14 fevereiro 2009

abelhas


Eu quero da mulher moderna o sorriso de sorte da Gal Costa. Esbanjado e agudo. Como quem vive o mundo e vive tudo e ainda existe mais um tom que o grave fim. Da mulher Ester que anda curva e acarinha com as mãos de veludo pelo rosto do neto, da filha e segue a Ester caminhando avó e mulher. Eu quero o útero da mulher mãe que me formou. Nada transtornada. A flor de perene idade que se deixa cair porque o tombo existe, mas vai ao chão porque sabe que de joelhos o mundo é perspectiva. Infinito. Eu quero da mulher moderna Zélia e Marias que trabalham e falam um palavrão, mas palavrão de ingenuidade que é pra todo mundo saber que é difícil, mas é possível encontrar agulhas em palheiro e ditado popular não cala a mulher. Eu quero a ternura da Tereza. Ajudava e ainda se dizia que era triste, mas era feliz. Porque a tristeza dela era de Tereza que decidiu não ser mulher de saltos, mas ela quis ser mulher de filhos. Cuidava de todos com o mesmo amor. Quero também a saudade nervosa da mulher Elis. Cantava a dor que sentia e pouco importa. Não era de fingir cidade quando exibia solidão. Era sincera. É verdade. Canta engajada no mar de caras e era bonita e sua voz que chora e faz corar minha pálida expressão, é mulher. É vasta. Quero a linguagem da Ana. Expressiva falando em trocadilho e se escondia porque já era vista. Sofria também. Foi ao analista e parece que também era de amor. Mesmo que o mundo contradiga e exija duplicidade ainda fala a voz da Ana mulher que ficou cansada. Não conversamos. Ela se decidiu e fim e continuou. Quero a presença da mulher de tudo. De tempo, terno e estudo e ainda o abraço efeituoso da mulher moderna linda e antiga, da era do rádio, das casas coloridas. Da mulher medieval que também exibia força e era bonita porque existia. Quero a franqueza natural da mulher bíblica que ora é dita, ora esquecida. E a eternidade da mulher deus que exagera no espetáculo, mas sabe que é quase pouco o lume e se permite. Da mulher de toda mulher eu quero o espasmo, o orgasmo, o avental e o aroma de lavanda e as olheiras de costume porque não é fácil dar o mundo e ser pecado original. Quero a mão da escritora, o olhar de minha irmã, a embriaguez da Luiza maluca que olha pra tudo e adivinha chuva. A mulher que ama mulher e a mulher que não se engana. De toda era, quero a moderna mulher contemporânea evolutiva que olha por entre os dias e sabe que o calendário não é regra. É continuidade. Eu quero da mulher a menina que acontece, flor menarca e coragem de uma espécie.


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19 comentários:

Germano Xavier disse...

Enunciados existidos na conjugação primeira da pessoa EU. Enunciações que já começam diante da primeira construção periódica. A frase que anda, sente, ama, quer. Difícil ver tanta vida em tão poucas sílabas como o ver leticiano. Escrita perfeita, sem erros, com erros, sem falhas, com, perfeita-ímpar-feita.

E a primeira leitura é a que fere mais.

Narradora disse...

Sabe quando as palavras tocam e calam?
Dizer que o texto ficou incrível é insuficiente.
Hoje, mais uma vez, você me alcançou.
Beijo

Biba disse...

Sim, ser mulher é uma dura tarefa nesse mundo hostil. Você vê as diferentes mulheres e as acolhe com sinceridade. Texro belíssimo, como sempre.
Beijo grande
Carpe Diem!!!

Elcio Tuiribepi disse...

Oi Letícia, dificil não emocionar após ler o texto, não só pela forma interessante de escrever, mas pelas mulheres que citou. Duas ali me são fontes de admiração profunda, cada qual a sua forma.
Mais uma vez show de bola...um abraço na alma

Mai disse...

...Se é assim eu que não sou 'letrada' não farei qualquer análise estrutural ou qualquer 'al' de métrica ou forma ou conteúdo ou qualquer afim...

Falarei do que li e li o que é de melhor na literatura e uma escritora que 'esbanja' 'transorda' 'abusa'...
É Let, és muito abusada quando escreves. E é uma delícia porque quem te conhece deve saber melhor. Deves serum poço de calma e tranquilidade e ai dentro tem um azougue e um talento que não caberia num corpo de 190 com 120 quilos.

Então que bom que escreves porque podes ter um corpo leve. Corpos leves são os melhores. Os cardiologistas afirmam isso. Faz bem ao coração.

Falar o que de um texto desses?
Falo. Descobri um edital de um concurso que dá 200.000. sei lá em pr~emios.

Me escreve?
Esse Concurso é teu.

Bjs.
Mai

Jaquelyne disse...

Nossa. Fôlego, por favor.
Eu quero ser a mulher que sabe ouvir e parar para ver aquilo que é essencial.
Letícia, adorei este aqui!

Beijos, e passa lá no Jaque Sou!

Monday disse...

sabe, Le, é difícil entender, pelos olhos da lógica, como é que tanta coisa banal vai pro prelo e tanta coisa linda fica por aqui ...

mas é fácil entender, nesse nosso mercado mercantilista, que qualidade nem sempre paga as contas e é melhor ter um Paulo Coelho da vida contratado a sustentar uma editora e deixar para pagar por esse pecado na hora de tentar entrar no Céu ...

fácil ou difícil, acho que o que interessa é que você existe, você escreve e nós temos a chance de te ler e encher os olhos de prazer ...

e se és leitura difícil para os que preferem os textos banais, és um colírio para quem tem, como preferência, a beleza das palavras ...

um dos melhores textos seus que já li ...

bjks, menina

e boa semana

Gilbamar disse...

De pé, aplaudo a mulher:
a mãe, a namorada, a esposa,
a executiva, a professora,
a guerreira, a avó, a tia,
a irmã, a prima, a filha,
a vizinha, a moderna,
a frágil porque se deixa ser,
a forte que vai à luta e vence,
àquela que dá à luz a vida.
Aplaudo a mulher convicto
de que ela é a melhor parte
da humanidade.

Fraternal abraço.

Zélia disse...

Nem comecei a ler, um susto! :O Vou lá...

Zélia disse...

Um banho de mulher. Crianças aprendem seu comportamento através da observação. Uma mulher aprende a ser Mulher através da observação de outras Mulheres. Eu observo, eu aprendo, eu faço, eu aconteço. Assim como você - eu observo você,Mulher,escritora,mãe. Somos Mulheres!!!

Sim! E rezamos!!! ;)

Leandro Neres disse...

Eu gosto dos teus olhares e das coisas boas que sempre vê, vc sempre vê além e me surpreende...
Mto bom...
bjs!
Leandro

Menino-Homem disse...

"e destas mulheres eu quero a mais hibrida de todas: Letícia!"

Ju disse...

E eu me senti feliz em ser mulher, Let. Acaba aqui qualquer vontade de encarnar o masculino nas próximas vidas.

"... mas vai ao chão, porque sabe que de joelhos o mundo é perspectiva."(Letícia)

Vou guardar pra mim, Let. Essa frase foi f*da. E eu também falo palavrão.

=*

Lorena disse...

Meu Deus do céu, Letícia. Eu às vezes não consigo nem formular o que eu quero te dizer, diante de coisas assim. Só fico aqui, olhos marejados e feliz porque você escreve. E eu leio. E vejo um retrato-falado em forma de prosa-poética. Meu, seu, delas, de todas elas, mulheres... todas elas.

love you for good. =)

Léo Mandoki, Jr. disse...

vou ser sincero...
é o teu talento deserdiçado num texto panfletário...esse discurso de mulher está 70 anos forad e moda....nao te desperdices com isso...escreve ficção e cria um mundo novo onde eu tbm possa habitar...

Leandro Neres disse...

O Léo pareceu radical, mas eu tbm me senti fora do texto, mas discordo que seja panfletário, eu diria, não-alienado... E desde quando texto tem que estar dentro de alguma moda, chega de engaiolar pensamentos, viva o conotivismo! kkk =)
Mas eu curti o desfecho...
"escreve ficção e cria um mundo novo onde eu tbm possa habitar..."
Coloque, nós, os pobres morimbundos literários em teus cenários, Let! Please! (A)

Du disse...

Eu também quero :)

Beijos, Letícia.

Éverton Vidal disse...

Vê como são as coisas. Gosto de ler todos os comentários. Gosto de ter outras perspectivas na hora de comentar, gosto de sentir o que não senti na boca de outros leitores. Sem contar que há comentários que são verdadeiras aulas, como os do Germano.

Mas eu terminei de ler o texto em lágrimas. dessas internas porque sou homem e homem não chora (rs). Chora sim, mas era um choro interior. Porque lembreidas mulheres da minha vida. Mãe, vó, amigas, namoradas, mulheres que passaram por aqui e deixaram coisas.

Eu admirei o comentário do Léo. Gostei da sinceridade, e, leitor e Letícia há algum tempo que eu sou, sei muito bem o que ele quis dizer.

Entendo que este é um blog-livro que é pra todo texto, inclusive o panfletário, o que manifesta o que tá à tona e o que se camufla do que não é. Enfim.

Leandro Neres disse...

E eu concordo com o Vidal, o comentário do Léo disse muita verdade... Eu não sei explicar como me senti ao ler este texto, mas foi denso, lembrei de muitas mulheres e de tanta luta... Esse foi um texto, sem dúvida alguma, especial...
Voltei pra relê-lo e encontrei mais uma voz masculina que me fez pensar mais...
Bjos, Let!
Leandro