19 março 2009

emília submersa



Um mundo guardado. Todos temos. Alguns mais, outros menos. Alguns escondem tanto esse mundo e esquecem que ele existe. Bem aqui. Do lado de dentro. E há quem diga que a gente é feito desse mundo não aparente. Mundo de mofo, de gente que partiu e da gente mesmo que envelheceu, mudou de cara, o corpo esticou ou murchou. É que a gente vive assim. Não tem outra. Não tem desculpa ou fuga que se possa usar dizendo "Eu não tenho problemas, nem segredos. Sou um livro aberto". Eu que não quero ser um livro aberto. Quero as minhas ilustrações. Minhas próprias ilustrações. Da primeira à última página quero estar aguda de sentimento porque não sou alegre, nem triste, nem poeta. E também não sou uma flor. Talvez eu seja uma dessas mudas de planta e cresço demais ou não saio do canto. Fico seca de receio e mantenho a fé pra não dizer que sou cheia de agouro. Eu sou o melhor e o pior de mim. Um sacrilégio em dia de missa. E mesmo que eu escreva difusa confusa no sufoco de um diário, é a tal da voz interior. Essa voz que é tímida e sem vergonha e mesmo que a fala fique embargada por essa vontade de dizer tudo e fingir que nada machuca, eu quero viver o espetáculo inteiro. O palhaço sem graça me fazendo rir sem motivo. Mas eu vou rir mesmo porque comigo é assim. Eu dou risada até do vento. Por que não rir de um tombo ou de um lampejo de fracasso? Vou rir muito. E cuidar de mim e não cuidar. Me deixar de lado e não deixar. Ouvir música e me envenenar de mim e tomar porre de meu segredo que é visto por todo mundo, mas eu finjo que não. É assim que a gente vive. Requentando o que sente e extrapolando de vez em quando. Mas viver é isso. É lua crescente e não um quarto minguante.


Photo by Monique

17 comentários:

Mai disse...

Sacrilégio em dia de missa ou dia santo ou dia qualquer... Livro aberto nunca se é ou sempre se é.

Eu gosto sempre,Letícia.
Deste registro da ficção do poema que jamais esqueço ...

'Boneca de pano' quem é?
Quem somos?

E cadê o livro?
Tem Bienal Nestlé de Literatura.
A premiação é 'mara'...
Pfff...

Beijo,

Mai

Lorena disse...

Let, sabe sintonia fina? Eu acredito nela e na gente. Eu até me emociono. Eu leio você depois de me ler e penso "meu Deus, as pessoas vivem essas coisas mesmo, não são monstros pessoais criados dentro de mim".
A gente é uma revolução, o tempo todo, é caos organizado, é teoria do design inteligente.... E tem essa voz interior que comanda né? E a gente vai mudando, de acordo com o compasso. Sou a favor das mudanças.

A gente escreve e parece que se entende melhor. Principalmente depois que alguém lê. Pelo menos eu sei que me entendi melhor, entendi meu texto e agora me lembro a ocasião em que comecei a falar do seu Caos Comovente e entendi o porque escrevi aquilo. Acho que por isso os diários são importantes, mesmo os fechados a sete chaves.
A gente pode ser um livro aberto, Let, mas nossas páginas estão todas criptografadas. Quem consegue a chave do segredo tá feito! ;)

Hey, thanks for your support, ok? Thanks for everything. Love u too, a lot.

Léo Mandoki, Jr. disse...

oi!
sabe o que eu achei qnd terminei de ler o teu texto?...
achei que vc fez um esboço para a próxima história...vc é uma existencialista convicta, vc é da escola clássica de Sartre...vc não se basta pensando no Ser, vc tem a ansia de escavar ainda mais, ter retirar todos os aneis da cebola, e tentar encontrar o núcleo...mas o nucleo do Ser é movel...e vc sabe disso e não descansa de o tentar encontrar...esse teu texto é isso: um exercício de escavação, onde vc preparou o espírito para a próxima história
...
não te vou dar beijos!

Elcio Tuiribepi disse...

Embargar a voz, é segurar a alma, trancar, emparedar e não dar chance ao choro. Mais um belo escrito onde coração e alma se fazem presentes de forma concreta, sem fingir o que não somos...viver para mim é Lua Cheia...rsrs...um abraço na alma

Beto Canales disse...

hummmm..

Du disse...

E eu me lendo no teu texto...deu até um nó...

Glaucia disse...

"Requentando o que sente e extrapolando de vez em quando"

Adoro ler você, Letícia! Estive aqui mais cedo, li. Agora voltei, li de novo e comento.
E o melhor disso tudo é que você escreve de um jeito que eu sempre me vejo nos seus personagens e muitas vezes dá vergonha...rsrs

Beijos. Tenha um ótimo fim de semana. =)

Alessandro Medeiros disse...

Oi Letícia,
Você fez um comentário dizendo que não escreve poemas... mas depois desse texto, acredito que você leve jeito pra coisa...

Abraço.

Biba disse...

É, a vida é assim, lua crescente, às vezes cheia. E nos fartamos d(n)ela. E arriscamos e crescemos por caminhos perturbados entre dores e alegrias. Mas o riso, o riso tem que continuar para que sejamos menos doídos e menos exagerados na dramatização dos dias em que o céu não nos deixa ver a lua crescente.
Beijos
Carpe Diem!!

Zélia disse...

"Eu quero viver o espetáculo inteiro."
Letícia.

É isso! A vida é multiplicidade de sentimentos em acontecimentos. Nós somos parte disso. Para vivermos é preciso saber estar vivo. Ou seja, participativos e multiplos. Estou sempre um pouco de tudo: chuva,sol,noite,dia,amor,ódio,música,torta de abacaxi,sonho,devaneio,poema,drama... Estou agora e amanhã mas Sou e permanesço o que e como consigo absorver da vida.

PS. Emília me é familiar. Talvez, em outra roupagem mas familiar...

;)

Leandro Neres disse...

Me lembrou aquele teu outro espaço, o diários... Gosto destes textos que não são de auto-ajuda, mas são ajudadores, rs...
bjos

Monday disse...

Livro aberto, pra mim, costuma ser aquele que deixamos em cima do sofá enquanto vamos tomar água e interrompemos a leitura ...

transparências não são o forte do ser humano e seus disfarces mil para fugir da realidade real existente ...

tava com saudades de te ler e ter esse prazer que sua letra sempre proporciona ... mas hoje, com as horas de sono em dia, ficou bem melhor ... rsss

boa semana, menina

bjks

mariza disse...

Letícia querida,

antes de mais nada, desculpa a demora, ou demoras, porque há tempos sou sua seguidora, visito sempre o afeto, leio e saio calada. porque, na maioria das vezes, a palavra me escapa e, também, porque na maioria das vezes do que se entranha é difícil falar.
de menos do seu talento, que esse é visível, transgressor, sobretudo. uma nota musical diferente e bem-vinda num mundo de letras, rimas e prosas tão iguais (e nisso me incluo).
a emília submersa é a Letícia, a Mariza, a Ana Maria, a Joana. essa tradução de nossos universos nos aproxima e nos obriga a mergulhar em nossas verdades, aquelas que nem sempre queremos admitir como nossas, porque é mais fácil enxergá-las no alheio do que em nós. mas são nossas.

grande beijo.

glória disse...

eu desconfio dos livros abertos, de sentimentos que se expõem desnudados. as minhas ilustrações eu rascunho em traços do acaso. nem tenho itinerário certo. o torto e roto fundam o canto da poesia, assim como dos poetas. gostei do que li por aqui. bj

Germano Xavier disse...

O rir como remédio é Nietzsche puro. E é muita gente pura e impura também. E lendo fui levado ao Caio F. perfilado pela Callegari. Há espinhos bem cuidados em toda a tua obra, Branca. E Deus, se é que ele existe mesmo, um dia disse que isso era bom.

Éverton Vidal Azevedo disse...

Pois é. Eu leio os comentários também, porque é assim, tem o texto, e do texto tem-se o retorno que é a voz do texto em nós, e eu gosto de ouvir as vozes dos outros. Digo isso porque a Lorena disse e des-disse o que pensei sobre seu texto.

Ela falou em coisas criptografadas, outro nome pra emilia submersa. A gente guarda coisas e acaba sendo o que guarda. Acredito absolutamente que somos esse mundo não aparente... de mofo e gente que partiu e ficou.

Grande texto!

Márcio Almeida Júnior disse...

Na minha opinião, Letícia, é um de seus melhores textos. Aqui você ensaiou a prosa poética de questionamento existencial, sem necessariamente se colocar no ponto de vista de um eu ficcional. Válida, sem dúvida, a experiência. Aliás, venho observando que você deveria se dedicar à prosa poeética de não ficção e de caráter existencial. É um gênero em que você vai se encontrar, acredito. Outra coisa: parabéns pelo treino de concisão. Calvino, nas suas "Seis Propostas para o Próximo Milênio", colocou a velocidade, decorrente da concisão, como qualidade que a literatura contemporânea terá de apresentar. É esse o espírito de sua produção nessa pequena jóia.