05 março 2009

lírica subversiva



Escrevo um poema ao desabotoar minhas intrigas que são meninas bem vestidas, ingênuas e falantes. Elas suspiram barrocas, encantam sentimentais e decoram o escárnio de toda a história de meus ancestrais políticos, polidos e falhos de memória. O poema versado ameaçado de crítica agride a métrica e a rima e silencia o grito destas ilhas esquecidas dos sentimentos que vivi. Diluída a minha essência em palavras que zombem de mim e que sejam certeiras de arco e flecha me fazendo crer que não e que sim. E será de bruto efeito o poema que começa ensaiado e termina quebrado por falta de espaço. Mas não sou poeta. Nem gracejo palavras. Não me atrevo a inovar versos em sílabas ou flautas e redondilhas. A palavra toma de assalto o meu ato trágico e perco a voz no palco. E agora sou ator. Um espalhafato. Evoco a inspiração e trago a vertiginosa fumaça lírica do texto que reproduzi. Compasso em falso e escapa de mim a deixa que não fazia parte de meu papel e me embaralho no escuro de um trampolim. Sou trapezista então. Mas a corda bamba me enlaçou e caio em público. Estúpido, sem coroa, sem trono ou cortesã e me arde a fornalha do pensamento apavorado que fala de trás pra frente e escorrega na decente ortografia e sou livre de correntes e me entrego ao improviso da arte indecente. Todo inconsequente. Sou humano e ainda procuro versos de prosa de um livro que nunca fora escrito. Sou tudo e outro qualquer imaginário. Um calendário do passado que reflete um futuro prosaico. A mentira de criança e o paraíso perverso do equívoco.


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9 comentários:

Du disse...

Lendo de uma só vez, quase sem respirar... lindo!

Liene Márcia disse...

Letícia,
Quem disse que não há poesia em suas palavras dispostas numa sequencia única de combinações que transcendem os sentidos? Lirismo puro!
Um abraço afetuoso.

Jacinta Dantas disse...

Vou lendo seu texto e vendo o vai e vem na vida que segue, guardando a menina que se foi e continua sendo na mulher que se é.
Viajo legal ao ler seus escritos. É muito bom. Vou entrando nas entrelinhas e fazendo delas, minhas linhas. De novo, muito bom.
Um beijo

Beto Canales disse...

hummm

Monday disse...

ah, lembrei do que esse texto me tentava lembrar: Aquarela!

" se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel, num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu ..."

e por aí vai ...

bela mudança de quadros, Le

Menino-Homem disse...

...é assim que se ganha a noite, lendo, voando, e captando em tantas imagens a simples emoção...

Germano Xavier disse...

A brevidade que assombra. Imaginamos a pequenez do texto e o que era um curto texto de grande complexidade e fortaleza imaginativa inquebrável, ríspido e seguro que é, adquire um eco intensamente cru. É como virar a página de um livro e dar de cara com o latente autor, ator, reator.

Um exercício de concisão rítmica, banhada a ouro - certamente.

Mai disse...

Lindo esse Letícia.

És tu com outra cor...
Palavras que pulam feito pipoca...

Estou de volta e inteira outra vez.

Obrigada pelas palavras por lá.
Te amo!

mai

Anônimo disse...

...claro que é poeta...
ou então sequestrou um, rsrs



n.