09 março 2009

soldados iguais


Avenida Gonçalves Aguiar. A maior avenida do mundo. Se alongava suja e escurecida pelas fábricas. Não havia um carro que a cruzasse. Os dois lados da avenida eram tomados por fábricas. Tijolos aparentes erguiam aquele universo avermelhado de muros e esquecimento. Saíamos cedo de casa porque seriam dois ônibus a caminho do que buscávamos. Estava sempre frio. Não lembro de um dia sequer que não tenha sido necessário o uso de casacos e meias grossas para proteger os pés. Era frio e geada. E nós saíamos, lado a lado, engolindo o tempo gelado e eu pensava no que me aguardava ao fim da avenida e ela também pensava. Sempre pensava tanto, falando alto, cumprimentando vizinhos. Eu me incomodava com aquela voz. Meus ouvidos se incomodavam. Mas ela não se importava. Passávamos por muitos lugares e ela conhecia tudo como se fosse a palma de suas mãos. Entre tantos cumprimentos, tragava seu cigarro e eu sentia aquele odor de papel queimado e o hálito. Este não me incomodava. Eu já havia me acostumado ao cheiro de seus cigarros. Sempre a observava. Vivendo, falando, sorrindo e fumaçando esfomeada pelo vício. Mas para mim não era vício. Era apenas uma mulher fumando seus cigarros. E seguimos ao ponto de ônibus. Segurava minha mão com descuido. Despreocupada, embora tantos carros e tantos ônibus passassem por nós, ela sabia que eu não largaria sua mão. Cheio de medo que só eu mesmo, sempre ficaria ali. Como um cão treinado. Junto. E chegou o nosso ônibus. O primeiro. Sempre temi esses ônibus e as pessoas. Me sufocavam, me tocavam, me faziam querer não estar ali. Nesse momento eu soltaria as mãos dela e fugiria. Mas o medo era maior. Uma âncora me fazendo permanecer. Para esquecer o que sentia eu mantinha minha atenção no falatório. Coisas que eu não entendia entravam e saíam de meus ouvidos e ela falava com estranhos. Isso me aborrecia enormemente. Isso me fazia querer que ela não existisse. Tanta conversa oca e eu entre ela e aqueles estranhos que se aglomeram pelas ruas, pela vida. E chegamos ao ponto de intersecção. O medo sumia por alguns minutos e estávamos no centro da cidade. Toda a agitação e as pessoas com olhares tensos, vendedores, executivos. Eu percebia que havia algo em comum entre todos que passavam. Estavam todos correndo. Eu não entendia aquela pressa. As ruas tomadas por uma correria frenética de olhar veloz a vitrine porque o tempo não perdoaria o atraso. Seguíamos marchando como mecânicos soldados enfrentando a guerra. E ela parecia não estar ali. Novamente um cigarro. O segundo ônibus ainda demoraria e ela poderia saborear um pouco mais seus pensamentos. Embora conversasse com estranhos, eu sabia. Ela estava pensando. Exaustivamente. Daria tudo para conhecer seus pensamentos. Enxergá-la como se fosse minha própria imagem ou como se fossem meus próprios pensamentos aqueles que a tomavam instantes. Com um gesto comum, ela atirou seu cigarro na água que fugia para uma galeria aberta próxima de onde estávamos, largou a fumaça e me puxou e de novo o mundo dos estranhos. Novas palavras, risadas, reclamações e embora eu não entendesse aquela língua, eu ouvia. Sentia o medo deglutir minhas vontades e meu corpo suava embora estivesse frio. Sentia meus pêlos eriçados pelo pavor que aquela multidão engaiolada me causava. Contava os minutos. Eu precisava sair e quando a garganta secava e a lágrima se emancipava de mim, já estávamos na esquina da Gonçalves Aguiar. A maior avenida do mundo. Eu repetia isso porque alguém havia dito. Ela havia dito isso e eu repetia com orgulho porque eram palavras ditas por ela que me levava pela mão avenida acima. Nosso destino era um farol distante que anunciava o que nos esperava. Tão longa aquela avenida e suja. Úmida e esquecida. Fábricas de tijolos aparentes e a ausência de vida. Éramos nós as únicas pessoas que enfrentavam a avenida. O lixo se acumulava nas calçadas. O odor do lixo se acumulava na fachada das fábricas. As chaminés engoliam o lixo das calçadas e a geada umedecia o nosso rosto. Odiava aquela avenida e o ódio seria maior não fosse o farol simbolizando um misto de alegria e liberdade que logo me faria sentir alívio. Eu sabia nomear o que minha sensação quando chegávamos ao fim da Gonçalves Aguiar. Entre os cigarros que ela destruía, o meu coração me manipulava batendo sem compasso, pulando, esquentando o sangue e saindo pela boca. As pernas quase fracas já pediam descanso, eu queria descansar, mas também não queria adiar. Ela caminhava firme ao meu lado como se fosse um soldado liderando a tropa para o combate. E passavam diante de mim o cenário, as horas, o silêncio que engolia a avenida e chegamos ao farol. Uma enorme porta se erguia aberta engolindo o lixo e suspirando perfume de ar refrigerado bombeando lavanda vaporizada. E estávamos a salvo. Mais um dia de vitória. Ela sorriu para mim e eu devolvi o sorriso porque estava fora de perigo. Tantas prateleiras e eu saberia os pensamentos de minha acompanhante. Ela sabia de cor os produtos que levaria e me explicava tudo numa língua que agora eu entendia. Porque ela falava comigo. Olhava para mim. Eu entendia a língua de minha mãe quando ela falava comigo, cheia de carinho e dizia que, ao fim das compras, poderíamos comer juntos na lanchonete daquele grande supermercado. O teto do céu me parecia cinza, mas dentro do ar refrigerado o mundo era colorido, eu me sentia esfuziante empurrando o carrinho de compras e minha mãe sorria desarmada. Ela era, finalmente, o meu soldado em paz.


Image by shortthing

12 comentários:

Beto Canales disse...

hummm... bom.

Léo Mandoki, Jr. disse...

o registro poetico esta mais romantico. talvez no teu processo de escrita devas ter recusado diversas vezes uma derrapagem ao romantismo, mas acabou aparecendo (o que não é mto vulgar em ti)...
...
e dessa vez a técnica de transformar uma avenida em personagem vivo...mto bem!

Éverton Vidal disse...

No início do texto o mundo é tão cinza e grande. Risos e conversas estranhas, tudo confuso e até caótico. Mas quando chegam naquele farol, a paz.

E tive lembranças por aqui. Coisas infantis...

Um bj.
Inté!

Liene disse...

Letícia,
Seus textos são de prender a respiração! Tensão durante a leitura e um final que surpreende.
Parabéns!

Germano Xavier disse...

Sensação minha até o antes do desfecho:

Em empréstimos Borgeanos...

"Sabemos estas coisas, mas não as que sentiu ao afundar até a última sombra."

(O fazedor)

Você faz e acontece, Branca.
Fora de concurso.

Biba disse...

Letícia, ser levado pela mão da mãe é sempre belo e aterrador. E se ela me largar de repente? Lembro da mãe de O Encouraçado Potemkim que perde o menino pelo caminho, ela segurava-lhe a mão. Chegar ao farol é chegar no lugar da inocência, da luminosidade, da perfeição. Só então ele volta a entender a língua da mãe.
Lindíssimo.
Beijos
Carpe Diem!!!

Lorena disse...

Não sei porque, mas eu sabia que era a mãe, sabia! Hum... identificação, eu acho? E que isso é incrível, é.

Eu deixo uns dias sem vir aqui e quando venho é bálsamo. A espera só melhora o resultado! =)

Saudades. love you, muitão.

Mai disse...

Letícia te li de outro modo hoje...
Talvez o tom, a melodia...
E sempre e um 'desbunde' deslumbrante,mesmo.
Essa avenida éum assombro em tua letra.

Beijos,

Mai

Narradora disse...

Claustrofobia de lugar aberto e paz no meio das compras... ser levada pela mão e retomar o controle levando o carrinho... o entendimento ao voltar as ser foco de atenção...
Muita coisa... essa deve ser a maior avenida do mundo mesmo
Beijos.

Monday disse...

mãe levando pela mão ... muitas vezes, sem dúvidas ... mas ela não fumava ... e íamos eu e minha irmã, uma em cada mão, subindo e descendo pela Rua Augusta pra comprar sapato ... naquela época não havia shopping ... a gente reclamava do cansaço, mas minha mãe agia como um coronel: vamos porque temos que ir ...
mas as lembranças da Rua Augusta dqueles tempos nunca mais me saiu da memória ...

Elcio Tuiribepi disse...

Oi Letícia, viajei em seu texto, queria te perguntar uma coisa: Hoje passo em certos lugares que frequentei quando criança e vejo o exato tamanho daquele meu universo, e as vezes me pergunto brincando, será que eu cresci, ou o lugar encolheu? O bom disso tudo era o contato, o estar junto de alguma forma por inteiro...cria laços...lembranças como esta...um abraço na alma

Biba disse...

Letícia, tem um selo pra você lá no meu blog!!!
Bju
Carpe Diem!!!