14 abril 2009

aurora de cordel



Aurora caminha lá fora com a vida nas costas tentando vingar. Menina cabeça de vento gênio violento de se assustar. Debulha palavra incerta meio desonesta meio Deus dará. A mãe da menina é dispersa silhueta inversa de se espelhar. Feia e torta à janela a mulher espreita Aurora banhar. Bonita e meiga a menina recebe do pai o carinho do lar. O céu atropela e o dia vem na tardia voz do rebentar. É hora de Aurora astuta buscando a labuta do pão migalhar. Trabalha indigesta maneira cortando em ceifas castigando o ar. Espiga de milho em calos faz a menina quase relinchar. Antonio homem mal de olho cheio de espanto Aurora amar. Ama por baixo da planta e entope a menina de verbo nervoso em pecado de seu palavrar. Há de amar. Aurora menina atraiçoada de mãos tão pequenas e pernas no ar. Aguenta a força de Antonio abrindo a criança sem avisar. Encosta a menina na terra e devora à miséria de se envergar. Silêncio na plantação que a menina engole o choro de medo que Antonio em veneno em homem de si faz jorrar. Não olha devora a maldade e Antonio o covarde sorri sem parar que a menina pequena imensa de tetas aberta na cama arenosa de cobra rastejar. O tempo parado observa e o sol de um brilho faz o alicerçar. Dela menina andante agora em sangue e a mãe a chorar. Olha que a bela Aurora agora evapora e sem se ajeitar. Morre sem terço a menina e sem garantia de Deus perdoar. As mulheres se vestem e fazem promessa de santo provar. E a menina Aurora segue em pecado e a mãe faz jurar que a menina era triste que a culpa é do pai que a fez se embelezar. Desgraça de pai que ordenha a única filha dia atrás dia em casa e na terra fez a mãe calar. E veio Antonio de vento homem traiçoeiro de tanto invejar. Desejou a menina Aurora e a fome foi tanta que o fez matar a imensa beleza da vila do campo da vida onde o sol inventou de arder e morar. E hoje o sol impera na terra de Aurora que agora serena descansa eterna de pecado em ser bela por saber doar seu corpo em vento e vontade que homem no mundo não sabe admirar sem tocar a beleza de Aurora que é tudo e é nada é história contada e rimada em feira na rua de dia e na casa e na esquina em noite de luar. Aurora perpétua é menina que anda de boca em boca em cantiga do povo que gosta de morrer de tanto falar.


Imagem por Jô Cortez

18 comentários:

mariza disse...

primeirona... hehe

lindo, Letícia. um cordel impontuado. uma aurora violada, na medida exata pra emocionar.

um beijo

Jaque Lima disse...

aurora rasgada e banhada pelo pecado que não era dela. culpa da beleza e das ardências do homem da terra. agora virou rima, cantiga. e a aurora menina bonita pode descansar...

Beijos bonita!

Mai disse...

Letícia te contar que eu tenho uma coleção de cordel. Um tesouro guardado e amarrado em laço de fita.

Coisa linda esse teu texto.
Parecia que eu ouvia a viola sonora dos violeiros, toadores, cantadores do nordeste.

Me emocionei em um tom diferente.
Beijos, querida.
Fica bem.
Estás?

Carinho imenso.
Love u.
Mai

Leo Mandoki, Jr. disse...

..não sei se acontece o mesmo com vc, mas eu qnd leio tenho alguma dificuldade em me concentrar na narrativa em si, na trama, ou no texto poético. Fico lendo e tentando desconstruir a construção do autor. E nesse seu texto, li-o 2 vzs só para captar a sonoridade e a regularidade temporal das rimas..e descobri que vc subiu a intensidade do tom e o espaçamento das rimas conforme se foi aproximando do fim. Foi inteligente isso! inteligente e estético. Gosto de aprender literatura aqui com vc.

Liene disse...

O que é ísso, menina?
É de tirar o fôlego!
Letícia, parabéns...

Beijos!

Sonho de Aurora pelo avesso
vida infeliz sem apreço
a morte em escarro miserável
lágrimas de pesar inevitável

Márcio Almeida Júnior disse...

Letícia,
A experiência do cordel ficou interessante e convincente. Penso que você experimentou, ao realizá-la, uma dicção popular, usou uma voz que tem força, que é a do cordel. Essa bem sucedida transposição da poesia para a prosa pede uma continuação. Sugiro que continue experimentando, inclusive com outros gêneros. O resultado, creio, será tão admirável quanto este.

Beto Canales disse...

plac plac plac

Biba disse...

Nossa, que lindo e triste e ardente. Suas palavras são transformadoras, incitantes. Gostei muito dessa experimentação, viu?

Beijo e afeto
Carpe Diem!!

Du disse...

Nossa! Acho que é a primeira vez que leio algo assim, em prosa e verso rimado e ritmado... Lindo!

Beijos, Letícia.

Ps: Citei você no meu post de hoje, espero que não fiques chateada...

Zélia disse...

"Construção". É isso! Todo texto é construção. Se ele será mais ou menos belo, depende do construtor. Quanto a este, vou dizer:

"BELA CONSTRUÇÃO"!

Isso porque deixo, agora, de ser tão ditática nos meus comentários para dizer que pouco vc me surpreende nos seus textos. Não que vc não tenha amadurecido ou inovado no seu trabalho. Vc faz isso a cada texto. Por isso, não é comum que eu me surpreenda com eles. Conheço a sua capacidade, seu trabalho e sua dedicação! ;) No entanto, o "cordel leticiano" me impressionou bastante e eu fico muito feliz com isso! :)

That's all!

Lorena disse...

Plac plac plac [2]

Só você, Lê, pra escrever cordel em prosa. Só você pra arriscar e conseguir algo assim. =)
Fiquei sem fôlego também, não penas pelo ritmo. Pela história que vai crescendo junto com as orações, e chega o ápice e explode, e volta a calmaria da recuperação do fôlego.

You are amazing. =)

Erica Maria disse...

Texto que prende do inicio ao fim!

Lindo!

Bjos em teu coração!

Germano Xavier disse...

Veio-lhe a tentação de construir uma poética do escrever-raiz. Louva-se as vantagens de um efeito ainda de enfeite, ou quase. Inventa-se uma volta renovada. Um modo de valorização estética.

Os olhos agradecem.

Glaucia disse...

Lindo, Letíca!

Aprendo muito com você.

Admiração profunda...

Beijos!

Elcio Tuiribepi disse...

Letícia a correria tá grande...provasssssss...mas volto para ler com calma ok...deixo um coments colado ( não gosto disso)...rsrs...quanto ao blog lá...mudei já tem um tempinho, e o beij oroubado surgiu após uma lambidona no rosto da Aila, minha labradora...rsrs
Meu texto colado...rsrs

Olá...desculpa a demora em reponder, mas ando meio bule de chá...rsrs...apesar da correria e de todos os probleminhas...valeuuuu

E FICA ESTABELECIDO QUE O OTIMISMO É UMA DISPOSIÇÃO ALEGRE QUE PERMITE QUE UM BULE DE CHÁ ASSOVIE, APESAR DE ESTAR COM ÁGUA QUENTE ATÉ O NARIZ.

Um ótimo fim de semana para você...um abraço na alma

Camila disse...

Não sei se porque passei muito tempo sem ler seus textos fiquei tão surpresa com o que li aqui. Não que eu ache que você não escreveria tão lindo cordel, mas não esperava ler um aqui. E sobretudo um assim com princípio, meio e fim. E o tema? Forte e sofrido como são os personagens do cordeis aqui do sertão. Confesso que procurei a referência, mas sei que só tenho que referenciar você, escritora.

Estava com saudade de ler o que você escreve. Saudade do parágrafo único e da escrita característica. Mesmo.

Beijos, Let!

Leandro Neres disse...

Eu com aquele sorriso na cara pensando, puxa, a Let é demais, hahaha

Elcio Tuiribepi disse...

Oi Letícia, realmente você surpreendeu, escrever da forma como você escreve, já me deixa com cara de bobo, agora um cordel todo pontuado com ricas rimas aí acabei lendo e cantando junto, numa toada, numa batida gostosa, num ritmo embalado pela estória que você contou...agora sem bule e sem chá...rsrs...show de bola viu!! Um abraço na alma...