02 abril 2009

tempo de poética



Todos bélicos, famélicos e incandescentes. Apoiada sobre a mesa e sempre os discos espalhados e sempre um endereço incerto. A inquietude, marca devoradora das horas, faz lembrar de coisas comuns. Desculpas, parapeitos, tráfego aéreo e cartões postais. Ando tão apegada aos assuntos que poucos sabem de mim. Pura figura em seios e ainda sente frio na barriga quando lembra. Lembrar me faz dormir fora de casa. É a transcendência de minha devoção. A minha trindade é minha. Sagrada, imune e sacerdotes não conhecem minhas escrituras. Trindade oculta que me rouba a noite, que me faz desnortear em perplexidade e contorna em ondas minha atuação involuntária. Mesas e vinho e o pão multiplicado, triplo orgasmo e, em cada um, um poema. Tenta esquecer-me em minha cabeceira. Finge que não sou, que não ouço trovões e não sinto o assombro das árvores quando relâmpagos acendem a noite. Atento mesmo em face de encantos, cobre o meu corpo e sou mãe e amiga confidente. Como quem ama ou sorri, pensa nos barcos e encontra espaço dentro da virgem imagem de suas inflamadas reticências. Leonora coleciona sua trindade em tempo de carnaval e o templo, a madrugada sem pecados, marca ativa da música, sexo e poesia de seu continente em paz e guerras. Apoiada sobre a mesa e as velas amam os castiçais. Leonora é transparente como um antigo papel de parede e nada disfarça sua história. Sozinha nua e crua entre os objetos de sua devoção, contempla a vida em viva tela de suas réplicas e oscilações.


Image by ptakart

10 comentários:

Monday disse...

e assim, transparente e sem negar sua história, posso te garantir que, apesar de conhecer Leonora há pouco mais que três minutos, ela é plenamente feliz ... em toda a sua belíssima trindade ...

Erica Maria disse...

"Leonora é transparente como um antigo papel de parede e nada disfarça sua história."

Essa Leonora é mt parecida comigo!


Lindo o teu jeito de escrever!

Bjos no coração!

Glaucia disse...

"Apoiada sobre a mesa e as velas amam os castiçais"

Letícia, tudo o que você escreve é lindo e você escreve tão bem, que suas personagens são visíveis pra mim, mais um pouco eu tocaria Leonora e os castiçais.

Parabéns! Essa frase sua que citei aí em cima ficou na minha cabeça desde ontem à noite, quando li...e vai continuar...Lindo!

Beijos!

Tâmara disse...

È tao doce ser Leonora!

mariza disse...

Letícia,
a revista já está no ar, mandei e-mail avisando, tá?
e me desculpe a correria e falta de comentários hoje, mas, realmente, estou correndo demais por conta da atualização e envios e consertos.

beijo beijo

Lídia Chaves disse...

"Leonora é transparente feito um papel de parede."
Pareço com ela.
Gostei dos seus escritos!

Daniel Denkeman disse...

Comtemplar a tela da vida e se tornar parte da paisagem, é coisa de poucos.Os que conseguem nunca passam despercebidos. Assim, como quem os escreve no seu cotidiano
nunca passa pela vida sem deixar marcas na paisagem.

Germano Xavier disse...

Certamente um dos maiores mistérios da humanidade é o porquê-ocasionador dos textos leticianos. De onde surgem, com que rosto nascem? E mistério deixado no ar das divagações é índice de escrita grandiosa, com valor.

Eu sempre me apoio num sim.

Biba disse...

Minha linda escritora de textos cada vez mais amadurecidos, ternos e incandescentes ao mesmo tempo, um beijo enorme e bom findi.

Carpe Diem!!

Tamires . disse...

E Leonora se fez reflexo em mim.
Parabéns, Lê.
Mais um texto muito bem escrito.
Beijos!