28 junho 2009

26 de junho




"Ela põe uma música antiga. A sala se completa. Danger Bird. Neil Young incorpora-se às paredes, ao teto. O ritmo dá vigor às coisas. Estremeço. Não sei porquê. Não entendo ainda muitas coisas. Coisas. Coisas. Coisas. Cada vez que não sabemos designar algo precisamente, dizemos: coisa."

(Eulália Isabel Coelho in, Arremedo)



Querida Eulália,


Gosto de seu nome. Soa como nome de gente sabida. Essa gente que tem resposta pra tudo, sabe? Essa gente boa demais que não chega a caber nesse mundo. Você é assim e olha que mal conheço você. Trocamos palavras e eu, audaciosamente, lhe pedi que lesse uns textos que escrevi. Eu escrevo de forma maluca e, até hoje, não sei como você conseguiu ler tudo e ainda me deu de presente aquelas palavras tão certas que nem eu mesma sei usar. Morro de vergonha. Mas é a vida. Não sabemos de nós e por isso precisamos do outro.

Acabo de ler seus contos e, a cada parágrafo, fui pensando nessa força que faz a gente escrever. O que será? Será mesmo que estamos procurando desvendar mistérios ou segredar ainda mais essa vida? Eu não sei as respostas. E acho difícil que alguém encontre. Escrever é o moldar da argila, como li em seu conto Arremedo. E essa energia que os personagens nos trazem? De onde vem, Eulália? Estaremos nós tão unidas a esses seres que sabem mais que a gente possa imaginar? E por que criamos tanta sabedoria e não conseguimos pisar firme nessa vida? É tanto erro.

Eu queria mesmo encher você com uma bela crítica, dessas que a gente lê na Cult. Mas não. Consigo não, Eulália. Admito. Ando de cá pra lá cheia de livros e entendo narrativas, mas não enforco texto de ninguém. Eu recebo de braços abertos. Foi assim com a sua personagem Alba. Eu sou a Alba. Você sequer me conhecia e escreveu um conto falando de mim. Veja só como a literatura é divina. E divina de Deus mesmo. Ela sabe de nós, guia nossas mãos. Não, eu não sou espírita e também não acho que escrever seja psicografia. Eu acho que escrever é viver mais que duas, três, milhões de vezes. Em seu conto, vivi mais que pude. E engoli as palavras e me maravilhei. Porque muita gente tem talento, mas poucos sabem moldar a vida dentro de um texto que olha pra gente. É como diz aquele poema que me foge à memória. Seu conto me fez ver que tudo quanto é coisa ainda está por ser feita. E admito. Você é uma contista e das grandes. Tenho inveja não. Fico é feliz. Porque é fonte de pensamento e como é bom deslizar os olhos pelas palavras e encontrar Eulália fazendo vida.

E segui lendo O Imprevisto, outro conto seu, e uma tempestade de coisas me veio à cabeça. Tanta gente nesse mundo que eu queria ver no céu com diamantes. Não que eu seja psicopata ou tenha meu coração repleto de ódio e repulsa. Mas é que se torna cada vez mais impossível engolir algumas coisas. E como você disse: "Cada vez que não sabemos designar algo precisamente, dizemos: coisa". Então tudo é coisa. Mas você não é coisa e seus contos também não são coisas. Porque leitura, em minha opinião de leitora, é algo que nos envolve. Feito um lençol mesmo. Ou uma máscara. A gente, ao ler, precisa aprender a vestir o que é lido. Enxergar, reconhecer e aceitar. Não que eu aceite tudo que leia, mas é que tudo que é arte e recriação, é difícil de se ir contra. Não consigo dizer da maldade no que li. Só consigo dizer que, conhecer uma escritora, assim meio que em segredo, é como estar numa biblioteca gigante, no maior silêncio e descobrir um livro nunca lido. Sei que meio mundo já leu você. Mas essa é a minha terceira leitura de sua obra e estou feliz. Tenho problemas que são coisas, pessoas que são coisas e a vida que me impede, por muitas vezes, de dar atenção ao que é perfeito. Mas eu tive essa oportunidade e respondo como se fazia antigamente. Através de uma carta que vai por e-mail agradecendo por tudo e dizendo: Estou com você e admiro cada palavra que se liberta de seus personagens.


Com carinho,


Letícia Palmeira


Eu escrevo cartas. E essa foi escrita para minha amiga e escritora Biba. Talento único e voz de mulher.

Photo on deviantart

8 comentários:

Du disse...

Talento único e voz de mulher completamente inteira, pra mim é você, Letícia.
Nossa... Sinceramente nem sei... Acho que fiquei emocionada e lembrei de Clarice Lispector. Para mim, um dia você ainda será alma imortal como ela.

Beijão. E você é luz, sim.

Mai disse...

E falaste de tantas coisas...
Coisa que é mais que uma coisa em tuas palavras. E também sei não, Letícia.
Sei nada não. Só sei ei é que quando te leio, mergulho fundo, me cubro, me visto, me emociono e choro embaixo do lençol de tuas palavras e fico e me acomodo e me encolho.
Esta não é a primeira carta tua que leio, e são lindas tuas cartas.
E vê se para com esse troço de biografia autorizada.
Vive, vai e continua 'endoidando' a gente.
É um privilégio ter, ler e sentir você por perto.

Beijos, Let.

Leo Mandoki, Jr. disse...

depois de martin Heidegger é preciso ter mta responsabilidade para usar a palavra COISA. Porque encontrar a coisidade da coisa é um dos trabalhos mais árduos (impossíveis) que possa existir.

Mário e Cris disse...

Sim eu ainda escrevo cartas!!!
E acho que não tenho melhor meio de me expressar por inteiro como em uma carta...Nelas colocamos a a alma,assim como você fez,nessa bela carta.
Um lindo dia para você,felicidades e uma boa semana,
Cris

Glaucia disse...

Que bela carta!
Assim eu me sinto quando venho ler você!

Você encanta, sempre!

Beijos.

glória disse...

Qual a matéria-prima dos personagens que emergem e buscam passagens através de nossas palavras? Estranha a vida que se processa num domínio invisível e, pradoxalmente, tão nítido, tão povoador de nossas existências. Eu tenho uma sensação de vizinhança com teus escritos, assim como tu nomadizas nas palavras de Biba e eu também. Bom passar por aqui. bj

Zélia disse...

As cartas não morrerão jamais! Há toda poesia em uma carta e eu sigo dizendo que eu também gosto muito do nome Eulália. É nome que poeta usa, portanto, a própria poesia. Ao terminar de ler a citação em destaque, me veio o sentimento de que eu conhecia em (intimidade) a pessoa em questão. Levei alguns segundos para de fato reconhecê-la. No entanto, a aproximação que eu senti não veio por eu saber de quem se trata Eulália Isabel Coelho e sim por eu me identificar com suas palavras. É isso que também faz a poesia contida na escrita: deixa o mundo menor.

Parabéns a quem escreve cartas!

Germano Xavier disse...

Este li umas duas vezes e achei romântico. Qualquer dia desses compro um buquê de rosas vermelhas pra você. Gostas da bruxuleante luz dum círio?