06 março 2009

de balzac ao outro lado da rua



Sou eu e não uma personagem revoltada. Talvez eu seja revoltada. Não tenho nada contra uma tempestade num copo d'água. Eu evaporo e a água também. A diferença é que a água é transparente e eu sou mulher. Não mato a sede de ninguém. Não mato nem formigas. Se existe algo que realmente assassino é a Língua Portuguesa e a construção de uma corrente literária que não sei se existe. Mas estou entregue à minha oficina de escrever até ficar exausta. Leio muito e não devoro livros. Essa coisa de devorar livro é uma expressão que não uso porque não sou intelectual. Eu leio os livros e quando chego à última página, fecho o livro, guardo com o maior cuidado e ele vai pra estante ou passa alguns dias ainda em meu criado-mudo. E esse criado carrega o mundo. Deixo sempre dois livros com ele. Um é do Mario Quintana e o outro é Pequenas Epifanias do Caio Fernando Abreu. E alguém vai dizer que estou escrevendo à moda do Caio. Fazer o quê? Ele me traduz. Morreu, mas existe. É a sorte que muitos não chegam a conhecer. Escrever e ser lido por uma cidadã qualquer, à meia luz, antes de dormir. E o melhor, ser lido e fazer sentido. A gente passa a vida inteira procurando sentido nas coisas. Família, memórias, estatísticas e a idade. A gente envelhece. Não me preocupo com isso. Antes eu achava que seria uma velha aos 30 anos. Estou na casa dos 30 e vou dizer, tenho mais dúvidas do que costumava ter quando era criança aprendendo que o mundo era grande. E minha oficina de busca e entendimento acabou de ler um livro da Virginia Woolf. Cenas Londrinas. A internet é uma maravilha, não posso deixar de dizer. Pedi esse livro e ele chegou aqui na porta da minha casa. A Virginia e suas observações e todos os detalhes de um cenário que não conheço ainda. Mas já li tanto a respeito de Londres que posso jurar que a Tower Bridge é mal assombrada. Perfeito o livro e a Virginia escrevia muito e grande. Venho tentando absorver cada palavra que recebo. O Agente Sanitário esteve aqui em casa e eu ouvi o homem como se fosse um discurso grandiloquente. Gente simples e gente que faz parte do meu dia. É disso que vivo. Abro a porta de casa e ouço vizinho gritando, penso nas minhas margaridas de estimação e penso no meu filho. Ele agora está aprendendo letra cursiva e a professora dele me deu uma aula de pedagogia e psicologia infantil. Eu não soltei uma gargalhada por pura educação. Eu tenho o filho, convivo com ele e preciso entender as necessidades da criança. Passei quase 8 anos da minha vida cursando Letras e ouvindo professores repetirem isso. E não sei nada, Dona Professora do Meu Filho. Mas concordei com ela. Sim, o dia está lindo. É isso? Onde está a combustão? A geração do meu pai armou a tenda e não houve ainda o espetáculo. Todo dia ouço Chico Buarque e acho que perdi o tiro de partida. Ou estamos calados exercendo nossos trajes de feminismo, machismo, capitalismo e não vou citar todos os ismos porque vou sair do enredo. E olha que já falei muito. Criei patos numa banheira, inventei o Jonas, o Augusto, tenho medo de errar, morro de amor e sinto tesão e não tenho vergonha de dizer que amor fraco não me serve. Eu gosto do irracional. Imatura? Seremos sempre. Eu e minha boa vontade. Eu me esforço tanto pra entender esses conflitos e todas as ordens. Eu já escrevi a respeito dessa necessidade de agradar. É uma necessidade imensa de não ferir e até quando vai seguir essa marcha de hipocrisia e falsidade? Tudo bem. Estou exagerando, mas estou à flor da pele e não bebi, não uso drogas e fiz terapia. Foi bom. Não me matei. Respeito até os suicidas. Respeito todo mundo e todos os motivos, mas eu só queria saber se é assim mesmo? Esse silêncio egoísta de não dizer bom dia ou perguntar se estou bem, se preciso de alguma coisa ou se quero encher a cara de vinho ou dormir. Eu tenho a minha vida assim como você tem a sua e acredito em amor eterno e pago contas. Meu casamento? Não falo a respeito. É meu. Ninguém precisa saber que o plano ruiu. E ninguém precisa saber também que me sinto só. Quase sempre. É a velha história de ser alegre e triste ao mesmo tempo. Me sinto só, mas isso não quer dizer que esteja só. Como se diz em inglês, I'm not available. Só preciso entender essas questões de você cobrar tanto de mim e você nem aí. Talvez eu não seja tão revoltada assim. Talvez eu seja estúpida. Humana e mulher estúpida, fervendo dentro da chaleira desse tempo esquisito que ninguém mais fala a verdade e vamos passando a mão na cabeça das crianças porque elas são o futuro da nação. Só queria saber se alguém nesse planeta ainda tem a sensação de estar confuso ou perdido. Será que estão todos tão resolvidos assim? Será que a filosofia já abordou a necessidade de falar sem medo? Será que a medicina encontrou um jeito de todo mundo sofrer do mesmo mal? Será que não existe um estudo simplificado que fale a respeito da garoa ou chuva fina ou dia de sol? Será que o Fernando Pessoa estava certo a respeito dos semideuses? Hoje minha interrogação é ingênua ou talvez nem seja. Talvez alguém sinta o mesmo que eu, mas é melhor fingir que a paisagem é maravilhosa e que o Brasil é um país de gente feliz. Melhor é dormir e esquecer. Mas eu permito que me perguntem se estou bem. Eu permito que me façam bem. E cresço através do medo e sei que estou apenas no início. Tenho muito o que ver e talvez, um dia, eu entenda a razão e talvez eu aprenda a dançar de acordo com a música. E amo você também mesmo que seja um detalhe. Há muitos livros na estante, conhecimento é a saída, mas não me entrego a clichês. Eu quero dizer que a maré está pra lá de braba, mas eu sigo enfrentando. Largo o meu navio, barco, bote, escafandro. Só não perco e esperança. Tenho fé e ela é cega e não atravessa a rua sozinha. E escrevo por necessidade. E sinto saudade e não sei dizer que o filme é bom só porque é europeu.


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9 comentários:

Liene Márcia disse...

Letícia,
Senti um nó na garganta ao ler seu texto. Parecia que estava lendo a minha história. Passou um filme em minha cabeça. Temos muito em comum. Somos mulheres. E, toda mulher já passou, passa e, com certeza passará por algumas situações tão bem detalhadas por você.
É pura sensibilidade!

Há detalhe que nos diferencia: eu tenho um casal de filhos.

Biba disse...

Letícia, li tanto Caio F a vida toda, cheguei a conhecê-lo pessoalmente - uma dádiva - e fiz até uma pesquisa semiótica sobre suas obras. Também já me disseram que às vezes escrevo como ele. Pouco me importa. Você escreve com o coração, a alma exposta, como gosto de dizer. Todo seu texto é uma lição. Cheio de perguntas que eu também me faço e para as quais não tenho encontrado respostas. Tudo em você é muito mais que especial. Voe sempre longe como o fez agora.
Beijo grande
Carpe Diem!!!

Lorena disse...

Let, esse texto tem a cara do Filosofia, mas eu adorei lê-lo aqui.
Olha, eu sou assim. Não sou semideusa, eu tinha raiva de semideuses, hoje até eles eu respeito também, porque cada um usa uma armadura pra enfrentar os baques da vida. Eu ouço as pessoas também e nunca paro de me perguntar. E você é como eu, essa mania de tato com as pessoas, de não ferir, de não negar... Isso é um desgaste, né? E é um paradoxo; enquanto guardamos as críticas a outrem bem dentro da gente, nos fartamos de auto-crítica. Né? É bem assim.

E eu gosto de perguntar também, Let, como você está? Estou com saudades porque faz tempo que a gente não se fala. Eu queria mesmo saber como vc está. E às vezes eu fico imaginando, se um dia eu parar de cuidar dos outros, será que alguém cuidaria de mim? Não sei se isso passa pela sua cabeça, mas não duvidaria, a gente divide muitos sentimentos...

Let, eu adoro textos desabafo, sabe. É bom ler a realidade das outras pessoas. Faz a gente se sentir cúmplice. =)

love you.

Germano Xavier disse...

"Mas era primavera..."

Sim, eu já li "O búfalo" clariceano.

Léo Mandoki, Jr. disse...

é a 1ª vez que te leio em registro auto-biográfico direto. e o que vc fala é o denominador comum de todos nós...mas o que interessa mesmo na vida não é o denominador comum, mas sim os detalhes que são únicos...e cheguei a conhecer alguns dos teus detalhes no ato da tua escrita e foi por isso que gostei de vc....e vc me abandonou..e hj vc ficará sabendo de um detalhe meu: EU NCA ABANDONO

Narradora disse...

Mais um texto em que as palavras cutucam a gente.
E a reposta que estava na ponta da língua, no minuto seguinte se perde.
Construção diária de perguntas e assim são os dias: pura certeza aos dezoito, dúvida concreta aos trinta.
Ah, amor fraco também não me serve.
Bj

Clea Pinheiro disse...

Gostei muito do seu texto, muito mesmo. É extenso, mas não é monótono, nem um pouco... é intrigante, desafiador, assustador rsrs...porque nos leva em várias direções ao mesmo tempo e faz questionar mais que o normal.
Parabéns!

Tamires . disse...

Leticia,

São tantas perguntas, não? Tantas não-respostas, tantos quereres, tantos não-agir. Tanto sentimento envolvido, tanto desabafo.
Muitos, eu me incluo, são o reflexo do seu texto, dos seus questionamentos. E digo: Fico tão bonito. Não só pelas palavras bem desenhadas, expressas com a realidade, mas tb por tudo o que ele nos deixa a sentir, a pensar.

Parabéns.

Beijos, aqui.

Isaque Criscuolo disse...

Oi, Letícia.
Não sei como, por acaso ou destino, encontrei o seu blog. Hoje é um dia frio e me sinto confuso, pressionado, perdido porque minha rotina mudou.
Lendo seu texto, senti uma aproximação poderosa. Uma sensação de desencontro e encontro, um paradoxo, assim como me sinto diariamente.
Sei que depois deste dia frio, em que estou todo introspectivo, voltarei aqui, para ler silenciosamente os seus escritos da alma. Obrigado!