15 junho 2009

desatino




"Amor?
Na saúde e na peste
Vestido ou sem vestes
E que a morte nos separe."


A criança chora e suja a roupa da mãe que agora machuca a criança que chora e pensa no marido em casa, bêbado, sem dinheiro, vadio, saco de lixo vazio. E mais chora a criança e a mãe ira à voz do tempo e há trabalho. A patroa acaba de entrar. Almoço pronto, mesa posta e a patroa é bonita. Mãos limpas e eu sou ordinária e feia. Pés escuros e há esmalte antigo em minhas unhas. O vermelho do sangue que escorre de minha serventia e sinto agonia porque a criança é faminta e me arranca leite e sou traída, mastigada, fenômeno apático da sociedade. E nada sei. Respiro em meu frio e úmido quarto e já não tenho mais a força de antes. Paralítica a mente e a minha voz. Respira a cidade e a mulher se sente nojenta, horrorosa, comprando roupa barata e ganha o dia vestindo camisas coloridas e o marido não percebe e bebe aos goles a intimidade da mulher. E que dia será o dia das pessoas como ela? Que dia será a sorte de tantas belezas estragadas pelo tempo, pelas horas e pela fuligem dos trens? E a mãe espanca a criança que chora por raiva e ódio e não entende o homem na TV. E não foi à escola, não houve tempo, barriga cheia e bêbado vadio, trocando pernas pelas ruas imundas que abrigam a casa da mulher. E mais chora a criança e mais castiga a sua mãe e o pai castiga a mãe da criança e o mundo castiga os pés dos andarilhos que observam, e cegos, nada veem. A patroa de novo, outro dia, tempo oco, chuva molha roupa e ela vai ao trabalho e leva a criança e recebe o salário e há sindicato que a defende. E minha casa? Quem irá romper a embriaguez? Quem saberá que amo a criança? Quem saberá que ontem chorei também? E não há culpados ou inocentes. Espanca a mulher o marido a criança que chora e cresce apavorada por não ser ninguém.


Image by QuyZone

12 comentários:

Biba disse...

Letícia, como gosto desse ritmo que você empresta ao seu texto, dessa quase melodia que posso ouvir a cada choro, a cada desenovelar da dor. Lindo.

Meu beijo
Carpe Diem!!

james p. disse...

Muito punjente,de uma beleza feita de tristeza,numa escrita perfeita.
Parabéns.Um grande abraço.

Zélia disse...

Tudo ok, sim!

Mas havia uma criança sem a mãe. Havia uma mãe sem criança. Havia choro. Chorava a criança e as mãos que a embalavam...

Vc volta e mostra que domina o que escreve, como escreve e quando escreve.

O desatino é da vida que faz da gente o que quer enquanto a literatura é o sapato velho para o pé cansado que é a gente...

Mai disse...

A morte desatina e faz doer...
E o amor é uma das formas de se encarar a morte de frente.
A embriagues é quase pouco em meio a tudo.Um gole,dois, tres seca o pranto, rebaixa a dor, anestesia o homem...E há coração que seca, cala, esvazia... com ou sem criança, com ou sem bebida...
Recebeste minha resposta?
stand by me, ok?
E eu também estou lenta e perdi meu CD do Raul Seixas, aquele do óculos escuros e meu colírio tb. acabou.
Beijo, Let.
Fica bem.

Leo Mandoki, Jr. disse...

este é o seu ritmo narrativo mais original que eu conheço. Foi assim que eu te conheci pela primeira vez. Na sua capacidade de construir frases absolutamente suas.
...
o texto me lembrou a minha infância, onde havia algum álcool, alguma violência em casa e eu me sentia parte integrante de nada. Obrigado por vc escrever assim. Sua escrita é um bisturi no meu coração.
um beijo grande

Ruberto Palazo disse...

Uauuu... fazia tempo que nao perdia o folego em um texto....

=)

beijos

Glaucia disse...

Oi Letícia.

É a terceira vez que venho ler seu texto.
Sabe quando qualquer palavra lhe parece inútil?!
A sua escrita já diz tudo...
Eu só tenho que sentir.

Parabéns! Você sempre faz refletir...comovente!

Beijos.

Lucas Vallim disse...

Lindo.

Ka disse...

Muito bonito o seu texto!

Parabéns ^^

Bjos

Germano Xavier disse...

Ciclo.
Texto-palíndromo.
Espiral em quadrado.
A vida ávida presa por um fio único.
Talvez Avalovara.

Monday disse...

Um pouco de tua leitura no final da noite, antes de dormir. Se o tema não é bonito, o texto é, aliás, difícil de não ser ... mãos de escritora, mente de escritora, mulher de pensamento livre e linhas bem traçadas ...

triste realidade, mas o texto é bonito mesmo vestido assim, de um retrato pobre e bêbado ... faz parte da magia que seu teclado de condão é capaz de pronunciar ...

boa semana, moça

Paulo disse...

Que texto!!!
Nos tira o fôlego e nos coloca na sala, na cozinha, no bar, no ônibus e em todos os lugares em que as coisas acontecem