10 fevereiro 2009

o quarto de helena


Casa adentro e o muro ao redor da casa. Um longo corredor de portas e suas maçanetas vitorianas de dourados contornos, tapetes em todos os cômodos e o quarto de janelas e cortinas e no canto um buraco no rodapé. Helena passou o dia inteiro de todas as horas contemplando o buraco que mais parecia um olho olhando espantado e Helena esperando que do abismo surgisse algum bicho. Estava protegida. Chinelos na mão se baratas. Ratoeira engatilhada se roedores. Fatia de bolo se formigas e pernas abertas se, pelo amor de Deus, irrompesse no quarto fazendo a sua gentil canalhice, a criatura que trai e corrói a pele e traz encanto, carta e descobre planeta e fala política em boca de toda língua. Helena esperava em tensa e estática diversão o ser afiado e cheio de alma de cor bonita e lágrima única e vértice histórica. Helena queria um homem. Assunto diverso de sua estante e criado-mudo. Helena era triste. Helena vivia só.


Image by Hillary White

12 comentários:

Lorena disse...

Eu vim ler Helena logo porque tenho uma amiga Helena que acabou de encontrar o amor da vida dela. Aí levei um banho de água fria. Fiquei com pena, senti fraqueza. Porque sua Helena vive só mas quer viver com alguém, barata, formiga, rato... E nem isso. =(

E Helena é o grande estereótipo da beleza e eu não queria que ela fosse triste. Mas eu li, e quando eu leio eu me transformo no que leio, e acabei ficando triste por ela. Mas esperançosa que sua personagem encontre o homem do buraco, assim como minha amiga achou o amor. =)

Estava com tantas saudades de vc, dona moça! mas voltei. =D

beijos, love u.

Mai disse...

Sim, sim, sim, sim...

Yes! E tudo o que mais houver entre aplausos e pedidos de bis o meu desejo de que venham as Helenas os troianos e todas as mulheres de Atenas - Helenas com seus homens mortos ou não...

Lindo, Letícia.
I do believe in love.

carinho,
Mai

Germano Xavier disse...

Mas Helena queria, e isso já contempla toda a dor de uma dor. Apesar de tudo, triste e só, ela queria. Mesmo não sendo a certeza que muda, mas era a flor de um desejo que lhe arrancava grilhões. Querer faz movimentar todo um todo. E gostei do uso dos "se" no cômodo do texto. Parafraseando o Mauro do Taxitramas, digo que "há aplausos".

P.S. Algo me fez lembrar dos "continhos" do Kafka, Branca.

Sim.

Monday disse...

quem sabe se fosse um lago e não um buraco, se fosse sapo beijável a virar príncipe, quem sabe?

talvez Helena pudesse fechar o buraco com um pedaço de pano enrolado e assim dirigisse seus olhares á janela mais próxima ...

não que ele estivesse lá ... mas a paisagem ao menos compensaria tanta solidão e desejo ...

sempre bom te ler, Le

Eveline disse...

Call me Helena.

=(

Bom texto, moça.

Beijos

Ps. Ainda amo vc.

Emiliana Carvalho disse...

Poxa, Letícia!

Sem palavras... sem palavras...

Bem, agora digo: Acredito que 99% das mulheres do planeta compartilham do mesmos sentimentos de Helena.

Sorte daquelas que compõem o 1% restante. ;)

Du disse...

Letícia, hoje vim correndo especialmente agradecer teu carinho - MUITO OBRIGADA!- mas não resisti e tive que ler o texto.

Eu já fui Helena, igualzinha assim...

Beijos, querida!

Zélia disse...

Eu poderia ser chamada de Helena. Mas só porque também tenho um buraco no meu quarto. Não no rodapé mas no teto - erro de projeção da companhia de tv a cabo. Só por isso. Não dou muita importancia ao tal buraco. Apenas o percebo, às vezes, quando deito na cama, não durmo, e lá está ele. No entanto, nesses momentos, eu estou ocupada demais para pensar no que sairá dele. Zélia não vive só! hehehehe!

Bom trabalho! ;)

Ju disse...

Eu li e também ficaria armada de chinelos e ratoeiras se houvesse o buraco...

E gosto do nome Helena e de suas histórias, Let.

Voltei pra minha correria e, advinha? Em março, tô de mudança pra João Pessoa! :)

Kisses, friend.

Ju disse...

P.S.: O que aconteceu com os textos antigos? :O

Eu sempre vinha ler os atrasados... :(

Elcio Tuiribepi disse...

Medo da Lya? Ela é fera...mas é mansinha...rss
Bom...só me resta torcer pela brava Helena, há de sobrar no final de tudo um algo, ou um alguém para ela...um abraço na alma...

Vidal disse...

Sempre chega a hora de Helena. Lo o sol bate na janela do quarto de Helena.

Germano lembrou de Kafka. Eu lembrei de Mutantes. De uma canção chamada "Rita Lee".

Bj!