30 abril 2009

anulação da humanidade


Dia desses, nem tão frio, nem tão quente, acordei decidida a escrever um conto. Tomei o meu fumegante café, passei um creme anti-rugas pela cara toda, meu filho — que sempre acorda mais cedo que eu — havia aprontado mais uma de suas encrencas e eu tratei de castigá-lo. O grande castigo moderno. Mandei o menino ficar em seu quarto assistindo TV e nada de se levantar, Seu Mocinho. Ainda decidida a escrever, procurei por meus óculos, pensei em algumas bobagens e mãos à obra. Liguei o computador, Bach preencheu o ambiente — assim como o aroma de lavanda que emanava do piso que a Rô, a simpática e bondosa criatura que toma conta de minha casa, havia deixado pelos cômodos enquanto fazia a sua extraordinária limpeza. Estava tudo em perfeitas condições. Casa limpa, filho de castigo e a Rô limpando cada cantinho da casa, retirando a poeira do tempo. Respirei tranquila e passei a elaborar o conto que já me saltava pela boca.

Começo a digitar e a tela vai se enchendo de palavras. Éramos o computador, eu e as letrinhas. Dia bom, pensei. E quando a Melinda, personagem do conto, dialogava com seus botões, o silêncio que ocupa o mundo após o desligar do motor do carro. Gente gritando na rua, gente insatisfeita, telefone sem fio e mudo, o coitado. Melinda sumiu num piscar de olhos. Logo percebi que não sou independente. Não sou livre. De que me adianta o creme anti-rugas, o filho de castigo, o aroma de lavanda? E Bach me abandonou. A Rô entra apressadamente em meu quarto e anuncia com seu sotaque do interior da Paraíba: "— Faltou luz de novo, Dona Menina. Valha-me Deus!". Eu estava aleijada e sem conto. A Melinda mal havia começado a existir. Tantas palavras perdidas porque esqueci de salvar o arquivo e agora Inês era morta. Aliás, Melinda.

Não fiz alarde. Desisti do conto e me dirigi à sala, vislumbrei a estante e catei um livro de crônicas. Me dei por contente. Me acomodei no sofá e Carlos Drummond de Andrade muito tem a dizer. Leio três crônicas do Drummond, sigo lendo compulsiva, me entrego ao Fernando Sabino e começo a salivar porque carrego em mim esse vício pela linguagem escrita. Aflita, embora aparentando estar calma, peço a Rô que me traga meu caderno que sempre me ajuda nos momentos mais difíceis. Munida de uma caneta esferográfica de cor azul, uma folha em branco pela frente e eu louca para fazer desfilarem as palavras que me habitam. Venci a tecnologia. Sou o homem descobrindo que o atrito gera o fogo. Mesmo que eu não possua uma Remington, me sinto clássica e alfabetizada. Senti o alívio por estar liberta de algo que tanto me causara angústia. Graças ao manuscrito, Melinda voltou do suplício de quem morre engolida por um furacão. Melinda era a criança natimorta. Burlei a eletricidade e escrevi horas a fio. Agora éramos o caderno, a caneta, o aroma de lavanda, meu filho brincando com seus aviões, a Rô cantarolando no quintal e a Melinda tomando minhas palavras cursivas numa folha de papel.


Image by zerohdog

16 comentários:

Leo Mandoki, Jr. disse...

ahahaha..adorei conhecer esse teu cotidiano..
eu tenho uma Remington..ahahha...
mas eu entendo a escrita em 1ª instância como um artesanato, ou seja, preciso de papel e caneta, pq há uma dimensão da escrita que é material. Eu qnd penso e escrevo uma frase, preciso vê-la sob a forma da minha caligrafia. E só qnd vejo que ela está bem no papel é que eu a passo para o PC.
..Tbm escrevo com Bach..e Chopin...e Debussy..., mas qnd a ideia não me sai, não leio nada para não me sentir influenciado...o que eu faço? geralmente saio de casa...ou vou trabalhar em outra coisa...
adorei conhecer esse teu dia a dia da escrita..não sei se é ficticio ou real...mas gostei!
um grande e sincero beijo para ti

Camilla Tebet disse...

Verdade o comentário acima. Bom saber de sua rotina. Uma menina mãe que sente aromas e se inspira fácil. Sei que o fácil já é coisa da minha imaginação.
Vc escreveu outro dia que a poesia é a viagem que não aconteceu... e aqui é a menina que mal nasceu.
Lindo. Me inspirou como sempre.
Beijos querida.

suecosta disse...

Eu estou ensaiando colocar um comentário aqui faz tempo, adoro tua escrita, o ritmo que empregas aos textos. Agora, adorei saber que também não és escrava da tecnologia, eu tb tenho um caderno kkkkkkkkkkk

Parabéns

Lorena disse...

Eu tenho um problema seríssimo, que é o vício do teclado. Se me acontece de acabar a luz no meio de um conto, ele morre e não renasce mais... Horrível isso, né? Imagina minha letra, como está ficando feia com a falta de prática. =/ Mas ainda adoro ler letras manuscritas. E cartas continuam sendo muito mais especiais que os emails e afins. Mas para todo o resto, teclado. Um tecla me poupa borracha e corretivo, tão prático! ^^

E eu agora estou curiosa com Melinda. Será como as duas do Woody Allen, que eram duas em uma, duas faces da mesma moeda? =)

Um beijo pra o filho, que espero que já esteja fora do castigo, brincando livremente. E outro pra mãe e manda um inclusive pra Rô, com cheirinho de lavanda.

luv u.

.Dazinha. disse...

Que delicia de texto,rs, as vezes entro em surto quando não consigo ecreveer nada, as idéias e palavras, brotam umas sobre as outras sem tomar definição,rs, tenho que correr e escrever coisas soltas no papel, e depois tentar organizar no computador,rs.
lindo demais! :)

Lucas Vallim disse...

Nossa! Mas que texto ótimo!

Sabe, até fiz QUESTÃO de colocar Bach enquanto lia seu conto(Cello Suite No.1). E realmente dá um clima um pouco triste, mas assim é que é bom. Fiquei triste pela morte momentânea de Melinda, mas fiquei contente quando ela voltou, e de forma clássica, No papel, que coisa rara!

Espero que você post o conto escrito sobre Melinda! Esperarei anciosamente!

Estou adicionando teu blog na minha lista, adorei aqui. Se quiser me adicionar também, fique à vontade!

Até logo!

Simonne Allice disse...

Eis que o talento vence a tudo aquilo que é moderno, que tenta se sobrepor à verdadeira natureza humana. Pequenos momentos... grandes inspirações. A tecnologia não pode vencer isso, Let.
Grande Beijo pra você!

Elcio Tuiribepi disse...

Fizeste bem Letícia, com certeza a sua personagem mereceu toda a sua dedicação, ando fazendo essas coisas também, numa agenda escrevo, rasgo, amasso, jogo fora, escrevo de novo e por aí vai...
O mais legal Letícia, porém, foi ter passado o seu cotidiano de forma tão interessante...90 por cento dos contos que escrevi oram feitos de experiências no meu dia a dia...E enquanto você lê contos, eu nessas horas leio poemas...rsrs
É isso...show de bola...um abraço na alma materna...bom feriado...bjo

Monday disse...

Sabe, Le, isso me lembrou os meus cotidianos no trabalho. Como bem sabes, trabalho na área de alimentação: descasco pepinos na entrada e abacaxis na saída ... rsss

e assim vai o dia todo, a resolver os problemas que pululam nas entranhas da instituição, clamando por soluções ...

e, quando a tecnologia não se adequa às necessidades, não há problemas: vamos no bom e velho método manual!

e la nave va ...

afinal de contas, Thomas Edison não nasceu na pré-história, certo?

Biba disse...

Muitas das minhas histórias nasceram assim, no papel, quando eu sentia essa compulsão e nada dava conta de impedir o resultado a se aproximar. Gostei de conhecer um dia na vida da escritora Letícia.

Beijos,
Carpe Diem!!

glória disse...

As estórias muitas vezes me levam e eu sigo letras que me fazem escrever. Na maioria das vezes o tema que havia pensado, os contornos da trama, seguem um rumo inesperado. Quando sou interrompida e, retomo os fios da narração um tempo depois ela ganha novos matizes. Melinda, ao ser "interrompida" ,deve ter alcançado com a volta da luz, outras faces de si. Sempre muito bom passar por aqui. bj

Miguel Barroso disse...

Que tudo seja válido para escreveres tão bem assim!

Júnior disse...

Tudo em você é lindo... Sua rotina é bonita, mas não por ser bela. Não tenho filho pra castigar as travessuras. Também não costumo ouvir Bach. E não tenho a Rô limpando a casa. Tenho minha mãe que entra no quarto "matando" meus diversos personagens. Tenho o telefone tocando e "matando" os sonhos de quem dormia. Salve os arquivos... Pobre Melinda! E como disse Virginia (olha que íntimo!!!): "sempre sentira que era muito, muito perigoso viver. Um dia só que fosse".

Lots of love

Germano Xavier disse...

Sim.

Germano Xavier disse...

Sempre há uma saida quando se quer escrever. Papel higiênico também serve, ou papel vegetal, ou papiro, ou tronco de árvore, ou pedra na ribanceira, ou pé de torre de telefone, ou encosta de morro.

Hellen disse...

Lê, adorei o que li, me vi dentro da tua casa, sentindo cheiro da lavanda e morrendo de dó menino de castigo...Que bom que Melinda nao morreu, infelizmnete somos escravos dessa tecnologia que nos consome diariamente, e viva aos velhos tempos...caneta e papel. bjos amiga.