parece estar sempre ocupada. Parece que perde sempre a hora e quando chega, já é fim de carnaval. Vai ver a paz goste de chegar por último, chamando atenção de bandeira e lenço na mão. E as promessas? Quando quebradas, são odiadas. No entanto, no meio do tempo, quando completas, perdem a graça. Promessas são perfeitas — sinceras ou não. O dia se completa com uma bela promessa e já somos felizes. Promessas merecem respeito. E a tristeza? Já que alegria existe, por que não sua companheira? Por que fugir de ser triste? Um tempo, um século de minuto, um intervalo de luto. Nada arranca tantos pedaços assim. Ficar triste é saber que o oposto existe. Ficar triste é saber que esperança não é tolice. E vem sempre a multidão mentindo alegorias e fazendo zombaria dessa vida. Nada melhor que provar o veneno e depois sentir a cura em seu antídoto. É o revés da nuvem e do anzol. Viver é quase isso. Uma criança aprendendo perguntas, uma senhora carregando vento em sua sacola e gente passando dentro de um trem.



Image by immacola

27 agosto 2009

mísero eloquente



Não sou fidalgo, sou de outro algo. Talvez um alaúde, talvez ostentação. Plangente palhaço sem riso, sem brilho e remota cidade sem civilização. Perco o passo a saltar entre as vielas de curioso que trago entre tantas cenas o meu olhar inquisidor. O mundo não me cala e as senhoras de enormes olhares não me amedrontam. Eu as afasto com meu nobre erotismo porque de meu caminho arranco todas as culpas e fardo algum trago comigo. E todos verbalizam suas soluções como se fora eu um fantoche posto para recriação. Renego todos que me tocam porque crio minhas curas, minhas denúncias e medo só existe se houver outro ser ao meu lado porque me divirto estando só. Pescador de rede tamanha de todos os peixes e, de todos os mares, sou herói. E Helena me traiu burra menina. E de quimeras é feita a vida assim como o pedestal de onde ergo minha fonte em todo o horizonte e minhas ilhas são vistas a olho nu. Engraçado é esse traço de invenção que me fora dado. Embora fantoche me denominem as vozes humanas, liberta está minha primeira condição. Viver de cara livre e ser alegre ao modo de ser triste escrevendo lábaros livros e fazer crescente minha criação. Sem mim não há mundo e trago entre as palavras a prova de meu talento que é único, singular e adjetivo. Vadios são os outros. Sou escritor de livros e crio o que do lixo ímpio se esvai. Na verdade, invento misérias para alegrar a triste sorte dos pobres poetas. Não sou fidalgo. Sou trapo rasgado e esquecido entre tantos algos que fingem como eu.



Image by luisa m. kelle

18 agosto 2009

horário de brasília



Jovem ideológico, graduado com louvor, orgulho da família, destaque em porta-retrato de estante, sorriso de tom natural. Aos 26 anos e o futuro tão perto acenando seus dias de ouro e viagens ao exterior. Jovem orador da turma, elegância em dia de formatura, aquiescência de seus ancestrais. Mestre em pós-doutorado, vias de fato, um batalhador. Mas, o mundo que gira ao contrário, faz jovem honesto encontrar, à face da peste, pivete assustado que dispara certeiro fim no peito do rapaz promissor. E essa ironia sem serventia bagunça a vida, desidrata alegrias e amontoa de medo quem ainda acredita que o vento mudou. Logo, ao passar dos dias, em manchetes esquecidas, à justiça cega e tartamuda, o tempo ruiu. E, para família do jovem, morto sem glórias, sem pé nem cabeça, finda a história do Brasil.



Image by luisa m. kelle

07 agosto 2009

semânticos



"Não sou eu, mas sim o perfume
que em ti me conserva e resume
o resto, que horas consome."

(Cecília Meireles)



O fogo cruza o abismo de tantos eus e ergo a face justaposta em claridade que me espanta de amor e encanto ao vibrar meu canto e celebrar quem amo indigno de minha vontade. Se ora enxergo o que há em mim de tão bendito, vejo o aniquilado destino em fugir de tua força que era amor, agora exército. Armas contra mim, elemento vulgar de múltiplos trópicos, e morres febril em falsa túnica de minha outra espécie. Espalhas em sombra, em linha reta o verbo de esclarecer dor que tanto impacto me causa e que constrange a verdade que meus olhos não enxergam. Ora me tens amor, ora oposição. Ora castras minha voz, ora explodes em mim o orgulho feroz dos amantes. Ora corados estão nossos corpos, ora a terrível nuance de um despertador. E não importa se me cortas. Sobrevivo ao sangue que apavora as ilusões.


Image by Amélie Robert

27 julho 2009

galeria de eventos



Casas onde habitamos, deixamos nossa pele, nosso corpo, nossos olhos ansiosos em cada cômodo. Nos quadros opacos e na louça antiga e na louça recém-usada ainda suja de nossas mãos reside nosso registro. E são tantos os dias. Lembra o dia primeiro em que chegamos? A cozinha era de um aspecto tão sozinho e havia uma pequena lagarta dentro da pia. Como se nunca fora usada e água nunca a tivesse banhado e não sabíamos o motivo, mas a casa era de um desamparo, embora linda e brilhante em seus vitrais. Caminhamos mais. Três salas imensas de janelas grandes e abrimos as janelas e o vento nos acariciou. Terá sido Deus caminhando ou apenas um pouco de vida dentro de nossa casa esquecida por outros que a deixaram para trás? Lustres em lágrimas e a luz amarelada nos acalmou. O piso florido em cerâmica antiga e nos alegramos quando imaginamos a disposição de nossa mobília que ainda não existia, porém já era plano e sonho de nosso contento. Nossos passos pisando no chão e cada instante seria liberdade, embora a casa fosse grade, seria livre o nosso estar. Caminhamos mais ao corredor e quartos se abriam. Não enormes, mas amáveis. Paredes brancas e piso amadeirado. Havia cupim e havia vida, pensamos. Quem quer que houvesse deixado nossa casa aos temporais, não a deixou só por completo. Cupins, borboletas e outros insetos a habitavam e se fazia vida em cada espaço, do piso empoeirado ao teto inalcançável que nos envolveria em nossa diária busca de encontrar mais tempo dentro do pouco tempo que se esvai. E mais espaços. Portas e letras em suas frestas. Sempre registram existência aqueles que abandonam um lugar. Em uma das portas, no quarto último, havia uma escritura que nos fez lembrar crianças. Uma palavra e um desenho em caneta colorida que pensei ser difícil remover. E olhamos mais. Telhado nosso, nosso quintal, a galeria de nossos eventos se abria e nos chamava. E hoje é nossa. Nossa casa solitária deixada para trás ainda refaz em seus desenhos a origem de nosso lembrar. Não há abandono maior que a indiferença. Não há tristeza maior que um ligeiro discordar de verbos e um sorriso desatento de quem passa pela casa que finge não a ver. E ela permanece em suas cores perenes. Nós a habitamos, mas caminhamos ao deslocar do tempo. Um dia seremos nós os estranhos passageiros que também iremos de nossa casa nos afastar. E em seus cômodos, nosso encantamento será sempre sorriso ou discórdia, mas estará por inteiro. Porque da casa se esvai o corpo, mas, imortalizados em sua alma, habitam nossos fartos sentimentos.


Image by Hillary White

25 julho 2009

cegas orações



Bom dia em outra embarcação e a palavra dormiu ao meu lado e atrevida que é a menina, penetrou minha boca e agora se declina suave em muitas orações. Loucas orações de existir e sentir, a palavra se move escorregadia, embora queira ser o que sou e se erradia e sai pelas avenidas de toda concepção. Preenche esse tempo vazio, loquaz, demorado absurdo de acontecimentos do mundo e a palavra quer tomar posse de tudo e o que me resta fazer? Falar. Falo palavra e devoro fonemas e que me venham as cegas ordens existenciais. Palavra é alimento de quem fala e ouve e você ouve atrás de mim que sou porta e me abro. Tenho respaldo e categoria. Próxima página, destrói minhas linhas e ameaça minhas margens porque existir é dar a cara e fazer penitência e elaborar palavra que entorta as vigas de muitas construções. Mas que dirão da correta gramática que se irrita com toda a deselegância de tal verborragia? Gramática é moldura e a língua, que beija feroz as criaturas, é o dia rompendo a morte. O fim que permite sentido ao começo e o enredo é a saliência de quem entende. Mas não entendo. Que forja a minha vista todo o conhecimento porque palavra não obedece regras. Mecânica não se deixa. Rimada rebelde corteja a insanidade de nossas vozes. Que não entenda. Palavra não é de todo mundo. É como amor que se assume doença sem cura e que enverga a nomenclatura de todo ser. Esta menina que pula janela e traz dúvida e emancipação não é dose fechada. É aberta, eclética e digo mais. Palavra foge de quem a escraviza. É livre em toda língua. É sexo em exagero e honestidade de quem paga em dinheiro. E também é mistério e filósofo algum a iludiu. Porque intacta ainda está em minha língua, embora escorregadia e atrevida, performática finge ser parte de mim.


Image by Joe Hendry

24 julho 2009

leis de inércia



Qualquer palavra oposta ao tédio e a contundente pretensão de quem pensa que engana. Ela, abismada ao ver seu corpo exposto ao sol, pensava nos quadrinhos infantis, nos dias que passara com a família na casa da praia e, entre um cigarro e outro, pensava em Deus. Tinha aquela sensação de que Deus a olhava. O tempo todo — como se Ele não tivesse coisa mais importante por fazer. Em seu imaginário, Deus era uma figura romana, de enorme barba macia, passos largos, olhar reticente e uma face de quem aceita tudo. Ela não agia como Ele. Dizem que filhos saem aos pais, mas ela saiu do avesso. Não aceitava coisas. Quase nada, seria melhor dizer. Contradições lhe eram necessárias e, quando alguém evitava suas festas, ela ardia em ódio até ficar doente. Talvez fosse mal acostumada ou apenas quisesse mais do que lhe fora oferecido. Sim, porque parece que já nascemos de contrato assinado com vida. Tudo tão certinho. Lugar em que se nasce, vaso no lugar, rua em que se passa a infância, amigos, trens, o dia em que se fuma o primeiro baseado, o primeiro amor, primeiro sexo, primeiro fim, trabalho, filhos, novos amigos, chaves do armário e obituário. E ainda outras coisas. As desavenças e os conflitos que o tempo vai nutrindo e nos fazendo engolir. Fins de semana fora de casa, conversa séria depois da discussão e o porre clichê depois do murro. Para ela, tudo soava como conseqüência. Longe de acreditar em predestinação. Pensava apenas em contratos assinados antes de assumirmos nossa consciência. E o sol queimava seu rosto e também seu corpo e a mente que não se cansava de trabalhar. E pensava sempre em Deus. Desnuda de bom senso e meio alta de tanta embriaguez que já havia sofrido, precisava rir. Era engraçada. Talvez sua personalidade fosse parte do contrato. Um ser engraçado, feito de progesterona, cabelos tingidos, unhas por fazer. Filósofa e doida. Feliz e doida. Causava-lhe dor lembrar de seus pecados. Mas como foram bons. Como foram certos. Ela os queria de novo. Errar de novo e errar sempre. Nada melhor que uma noite cheia de ressentimento e arrependimento. Ela não vivia da alegria pré-carnaval. Gostava de sofrer. E lá, sob o sol de Deus, sofria seu penar e pensava nas próximas linhas previstas em seu contrato com o Altíssimo. Uma nuvem escondeu o sol e ela se sentiu feliz. Talvez fosse esse o próximo passo. Como um alcoólatra largando a bebida, ela agora passaria a aceitar os tropeços da vida. Afinal de contas, a vida não passa de um scprit de erros acumulados, saudade de outros tempos e essa covardia latente que nos prende aos outros. Somos todos doentes, ela pensou. Precisamos uns dos outros e isso é deprimente. Acendeu outro cigarro, esticou o braço e alcançou o telefone. Alguém anunciando atividades, formalidades, credos desnecessários. Ouviu, aceitou e correu em direção à piscina. Largou-se dentro d’água e deixou-se imóvel — indigna e alheia. Que o mundo exista sem mim.


Image by Mandalin

14 julho 2009

parvos revolucionários



Parvos e desonestos, defenestrados em arestas e observo de minha janela os batalhões a crescer. Caminho de um lado a outro da casa e cômodos me assustam em estatura. Tenho medo dessas criaturas, mas, oh Deus, que hei de fazer senão aceitar a glória de tão rebeldes visitas? Caminham em torno de meus muros, castelos tenho, montes ao redor, vozes lúcidas me atingem e não temo o toque dos clarins que anunciam o começo de mim. Vou ao combate. Tenho em mãos o escudo, a arma, meu estandarte. Sinto-me forte tal Golias não seria ou o belo Apolo não poderia se comparar. Minha armadura é de carne e osso e, muito embora tema o confronto, sigo. Pés no caminho. O assoalho brilha e brilha também minha empáfia. Mas ora que sou medroso tal qual Judas medonho traidor. E na história, muitos de mim caíram em maldição. Lembro das aulas em que ditavam os professores os heróis abençoados de nossos tempos. Não me comparo. Sou violento, embora covarde e enfrento os parvos que se engrandecem, oram, ditam regras, calam outras vozes e sou louco Maquiavel trancafiado em sua cela. As janelas estão abertas, intrusos em meu castelo, Dom Quixote estava certo. Moinhos são dragões. De arma em mãos, abro os portões que me protegem. Não suporto intrusos em minha solidão. Ataco sem alarde ou balbúrdia. Apenas um som emana de minha boca. Que não me ouçam os vizinhos, que morram os inimigos. Sou Augusto, outrora rei da Macedônia, comprador de sapatos e agora moro solitário e tenho insetos como companhia. Devoram as plantas de meu jardim e eu os enfrento. Sou combatente moderno. Eu os aniquilo em gotas de inseticida e mordo os lábios de prazer. Minha casa é só minha e a história me protege. E eles devoram petúnias e eu os silencio venenosamente. Ora que a história não irá rir de mim. Mato insetos durante o dia e à noite celebro o fim das coisas miúdas, meu amor pela Beatriz e a vitória de minhas lutas. Que não me enlouqueçam mais esses insetos imbecis.

Image by Justine

12 julho 2009

artesã


Vou rezar missa inteira — de escapulário e vela na mão. Fazer promessa, correr na chuva, ser lenta igual tartaruga e abrigar e alimentar os humildes. Fazer poesia com rima, pagar pecado alheio, aceitar seu evangelho e lidar com a vida que me lê torto todo dia. Vou pintar muro do vizinho, fazer caridade, expandir minha contínua hipérbole de ser e ler salmo pós salmo e fazer chover. Vou acalentar filho sem mãe, encher bolso vazio, concertar em quarteto de cordas, encenar Cleópatra e ser filosófico clichê romântico em Viena. Viajando através dos dias, serei o triunfo do beijo, a primeira redação infantil e artista do Circo Voador. Artesã das horas, coincidência simplória e dia de pagamento. E, de volta ao meu tempo, me visto de vento, amor violento e faço sorrir toda e qualquer triste criatura que saltar de estrela sem pára-quedas ou poeira etérea. Vou engolir a explosão nuclear. Fazer mudo falar e endireitar a dor trôpega de quem chora sozinho em mesa sem bar. Serei a intimidade da união e a bondade da música de Beethoven. Agudas sinfonias, harmonias, romarias e que ria de mim quem não quiser ser. O céu abriu, nuvem sumiu e Deus é milagre sem hora marcada. Tempo bom, tempo ruim e serei sempre cor e desenho do modelo real. Serei meus irmãos, meu corpo, esperança de moça quieta, Dorothy e sua bicicleta e vento gentil que acorda janelas. Serei você de cara feliz.


Image by Vanessa Decort

08 julho 2009

hemisférios



Esse texto é meu. Meu porque escrevo e porque sigo as opiniões contrárias. O contrário é sempre o imaginário de meus trajetos. Não sei meu nome — ando de costas para o tempo e não uso resina. Não faço parte de relíquias. Não as tenho. Acordo com um pontapé do sol — mesquinho ou misericordioso — tentando enganar meu mau gosto e vivo feliz em minha fase lunar de não querer ser cartão-postal. Não sou. Não sofro recaídas. Não bebo das águas tônicas desses rios sem profundezas. Sou contrária. Uma mala sem cadeados e, revolta, guardo palavras soltas em minha boca. Falo como quero. Não tenho aquele comportamento primário de sentar ao chegar. Sopro e derrubo portas. Catástrofe prevista ou dedicatória em foto de artista. Sempre entro de mãos vazias — vagas, finas e minhas. Sou toda pronomes. Fui, em antigos dias, arremessada pelo vento que não anda por minha casa. Falo o que me faz bem. Ódio me faz bem. Incerteza transparente me alimenta. Anjos em miniatura e desfaleço limpa após ser desejada por mim mesma. Quero a mim mesma. Desejo dos velhos que esquecem remédios e sou branca. Irmã mais nova das idades. Sou o que venho a dizer e digo. Em todas as letras que me suportam. Grande ou pequenina, pobre ou injustiçada, recolhida e linfática, desfaleço na cama e durmo sem pena. Sem pena e sem roupas. Leio por distração e repito milagres. Sou satélite de céu único e aplauso em cena aberta. Sou o que quero ser. E meu texto é meu e olha para você que olha para mim e vê o quanto eu sou selvagem. Grave estoque de bondade. Sou pele e músculo com tendências hermafroditas. Sou rebelião fora e dentro e amo com pesar os textos que flagram meu pensamento. Texto que não pensa em meu revestir — pouca trégua para minhas lutas. Sou luta e criatura que vence a madrugada. Morro de dia e, à noite, vivo a continuar. Se há estrelas, admiro. Se elas somem, eu as crio. Não sei o motivo. Ando culpando até a ausência do sol. Essa nossa mania, nossa plangente busca por culpados, carrascos, sentimentos odiosos. Estou me libertando disso ou estarei me entregado ainda mais ao interrogatório? Porque se há um culpado, sou eu. Permanecem a lentidão e as fracas certezas. Culpada por viver tudo e digo mais. Que me venha a gota d'água. Que me venha a dose exagerada dos excessos. Porque estou aberta e pertenço a todos os hemisférios. E vivo imensa à apoteose dos acontecimentos.


Image by Daniela Calumba

06 julho 2009

substantiva



É o belo que me substantiva. Amplas janelas — Noites tranquilas e a poética verbal dos tagarelas. Espantosos homens e mulheres. Poetas de portas abertas e a noite a me equilibrar. Nascente oratória das horas floresce em meu seio humano. O canto. O infinito. E de minha bélica coragem imprecisa, livre enlouquece minha outra margem de mim. Que sou eu — Que ora tem sido a gentil feminina garoa que escoa. Dos telhados e ecoa das têmporas dos estilhaços de toda a minha bondade em ser premeditada nova ordem de me calar. É a haste que me adjetiva. O acerto digno das horas longínquas. O denso beijo que se precipita. Dos lábios — Da retina. E ao abrir e fechar de olhos — Adultos olhos do tempo, renasce a dor ausente e a extinta flor me aquece e me toma em mãos porque sou lasciva menina ingênua que chora em únicas lágrimas o poema por hora inexistente. E as tardes se estendem. E ainda falam de amor as bocas chorosas, esquecidas e sorridentes desse intervalo entre minutos de muitos nomes, de muitos verbos, em loucas vozes de todo o mundo, de toda a gente.


Image on deviantART

03 julho 2009

crime de minha arte



Plágio, grande amigo, voz que repete o que já fora dito, serve-me agora de inspiração e logo me transformo em casto marcapasso. Floresta sem árvores, sem retorno — luz da desoriginalização. Porque não escrevo. Arremesso medo e há quem apanhe e faça vida dentro da letra que há em mim. Li Vidas Secas e me contrariei, então não copiei prosa desse tempo. Li tudo de forte que há em minha estante. Li entre pobres e fracos e foi um alvoroço quando repeti voz da Dailey conversando com Hemingway em cartas e o pior assombro fora o dia em que abri a porta e dei de cara com Platão comendo chuva e vestindo jeans. Fiz um tratado quase honesto e corrigi erro de estilo. Mas falho nesse ritmo — não tenho estilo e à minha língua, falo mal. Só não espero que você, Plágio Servil, venha me amontoar em ideias que já engoli. Sou apache e, de praxe, imito à francesa. Mas não saio da mesa até a última citação. Cato texto assim — até em conversa fiada e na triste verdade de não se ter o que dizer. Sou parte da manada que sofre desse mal. Sou o silêncio do planeta em explosão. Sofro ao criar e perco voz quando, em transtornos, me torno Deus. Mas Deus ninguém quer ser. Responsabilidade de cuidar de casa e ver tempo voar, só mesmo para os antigos. Hoje se escreve reto e torto e texto cambaleia no retrovisor de nossos olhos. Texto esconde rosto, esconde gosto, esconde verso em inverso do que se quer saber. E dessa corrente vive o escritor — corte umbilical a cada flor tingida por uma palavra que já se contagiou por ordem de outro autor.

Image by Ashley

01 julho 2009

o silêncio das agulhas



Ela acordou, vestiu suas roupas e saiu. Ficou no ar o perfume. Sempre permanece. Ela abandona a casa por algumas horas, mas permanece. E eu não disse bom dia. Falei nada. Desejei tudo. Deitar em nossa cama, fazer dela o meu absurdo e amar ridículo a minha bela feminina. Mas eu não falo. Verbo nada e vejo a imagem se distanciando. Vou à varanda e a vejo caminhar. Indo longe o seu vestido azul e seu modo de andar leve e alegre. Mas é de uma alegria triste. Por isso não sei partir. Já ensaiei dezenas de despedidas. Em cartas, bilhete colado na geladeira, deixar um poema entre as roupas que sei que ela irá arrumar. Ela vive de arrumar a casa, elaborar planos e amar até o desengano quando fico mudo de receio e não respondo quando ela me questiona. Ela não é feliz, embora viva de sorrir. E me ama mais do que mereço. Admito ser um erro em sua vida porque não a compreendo. Aliás, eu entendo. Compreendo você que mal sei dizer o nome sem que me exploda em cólera, ciúmes e esse terrível desejo de matar você. Me deitar sobre o corpo e silenciar a sua boca de tanto amor. Mas sou inesgotável em raiva. Não digo palavra que possa acariciar a mulher. Minha mulher que ama o homem que sou e, mesmo que finja que não estou a observá-la, ela sabe. Lê meus gestos e pensamentos. Talvez seja esse o motivo de meu silêncio. Sou mudo de amor por este ser tão pequeno e se tranca no quarto quando brigamos. Eu fico atrás da porta. Ela chora e eu queria entrar e dizer a verdade. Sou amor e não pela metade. O que tenho é essa vontade que não evapora. Não é como a chuva no asfalto que se ergue ao ver o sol. Eu preciso de você como um museu precisa de seus fantasmas. Preciso de você assim como poetas precisam entornar todas as memórias e derrotá-las. Eu amo você como quem morre. Febril e congelado. Antiquado de tanto amar com medo e essa minha feição de desapego é a minha proteção. Você é mais forte que eu, embora esteja chorando. Um dia, e ela chora. E eu penso em dizer o que deveria ser dito, mas é trágico o destino de um homem imenso de orgulho. E as horas passam, ela volta. Trouxe flores, falou de alguém que morreu e me serve um café. Pessoas morrem e hoje chove. E o perfume de minha mulher me faz calar. E da varanda vejo as árvores enquanto ela mulher se despe em nosso quarto. O silêncio me liberta quando ela me faz desejar.


Image by cessar

30 junho 2009

enquanto adormece o sonhador



E dorme o dia, cansado e entrecortado por fios de alta tensão. Com ele, no quarto ao lado, esquizofrênica pensa a humanidade. Esbelta figura rural metropolitana. Lança chamas de vontades e ardente em tantas vivas memórias que reclamam seus vícios. Oram suas meninas e ela não consegue dormir. Humanidade metafísica descontente acontece suja nas mãos do cobrador de ônibus, na boca banguela do homem de rua, nas rachaduras do tempo, dos minutos, nos exilados, esquecidos e poéticos dias de ontem. Abre os olhos, sem sono, soberba, observa os ares e exaspera em incerteza e ferve nas curvas das cidades, nas esquinas, no véu da noiva, no enfadonho escritor que perde palavras e no filme sem graça, sem audiência, sem bilheteria e quer sonhar a humanidade. Dentro da voz do povo, no olhar de quem suporta a arma e no medo de quem morrerá. Nos meninos doentes, em desequilibradas filas de gente e nas mãos do carteiro ela fala. A humanidade fala e não dorme. Assombra e, ainda viva, não abandona o homem que a declara identidade. A crua humanidade que fere a gente permanece de olhos abertos. Não dorme que há consciência pesada. Ama que há inflamação de vontades. Aniquila como a mãe que protege em exagero e evoca o demônio de dentro do múltiplo humano e fala forçando a máquina corpo que necessita existência. A humanidade não dorme. Quem dorme é o homem. E acontece o tempo enquanto as roupas se acariciam sedentas em nossos varais.


Image by HeatherHorton

28 junho 2009

26 de junho




"Ela põe uma música antiga. A sala se completa. Danger Bird. Neil Young incorpora-se às paredes, ao teto. O ritmo dá vigor às coisas. Estremeço. Não sei porquê. Não entendo ainda muitas coisas. Coisas. Coisas. Coisas. Cada vez que não sabemos designar algo precisamente, dizemos: coisa."

(Eulália Isabel Coelho in, Arremedo)



Querida Eulália,


Gosto de seu nome. Soa como nome de gente sabida. Essa gente que tem resposta pra tudo, sabe? Essa gente boa demais que não chega a caber nesse mundo. Você é assim e olha que mal conheço você. Trocamos palavras e eu, audaciosamente, lhe pedi que lesse uns textos que escrevi. Eu escrevo de forma maluca e, até hoje, não sei como você conseguiu ler tudo e ainda me deu de presente aquelas palavras tão certas que nem eu mesma sei usar. Morro de vergonha. Mas é a vida. Não sabemos de nós e por isso precisamos do outro.

Acabo de ler seus contos e, a cada parágrafo, fui pensando nessa força que faz a gente escrever. O que será? Será mesmo que estamos procurando desvendar mistérios ou segredar ainda mais essa vida? Eu não sei as respostas. E acho difícil que alguém encontre. Escrever é o moldar da argila, como li em seu conto Arremedo. E essa energia que os personagens nos trazem? De onde vem, Eulália? Estaremos nós tão unidas a esses seres que sabem mais que a gente possa imaginar? E por que criamos tanta sabedoria e não conseguimos pisar firme nessa vida? É tanto erro.

Eu queria mesmo encher você com uma bela crítica, dessas que a gente lê na Cult. Mas não. Consigo não, Eulália. Admito. Ando de cá pra lá cheia de livros e entendo narrativas, mas não enforco texto de ninguém. Eu recebo de braços abertos. Foi assim com a sua personagem Alba. Eu sou a Alba. Você sequer me conhecia e escreveu um conto falando de mim. Veja só como a literatura é divina. E divina de Deus mesmo. Ela sabe de nós, guia nossas mãos. Não, eu não sou espírita e também não acho que escrever seja psicografia. Eu acho que escrever é viver mais que duas, três, milhões de vezes. Em seu conto, vivi mais que pude. E engoli as palavras e me maravilhei. Porque muita gente tem talento, mas poucos sabem moldar a vida dentro de um texto que olha pra gente. É como diz aquele poema que me foge à memória. Seu conto me fez ver que tudo quanto é coisa ainda está por ser feita. E admito. Você é uma contista e das grandes. Tenho inveja não. Fico é feliz. Porque é fonte de pensamento e como é bom deslizar os olhos pelas palavras e encontrar Eulália fazendo vida.

E segui lendo O Imprevisto, outro conto seu, e uma tempestade de coisas me veio à cabeça. Tanta gente nesse mundo que eu queria ver no céu com diamantes. Não que eu seja psicopata ou tenha meu coração repleto de ódio e repulsa. Mas é que se torna cada vez mais impossível engolir algumas coisas. E como você disse: "Cada vez que não sabemos designar algo precisamente, dizemos: coisa". Então tudo é coisa. Mas você não é coisa e seus contos também não são coisas. Porque leitura, em minha opinião de leitora, é algo que nos envolve. Feito um lençol mesmo. Ou uma máscara. A gente, ao ler, precisa aprender a vestir o que é lido. Enxergar, reconhecer e aceitar. Não que eu aceite tudo que leia, mas é que tudo que é arte e recriação, é difícil de se ir contra. Não consigo dizer da maldade no que li. Só consigo dizer que, conhecer uma escritora, assim meio que em segredo, é como estar numa biblioteca gigante, no maior silêncio e descobrir um livro nunca lido. Sei que meio mundo já leu você. Mas essa é a minha terceira leitura de sua obra e estou feliz. Tenho problemas que são coisas, pessoas que são coisas e a vida que me impede, por muitas vezes, de dar atenção ao que é perfeito. Mas eu tive essa oportunidade e respondo como se fazia antigamente. Através de uma carta que vai por e-mail agradecendo por tudo e dizendo: Estou com você e admiro cada palavra que se liberta de seus personagens.


Com carinho,


Letícia Palmeira


Eu escrevo cartas. E essa foi escrita para minha amiga e escritora Biba. Talento único e voz de mulher.

Photo on deviantart

23 junho 2009

a carta de ophélia


Tenho piedade das centenas de pessoas que dormem ao frio, engolindo chuva e desamor. Penso nas coloridas manchetes de revistas e nas constelações de um céu distante. Será que perco tempo? Será que me perco? E ainda povoada está a minha retina pelas belas colinas onde o sol adormecia enquanto eu seguia. Metade de um dia por pensar e retornar ao que sempre fora meu. Tanto caminho. Tanto chão. O carro transpirava fumaça e eu decorava, palavra por palavra, sua oração. Por amor, este amor entregue, sôfrego e desprotegido. Por sua bela face e seu olhar de bando ágil e tonantes cores de afeto, transbordei cálice e me abandonei certa de que minha travessia era por você. Altruísta e pequenina, decidi pela vida dos errantes, risonhos e sonhadores. Romântica e cheia de vida, provei da chuva tardia, adoeci, morri e, entregue, dei meu corpo ao sacrifício nunca compreendido. E me dizem moderna. Não sou. Sou mulher. Deixo o modernismo para as senhoras donas de suas vidas. Modernos são os prédios que se acumulam em cidades. Moderna é a fome. A morte sempre será. Moderno é o dia, a dor, a nova alegria e moderno é o seu olhar. Constrangedor, me julgando, colhendo e furtando. Mal entendem estes olhos, que a vida fora por mim cerzida. Mal sabem que sou vaso trincado que insiste em abrigar as flores que de mim crescem benévolas. Mal sabem amores que se calam, que a vida é esta flor gigante que nos alimenta e nos dá asa e fogo nas frias horas. Porque a vida é queda livre e viver é espelho de outros dias. Moderna? Não direi. Sou o pensamento liberto e criança em colo de mãe. E ainda viajo? Ainda vagueio através de um céu que se embrutece em negras nuvens? Eu curo as dores de meus inimigos e alimento sonhos malditos e, se ainda respiro, é porque trago este amor guardado, sagrado e bendito. Aprendi que amor existe. Se verdadeiro, persiste. Se liberto, triste abandona o lar. E beijo com amor sua boca adormecida, silenciada pelo orgulho, e fatigada pela brutalidade que insiste em me ignorar.


Image by ElgntDrgn

17 junho 2009

santo de barro



"Vejo a multidão fechando todos os meus caminhos,

Mas a realidade é que sou eu o incômodo no caminho da multidão."

(Chico Buarque)



Procurar emprego é o que tenho feito nos últimos cinco meses. Todo dia vasculho cada parte dessa cidade e, emprego que é bom, nada. Vai ver não passo de um azarado cuja sorte fez questão de me abandonar desde que nasci. Lá em casa, todo mundo tem emprego. Até a Vânia, a lavadeira de roupa. No nordeste é comum, mesmo que se tenha máquina de lavar, contratar uma pessoa que saiba lavar roupas de linho, redes, toalhas bordadas e tudo quanto for de tecido que a máquina possa estragar. A vizinhança é cheia dessas mulheres que andam equilibrando quilos de roupa na cabeça. Elas fazem uma trouxa — é assim que chamam a montanha de roupa que carregam na cabeça — e saem fazendo equilíbrio rua abaixo, rua acima. Elas sofrem. Digo isso porque, todo dia, enquanto tomava meu café e rabiscava o jornal inteiro em busca de um serviço, como dizia a minha mãe, eu ouvia a Vânia reclamar da vida, do marido, das dores nas pernas por causa das varizes e ela também falava da vida de todo mundo. Era lavando roupa e falando e minha mãe ouvindo e dando conselho. Dizia pra Vânia ir ao médico, pra cuidar melhor dos filhos porque, segundo a minha mãe, pior que marido bêbado, é filho bandido. Essas são as palavras de Dona Suzana. Ela é respeitada pela vizinhança porque, além de ser barata de igreja, ainda resolve problema de todo mundo. Ela costumava ligar pra esses programas de rádio que estão sempre falando mal do governo. Ligava, falava dos buracos nas ruas, da gente necessitada que vive esquecida e também conseguia remédio pra quem quer que chegasse lá em casa reclamando da falta de dinheiro e qualquer tipo de doença. Minha mãe poderia ser presidente do Brasil. Por ela, tudo se resolve com trabalho, uma novena, um cházinho de Quebra-Pedra e um bom conselho. Fico imaginando se a Dona Suzana fosse a presidenta. Não só existiria auxílio escola, como também teria fornecimento de água e pão bento no país inteiro. E lá no senado, nada de discussão. Todo mundo cantaria aquelas músicas de igreja, louvaria Maria e o Sagrado Coração e todo político seria obrigado a saber rezar o terço. Seria essa a primeira lei de Dona Suzana. E procurar emprego é uma desgraça e, pra completar, minha mãe é louca. Meus dois irmãos fizeram bem. O Cristovão seguiu carreira militar e casou. Tem três filhos. Haja coragem. Ele mora lá pelas bandas do Mato Grosso do Sul e telefona pra casa uma vez por semana e, quando pode, passa o Natal com Dona Suzana. A aleluia maior é o dinheiro que ele manda todo mês. Uma quantia razoável e minha mãe fica feliz. Tenho certeza que ela vai mandar fazer um altar pra São Cristovão porque, Graças a ele, Deus iluminou a vida dela com um filho tão bom. Cristovão se acabava de rir quando dizia isso pra ele. Sou meio irônico. Sempre fui assim. Dos três filhos, saí à revelia pra fazer graça da cara de todo mundo da família. Os parentes todos ficavam com aqueles olhares tortos e risinhos sufocados e diziam, de forma carinhosa, "essa criatura não vale de nada". E eu continuava zombando. Dos três filhos de Dona Suzana, a Eugênia é a mais quieta. Não sei a quem saiu, porque meu pai, até morto, ainda dá risada. Era um homem muito bom. Cuidou da gente com tanto esforço que deixou a família bem. Temos uma casa, a granja perto de Campina Grande e dois carros na garagem. Eugênia sempre chorava quando alguém falava de nosso pai porque a minha irmãzinha é sensível e sempre fora a mais apegada a Seu Justino, nosso pai. Dona Suzana chorava também, mas, como protege Eugênia de qualquer sofrimento, ficava firme e forte em sua viuvez. Doze anos da morte de Seu Justino e Eugênia ainda sofre. Minha mãe dizia que a filha chorava por ter bom coração. Eu nunca vi bom coração que agüentasse tanta maconha. Minha irmã saía pra faculdade cedinho da manhã, dizia que passaria o dia estudando e só voltava pra casa tarde da noite e mais encerada que eu em meus velhos tempos. Eugênia sabe o que é bom. Vive bonitinho, engana a Dona Suzana, e ainda dirige o melhor carro da casa. É... Procurar emprego é foda e minha irmã é uma sacana. É óbvio que não tive a sorte de cair nas graças de Dona Suzana. Criei muita confusão pela vida. Aos 14 anos eu não rezava, não estudava e comia tudo quanto era menina. Viviane era linda demais e, naquela época, fumar baseado era o nosso modo de acreditar em um mundo melhor. Dona Suzana dizia que eu só tinha amigo vagabundo e eu concordava. Estudar pra quê? Era fumo, música a Viviane se descuidou e acabou que eu tenho um filho com ela. E outro com Joana. Um menino e uma menina. Eu não os vejo. Dona Suzana me obrigava a visitar meus filhos e eu nunca visitei. Sei que estão bem. Viviane casou e tomou rumo. Conseguiu até estudar. Leonardo, nosso filho, já é um cara grande e eu teria vergonha de olhar na cara dele acaso o encontrasse. Eu nunca disse que queria ser pai. Não tenho coragem, nem jeito pra coisa. A menina se chama Júlia e soube que é tão linda quanto a mãe. Joana foi o amor da minha vida, mas deu bobeira e se acabou num acidente de carro. Na época não pude fazer muito por nossa filha. Aliás, só assinei uns papéis que a Dona Suzana deixou em meu quarto dizendo que era pra eu assinar. Assinei e Júlia mora com a avó, Dona Esmeralda. A velha nunca me deixou ver a menina. Era minha mãe quem me dava notícias dela sempre que visitava a Júlia, levava dinheiro e também, um pouco de carinho e assistência, já que não pude fazer isso. Vi umas fotos da Júlia. Minha filha é linda mesmo. Vai crescer bem e peço por ela e pelo Leonardo. Sei que nada significo pra eles, mas se tem uma coisa que a gente não escolhe, é família. E tentei tomar jeito. Procurei emprego. Saí de porta em porta e falei com tanta gente. Dona Suzana não se esforçou muito não. E eu entendo. Ela perdeu a fé em mim desde aquele dia. Eu bebi demais e era jovem e achava que o mundo era meu. Empurrei o pé no acelerador e já era. Seu Justino saiu voando pelo pára-brisa. Dizem que a morte foi instantânea. E ele estava tão feliz naquele dia. Tinha acabado de comprar a granja, fez um baita churrasco pra família toda e todo mundo tinha orgulho do meu pai. Eu também. Se existe uma pessoa da qual me orgulhe, essa pessoa é meu pai. Homem bom, sorriso grande e era bom comigo. Acreditava em mim. Dizia coisas, me aconselhava e nem encheu muito quando soube que eu iria ser pai. Lembro que ele me olhou austero e chamou pra conversar. Dona Suzana sempre dizia que meu pai acabava comigo de tanto que me apoiava. Minha mãe sempre achou que eu tinha nascido errado e parece que coisa que mãe diz, é sempre sagrada. E meu pai morreu e eu não pude ir ao velório, funeral e nada. Passei dois dias em coma e cinco meses no hospital. Perfurei tudo quanto foi órgão. Ninguém nunca me perdoou de verdade. Sempre me olhavam torto e me evitavam. Disseram que Deus havia me dado uma segunda chance. Não sei disso. Mas estou vivo e tenho o mundo pra ver. Não posso ficar preso ao passado, me lastimando. Preciso trabalhar e, quem sabe um dia, criar coragem e voltar pra casa e olhar bem na cara da Dona Suzana e dizer que a amo e que a culpa também é dela e que ela me esqueceu. Chorando agora, o homem traga de novo a fumaça da pedra, olha pro amigo e dá um sorriso fora de tempo e levanta. O chão, a calçada e a noite de São Paulo é tudo minha casa agora. Eu não fugi. Eu desisti de tentar caber em roupa que não foi feita pra mim. E seguiu largo e solto pela Paulista. Pé no mato, pé no caminho.


Image by servack