01 fevereiro 2009

o belo da história



Deuses que não mais cometem milagres são esquecidos. E os que adoram deuses passam a se esquivar. Porque deus é aquele que não apenas vaticina ou remove o mar de seu repouso. É a voz que faz a mesa farta e não fere a crença. E deus acordou alegre um dia. Fez sonata apaixonada espiando por entre os estios as meninas moças e amores de prefácio e quis eternizar tudo e criou Monet. Este recriou deus e sua semelhança em cenário e a boa gente fazendo riso em óleo e tela. E depois, ao terceiro sono, resplandeceu e inquieto, retornou ao seu observatório. Entre as espumas do tempo, flutuantes, inventou poeta e à primeira ordem o poeta versa em deus porque assim ele queria ser visto. Não duvide. Toda obra, embora torta, ainda faz parte do plano. E segue desacreditada a gente, mas ele está. Assim como outros também estão. Estes outros que nos olham. Ele pressente e nunca se ausenta, pois sabe que fiéis são anzóis que aniquilam peixes. Então ele sempre refaz o que é deixado para trás. Foi nesse dia, bem perto de casa, que ele se percebeu e tinha por herança fazer continuar. Sedento em ajudar o socorro urgente de uma gritaria indecente, foi lá ver o que poderia ser feito. Sabia que faria tudo. Era deus. Filho anunciado em cartório e fora batizado com este nome tão adorável. Olhava todo mundo bem no fundo do olho e sabia da maldade, mas nunca tão de perto. Era sempre de longe — ocidental quarta distante — uma ópera em tom bravio. Maestria da cegueira que faz a gente não acreditar que exista escassez de tipo algum e vazio está o muro das lamentações. Deus degradou seu dia para o contento de toda a gente que o seguia e inventou de ser bom. Salvou todos e de cada naufrágio, nenhum sufocou. E de sua sabedoria reuniu todos em volta da mesa e falou baixo, inaudível, e contou que o poço não dita o perdedor. Sofre mais aquele que imerge em vaidade e sofre em silêncio e não duvida. Duvidar de mim é me saber vivo. E todos, entreolhados, revisaram suas vidas. Duvidosos ainda, mas certos de que a dúvida é a resposta e a pergunta é o perdão trajando a pele de cordeiro sem estes lobos que tanto falam aos ouvidos e não sabem que deus é simples. Falando em sorte, amor, lutando contra o relógio, comprando comida em fim de estoque, parado na estrada de carro quebrado, mancha no assoalho e menino correndo de volta pra casa que a mãe chama. Dorme de bruços e sente saudade. Deus é todo mundo. Um sorriso feliz de tão bruto.


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6 comentários:

Camila disse...

Let,

Sou católica, vou à missa, mas, pra mim, rezar é conversar com Deus. Assim, como quem troca confidência com amigo que pode saber tudo e não julga. Porque gosto mesmo dessa impressão que Deus é tudo. Tempo e gente. Um quadro na parede e o pintor de paredes. Penso em Deus assim como você falou, simples. Que um dia acorda feliz e outros dias também precisa ser perdoado.

E você faz deus ser personagem de carne e osso e sorriso no rosto. É por isso que eu me sinto sempre bem aqui. Você inventa histórias, mas sempre fala a verdade. Mesmo que não seja a sua, ou não seja deus. Você é escritora e nós, seus discípulos. Eu venho aqui ser feliz e aprender e sempre consigo os dois.

Sinto falta da sua caixinha, sabia?
E senti sua falta também.

Beijinhos!
=***

Mai disse...

Letícia esse teu texto é algo assim muito especial e não perderei a oportunidade de pontuar o que penso sobre 'endeusamentos', dependências, bengalas e próteses...
Mães seguram na mão dos seus filhos quando os ensinam a pedalar bicicleta... Isto é uma espécie de 'dever' inerente ao exercicio de educar e resulta em segurança dos filhos.
...
...A partir da escrita, e com o pensamento filosófico, os mitos foram 'aliviados' da responsabilização dos determinismos e o homem passou a questionar o ser das coisas. Através de longo percurso histórico e filosófico, passou a 'implicar-se' em suas escolhas boas ou nem tanto.

'deuses' pós 'iluminismo' continuam a ser 'caçados' porque é muito cômodo culpabilizar ao acaso ou ao que é mítico, aquilo que na verdade na verdade é da ordem da responsabilidade de cada um pois o que o homem diz é: eu quero e posso fazer isto ou aquilo.

Ai depois quando o 'bicho pega'... Eu choro, grito e rezo.

Bem...Quando o bicho pega procuro os deuses. Quando quero reincidir e fazer uso do meu direito, abandono os deuses e sigo pedalando de bicicleta de carro ou em uma nave espacial e fui...

Ainda assim súditos modernos, ainda buscam 'deuses' na hora dos efeitos nocivos de escolha ou no padecimento e angústia.
Mas como não me assujeito ou submeto e sou livre, posso e escolho permanecer ocupando o lugar que me é prazeroso - custo benefício de continuar em um lugar que eu já conheço e me sinto segura...
...
Muito bom seu texto
O que é seguro?
Quais são as garantias?
Porque é mais fácil buscar deuses e depois abandoná-los?

Beijos, Let.
És muito.

Léo Mandoki, Jr. disse...

...ja há mto tempo que tenho vindo a pensar em escrever uma historia sobre um menino com uma mancha de nascença no rosto e que no dia da crucificação de Cristo, qnd os soldados de Herodes lhe furam o corpo com uma lança, fazendo jorrar água e sangue, um pouco dessa água e sangue de Crsito respinga no rosto do menino e a mancha vais desaparecendo com os dias.
Lendo esse seu texto me fez recuperar essa ideia...
....
pode ser algo extremamento perigoso...de cada vez que venho aqui me sinto diminuído e, ao mesmo tempo, revigorado de ideias.
...
vc é bruxa da escrita

Lorena disse...

Eu gostei demais do seu deus, Let. Eu gosto de Deus sendo tudo, acredito nisso também. Se eu vejo deus em tudo, não é porque ele realmente está em tudo? E prefiro ele no meu diariamente, do que lá em cima no céu, inalcançável.

Adorei esse texto, dona Letícia. Muito mesmo. =)

Germano Xavier disse...

Eu fui batizado numa seita religosa que dá ao mundo e ao homem um único deus. Também nela me crismaram, dizendo que era um bom sacramento. Mas hoje sou sujo demais para pedir o direito de me confessar com todos os santos de batina. Durante meu crescimento fui adorando vários deuses, me tornando politeísta. Não sei bem se foi o Ernest autor de "O velho e o mar" que disse uma vez que seus deuses eram os seus prediletos escritores, mas fica aqui a tentativa. Adianto minha fantástica admiração por mãos que reorganizam o caos. Você fez isso agora, Branca. No meu santuário, você figura no topo. Porque sabe, utilizando de centenas de instrumentos, elaborar o castigo-mor de refazer a Criação.

Teu talento é a minha água.

Vidal disse...

Deus é a beleza escondida nas coisas. Gosto de pensar nele com rosto de bom velhinho anunciando sempre misericórdia e amor. O mundo está cheio de Deus, cheio dessa beleza que também é feiúra e que também é saudade. É isso o que enxerguei de relance no seu "Deus é todo mundo. Um sorriso feliz de tão bruto".

E dizer que teu texto é perfeito já é quase redundância.

Bj Letícia.
Inté!