20 fevereiro 2009

a maçã e a caixa




Escrever é liberdade de expressão
Liberdade vigiada
Mas não deixa de ser palavra
E a palavra diz quase tudo
Ou quase nada



O escritor quadrado escreve com régua e compasso, medindo cada espaço de força e traço para que o texto seja reto, sem curva ou respaldo. Uma fita métrica sem dialética. E logo a narrativa é um cubículo de onde entra e sai forma ensaiada e equilibrada com rede de proteção. Outro tipo bem comum de escritor é plantonista instantâneo. Como máquina fotográfica, captura a palavra, não ferve a mínima tentativa de ampliar a imagem e lança do duvidoso penhasco da leitura, o que poderia ser grito e morre pungido de véspera o manuscrito. E logo surge o ambivalente. O escritor pilha invertida ou fio que anula o neutro e causa um curto quando lido porque o leitor não sabe se estranho ou esquisito ou se desaprendeu a arte da decodificação. E caminhando, fingindo displicência, acontece o escritor saliente. Esse tipo é aparente e enche a boca de dente e má criação e invade a arte cheio de vaidade e ainda paga para ser entendido. Este é digno da mais nobre renúncia à força de compreensão. E segue a vasta fila. Escritor que fala baixo pra não acordar o vizinho. Este morre de vergonha e se diz excêntrico, escreve toneladas de verbetes sendo autocrítico e sempre emperra a palavra por medo da gargalhada ou do aplauso surdo-mudo entusiasta. O mundo está imenso de nós. E não é a crítica que retalha o ser exposto que cria mentira dizendo verdade dando voltas no quarteirão. É o outro que chega, vernácula ambulante, fazendo autópsia, exibindo olhos festivos de falsidade e como você escreve bem. De onde surge toda essa arte? É certo e direto que há de se trabalhar a palavra, lapidar, retorcer, envenenar — de amargo ou ambrosia — mas aquele que opera o crime em demasia sofre moribundo porque todo o exagero corrompe a ordem criativa. Escritor que se sabe imperfeito, cogita, conversa com gente comum, sabe dos clássicos, mas não se delimita ao tímido conjunto da falsa produção. Eu, por defesa, não sou escritor. Escrevo apenas por distração e tenho medo da Virginia Woolf e durmo cedo e acho que falar palavrão é perda de tempo. Sou prolixo, sou o eu-lírico e escrevo de fora pra dentro do meu umbigo.


Image by Yevgenia Watts

12 comentários:

Zélia disse...

Tem escritor para todos os gostos aí. Penso que isso possa resolver a questão do gosto dos leitores que existem pelo mundo afora. Assim fica todo mudo satisfeito. Tem quem escreva e tem quem leia. Mas sabe o que eu acho mesmo? Que ninguém tem nada a ver com o que fulano escreve ou com o que cicrano lê. Somos livres sendo escritores ou não! Ainda que obedecendo a liberdade de Foucault. É a tal "liberdade vigiada" de que vc fala, Letícia. E, ainda assim, liberdade! E tem mais! Está lá em 2 Coríntios 3:6: "A letra mata". Lacan vem reformular as palavras da Bíblia e diz: "A palavra mata a coisa". Ou seja, a palavra morre para libertar. O que foi dito, foi morto, foi liberto e chegará a algum lugar. Não importa quão "escritor" eu seja. É óbvio que algumas considerações são necessárias para se nomear alguém como escritor mas isso é o que de menos importa. Se escrevo, sou escritor! Hehehehe!

"Ao escrever, o escritor deve solicitar um pacto com o leitor, que ele colabore em transformar o mundo, a sua realidade..." (Sartre)

É aí onde fala o coração... ;)

Mai disse...

...Ontem eu estava um brejo e não consegui ler teu texto.

Juro que depois lerei pois não te perco por nada.

Agora esse é um daqueles textos prá se guardar como 'manual' de procedimentos...
Let, deixa eu falar que a harminia de imagem e texto, resultam numa Obra fabulosa, composta e assinada por uma incrível escritora.

Lamentavelmente para o chão do mundo sem fronteiras, só quem 'saboreia' são os poucos que tiveram a sorte de te encontrar.

Azar de muitos e burrice das editoras que só querem 'bonecos de um e noventa e nove ou 'coelhinhos' de pelúcia...

Esse texto é auto-explicativo e dispensa qualquer nota de rodapé.
E eu, com as minhas iletradas abobrinhas, sou só uma leitora apaixonada por ti mas sou o rodapé do rodapé e recolho-me à minha insignificância.

Bárbaro!

(acho que ainda não tinha escrito essa palavra. Clichês são bem bacanas quando usados por leitores de livros dos escritores que as editoras estão 'caçando'... Não gosto de coelhos, Let. Não como caça!)

Beijos,
love u. You know that!

Mai

Monday disse...

eu gosto de escrever como se fosse uma nau sem rumo definido, que apenas escolhe seu oceano e por ele singra ao sabor de ventos e correntezas naturais, ao comando invisível do planeta e sua natureza, tendo como inspiração o horizonte que a vista alcança e o infinito que o pensamento sonha e imagina ...

e eu gosto de ler como um leitor apaixonado pelas letras, frases, períodos, sentenças e versos e estrofres, que se delicia pelos olhos a tocarem o texto, como se fosse tato, a se permitir das mais variadas as sensações e sentires, inebriando a alma, o corpo e o coração ...

e eu me deleito a vir aqui te ver ... para sair sempre extasiado depois de fazer amor literário ...

Elcio Tuiribepi disse...

Oi Letícia, parece um desabafo...parece uma razão, parece uma escritura, dando voz a emoção, chega de bobagens e rimas, o que vale aqui é a verdade, a palavra nua e crua explicitando o coração( continuo rimand..rs) caracole...o que vale aqui é saber saber, que a empatia é nada mais que não querer apenas entender, mas ser parte, por isso digo que não sou poeta, tenho medo de ser...se Vinícius não queria ser, eu muito menos...show de bola é a definição que deixo para o seu texto...na falta de palavras...show de bola...um abraço na alma...bom carnaval...bom feriado

Germano Xavier disse...

Certamente,

todos que escrevem e leram este texto encontraram o tipo do seu tipo.

E, convenhamos, há alguns que possuem mais de uma classificação.
E outros não.

Biba disse...

Muito especial esse texto que delimita mas não nos acorrenta a tipologias de escritores. Gosto da maneira franca como você escreve. É despojada sem esbanjar-se nisso. Eu não sei que tipo de escritora sou. Sou? É o que dizem. Apenas gosto de escrever para que se abram janelas, portas de dentro ou de fora, tanto faz. Escrevo também por necessidade de alma.
Beijo grande
Carpe Diem!!!

Pedro S. Martins disse...

Os escritores quadrados não são escritores. São redactores.

Tamires . disse...

Letícia?

Fui lendo o que deixaste desenhado neste último post. E relendo. E vi que essa franqueza é sabiamente verdadeira. O mundo é feito de escritores e de pessoas que gostam de escrever. Eu gosto, mas sei de minhas enormes limitações. Vejo as palavras como forma de libertação. Escrevo porque gosto, pra verbalizar pensamentos,pra esvaziar a mente. Pra no fim, gostar do que fiz, e aprender com os meus erros. Para achar mais gente igual a mim. É tão bom ler aquilo que inebria, que toca. Aquilo que se faz presente e traduz momentos.

Posso voltar? Gostei um tanto, daqui.

Deixo meu beijo, no seu afeto literário.

Ps: E chego aqui com a permissão do Monday. Indicação dele, que me encantou. De verdade.

Alexandre Cunha de Azevedo disse...

Escrever é importante, não interessa se há qualidade no texto. O importante é encontrar a satisfação, como também proporcionar satisfação para quem ler. Por pior que seja o escritor, encontrará alguem que goste do seu texto. Como diz a minha mãe: para cada panela, há uma tampa. Com certeza para você, Leticia, muitas tampas existirão. Rss. Bjos...

Lorena disse...

E eu leio e re-leio. Tava com saudades disso. Mas consegui chegar aqui, que bom. =)

Hoje estou quietinha, tá?
beijo. love u.

João Neto disse...

E desse umbigo sai de tudo
Sai banda acompanhada de balizas
Sai trovão e calmaria
Sai bombardeio chamuscando ideias Sai velha rezando o credo
O padre inventando sermão
O bêbado cuspindo palavrão
A moça rubra de paixão
O escrito perfeito deitado no sonho
O ponto de exclamação invertido
A subversão da palavra
A apoteose da língua
O som do sim
A negação do não

Éverton Vidal disse...

Bah. Permita-me dizer aquele meu jargão: texto phodástico let!

E outra, ou acordei de bom humor ou o texto é cheio de graças, ou os dois, porque ri a beça aqui. Olhei alguns tipos e disse "eita". Platonista instantâneo será que sou? Sei lá o que sou.

Só sei que tento sem muito sucesso ser um escritor que se sabe não escritor.

Um abraço e parabéns pelo texto. Inté!!!