05 maio 2009

rotineira



Já fora dito. A gente morre de repente. Quase displicente. A gente vem caminhando, alma viva, flor ardente e espalma a terra, o chão e assombra o espanto. E não volta mais. Televisão não assiste mais. Roupa de domingo não se veste mais e passear, só em cortejo. Pensamento congela e o dia revela que é hora de velar corpo. Ausência é sentida, sobra um lugar à mesa, uma porta no armário fica vazia e, por vezes, um armário inteiro fica solteiro. Colcha de flores para abençoar, preto em respeito e não se fala mal. Quem passeava alegre e fazendo da vida fogueira, some — um instante, um minuto e adeus. Não está mais lá. Telefone que não atende. E o mais engraçado é que bomba explode, tempo passa rente à janela e eles continuam a reprisar novelas. O mundo não respeita a gente.


Image by hank1

12 comentários:

Lorena disse...

Perfeito. Eu não sei como você faz isso. Acho que é muito talento para a minha compreensão. E olha que eu tento, eu penso com força! Mas sua capacidade é algo muito além do que eu consigo entender. Você é muito além, Lê. E você ainda vai chegar mais longe.
You never cease to amaze me.

Love.

Mai disse...

Viver ou morrer?
Eis a questão. Porque a morte é uma peça com dois atos. E a morte em vida é veneno sem vacina.

Let, texto sério.Eu séria. Tudo parece estar fora de lugar - minha alegria, meu desejo, a morte, o destino e tudo... Tudo.
E tudo explode numa morte em vida das severinas...
Antes que a cabeça exploda como se fora atingida por um projétil, eu me questiono viver ou não viver. Ser ou não ser. Sorrir ou levar um tiro certeiro e joa sabido, por ser certo de levar?

Aqui em teu texto há uma morte que se sabe, chega de repente e displicentemente, nem se sente a vida sendo ceifada.

Outras há, que contrariam a lógica ou a falta de lógica do morrer.
Caramba, Let.
no words anymore.

Carinho,
eu

Simonne Allice disse...

lírico...
a morte às vezes tem mais poesia que a própria vida.
quem cuida da vida, geralmente não percebe a poesia que ela tem.
lindo, Let!!!!
Continue sempre...
tua escrita me encanta!
Bjs

Germano Xavier disse...

Pois é, pois é...

é o que eu digo:

Morte aos leopardos!

Leo Mandoki, Jr. disse...

é exatamente assim que eu penso e esse é um tema recorrente qnd eu escrevo: a morte simplesmente é algo que acontece, enquanto tudo no mundo permanece como sempre esteve. Uma escova de dentes é uma escova de dentes. E a morte é a morte.
...o seu genero é mto na voz passiva..nem sempre foi assim, mas está ficando assim...e naos ei pq
beijos!

Desarranjo Sintético disse...

Só mesmo a arte literária para fazer da morte uma coisa bonita!

Abraço.
Fábio.

Camilla Tebet disse...

POis é, texto sério mesmo.
Não sei se foi Nietzche que disse que não existe sentido no medo da morte, já que havendo-a não estaremos lá.
Será???

glória disse...

esse instante onde tudo se encerra, deixa de movimentar corpos e afetos e veda os portais da espera é o que chamam de morte. Aqui,a morte é a representaçào do momento em que se fecha a janela. um ato. sem drama. apenas visào da explosào e do escuro que vem em seguida. belo e nítido! b

Narradora disse...

Tudo que era, num instante deixa de ser.
Mas é assim o tempo todo, né? Morte em nível celular: fim de um livro,de um filme bom, do dia, da faculdade, de um amor...
É verdade, o mundo não respeita a gente.
Beijo Letícia.

Zélia disse...

Rotineira é o mundo em movimento. Sei bem falar de morte. Bem mais eu sei é sentir a morte, infelizmente. Já se disse, também, que os bons morrem cedo. Verdade! Os bons morrem sempre cedo. Cedo do dia ou da noite. Cedo na estação ou no altar. Cedo na juventude, cedo na velhice. Cedo de quem fica, cedo de quem vai. Os bons morrem cedo e sabem da morte mais quem acena que aquele que recebe o adeus...

Du disse...

Leticia, lendo teu texto, é como se eu estivesse vendo a morte depois de ter morrido. Muito interessante esta sensação...
Você é demais, menina!


Beijão no coração!

Joseph Dalmo disse...

Lê lendo sua crônica em que você fala de forma lírica da morte (Rotineira) me inspirei para retratá-la em versos (posso?).
Você quando decide exuberar, não tem pra ninguém...
Beijão.

Último adeus

a gente morre de repente
quase displicente
flor ardente
volta para o chão
não assiste mais televisão
não se apronta mais
não escreve Hakais
a memória congela
o corpo revela
não se fala mal
na hora do funeral

ausência dobrada
lar partido
página virada
falta sentido
uma vida inteira
e num instante, poeira
e num minuto, adeus...
e tudo continua
o mundo não liga, é ateu.

Por Joseph Dalmo (jun,2009)