28 abril 2009

o equilíbrio da linguagem moderna


O entardecer a ponto de romper o infinito. A necessidade fera que alimenta a vida. O curvo aspecto de tudo que de perto é distância. Um ponto no fim da linha. A luz do dia e a tentativa de ser tão discreto como o ingênuo medo do acaso e, acaso ocorra o fim, recomeça porque poesia é o amiúde cortejador de mim. A retórica das cartas, a senhora que ainda conversa a respeito do céu enquanto o tempo corre e ainda a senhora que permanece a criar rascunhos. A busca por explicação durante o espanto. Um lenço que esconde a lágrima e, por não ter fim, a eterna tentativa de ser distraída entre as muitas prosas não escritas. Sentimental como amantes que sofrem desilusão. O brilho na roupa depois do baile de carnaval. Uma mulher tentando ser moderna. A mulher que esconde recordações, véu de casamento e o sustento e dias antigos. Fogos de artifício e o estribilho. Flautista emocionado após concerto e o aplauso o faz sorrir. O corte do cinismo e a trindade abençoada em pai, mãe e filho. A parafernália inédita desde o momento da criação. Segredo guardado entre os olhos que observam um corpo que mergulha no abismo. Sempre em busca. Poesia é o disco de vinil que repete o que se precisa ouvir. Um caos coerente de verbetes e silhuetas passeando no desfile em fim de estação. Tempo sem corda e porta aberta e visita que chega fora de hora. Um largo passo em sua direção. A flor que implode o momento. Poesia talvez seja a viagem de férias que não acontece, mas que se sonha e, de tão ensaiada, a viagem é recriada porque sempre existira em fé incômoda em voz de mim. A crítica dormente de quem mente e dorme descontente e acorda no meio da noite que também é meio de vida. Poesia é a cortina e o leitor é a folha que foge da árvore e inventa que não sente e se torna parte da rotina. O engraçado sapato de palhaço no meio da multidão aflita. Repetição da metáfora nunca dita. Um trapézio e o cúmplice exagero de quem ama, inflamando o corpo, perfurando a lã em agulhas. Dormente feito cego que anda esnobe olhando humano o espetáculo que o aguarda paciente em seu tombo risonho complacente. A necessidade que leva ao crime contornando a trôpega ilustração.Você que se escorre de pavio curto inalando a própria inquietação.


Image by otavio

11 comentários:

Leo Mandoki, Jr. disse...

..sabe..ontem estive numa livraria para o lançamento do ultimo livro do escritor angolano Pepetela ( O Planalto e a Estepe)...dps fiquei conversando um pouco com ele...e ele me disse algo curioso..do tipo..."todos nós somos heróis pelo menos 1 segundo na vida...qnd tomamos um decisão heróica"
...
ma verdade o seu texto fala sobre isso...fala sobre a importancia da centelha, o momento...
qnd me sento para escrever e a ideias não acontecem..eu não insisto mto...vou fazer outra coisa..e fico a espera que, de repente, a ideia surja...e é nessa fração de segundo que existe criação..pq o resto é apaenas trabalho de escrita...e assim é todo o resto da nossa vida..nós somos em frações de segundo..
um beijo grande e mto especial para vc Letícia (é gsotoso escrever o seu nome sabia?!)

glória disse...

teu texto de natureza polifônica é uma janela para múltiplos planos de sentidos. há uma orquestra de devires, de lugares, de memória transmudados em materialidades.

Fico com essa passagem:

Uma mulher tentando ser moderna. A mulher que esconde recordações, véu de casamento e o sustento e dias antigos. Fogos de artifício e o estribilho.

Essas dobras de ontem e hoje que nos atravessam em diálogos, tantas vezes, dissonanates.

bj

Du disse...

Sabe quando você lê um texto e acha tão lindo que fica sem palavras pra descrever o que sentiu na verdade? Pois é...
Lindo...

Beijos, bom dia!

Lia Noronha disse...

Letícia: há um viço de juventude e uma força de quem sabe o que quer na sua Literatura...adorei!
Abraços diretamente do meu Cotidiano pra ti.

Zélia disse...

Quando olhei o texto, a primeira palavra que vi foi "flautista". Foi tão rápido! Logo associei esse equilibrista da foto ao "Flautista de Hamelin" - o primeiro lembra mesmo o segundo. Certamente, a relação (quase inconsciente) feita por mim se justifica em "o equilíbrio da linguagem moderma". Talvez, a poesia tenha um som hipnótico como aquele da flauta da cidade de Hamelin. Não há quem resista ao seu chamado...

;)

Germano Xavier disse...

Ratinhos e camundongos fazem com que a prosa comece com impressão de já adiantada. Talvez sejam as janelas cerradas de medo em Hamelin. As crianças podem estar mesmo no sertão.

Sertão
Ser-tão
Ser tão
tão
tao

Camilla Tebet disse...

Vc fala de viagem de férias que não acontece. POesia. Penso aqui, vou lembrando que esses dias tetei uma viagem de férias, o carro quebrou a 80 km do destino e voltei 300 km de guincho. Sem poesia.
Saudade de ler aqui.

Ruberto Palazo disse...

Equilibrio da linguagem moderna? Desculpe a confissão, mas senti um ar de rotina nas frases curtas e aos solavancos, somente quebradas por uma poesia no meio do caminho, afinal podemos fazer de cada pedra uma singela poesia, nao?

Beijos

Camila disse...

Let,

Mais uma vez, não li nem uma, nem duas vezes, li querendo me misturar ao que você escreveu. Porque vivo uma vida moderna, ou na modernidade, e tento me equilibrar, mas nem sempre consigo. E talvez eu seja mesmo um exemplo de caos coerente, ou não. Porque liguei cada uma dessas frases, às vezes soltas, ao que sinto e ao que sou. E fiquei meio presa entre o fim da linha e minha própria inquietação. Fiquei presa do começo ao fim. Aqui.

Beijos, escritora!

Denise disse...

Gostei tanto daqui,que eu que tantas palavras sou,fiquei sem elas.

Denise

Germano Xavier disse...

Sim.

Camundonguinhos...