30 junho 2009

enquanto adormece o sonhador



E dorme o dia, cansado e entrecortado por fios de alta tensão. Com ele, no quarto ao lado, esquizofrênica pensa a humanidade. Esbelta figura rural metropolitana. Lança chamas de vontades e ardente em tantas vivas memórias que reclamam seus vícios. Oram suas meninas e ela não consegue dormir. Humanidade metafísica descontente acontece suja nas mãos do cobrador de ônibus, na boca banguela do homem de rua, nas rachaduras do tempo, dos minutos, nos exilados, esquecidos e poéticos dias de ontem. Abre os olhos, sem sono, soberba, observa os ares e exaspera em incerteza e ferve nas curvas das cidades, nas esquinas, no véu da noiva, no enfadonho escritor que perde palavras e no filme sem graça, sem audiência, sem bilheteria e quer sonhar a humanidade. Dentro da voz do povo, no olhar de quem suporta a arma e no medo de quem morrerá. Nos meninos doentes, em desequilibradas filas de gente e nas mãos do carteiro ela fala. A humanidade fala e não dorme. Assombra e, ainda viva, não abandona o homem que a declara identidade. A crua humanidade que fere a gente permanece de olhos abertos. Não dorme que há consciência pesada. Ama que há inflamação de vontades. Aniquila como a mãe que protege em exagero e evoca o demônio de dentro do múltiplo humano e fala forçando a máquina corpo que necessita existência. A humanidade não dorme. Quem dorme é o homem. E acontece o tempo enquanto as roupas se acariciam sedentas em nossos varais.


Image by HeatherHorton

9 comentários:

Glaucia disse...

Excelente texto e tema, Letícia!

Isso me faz divagar horas e exatamente da forma que você conclui o texto: observando 'roupas nos varais'.

Humanidade, humanos, tempo...
tudo acontece ao mesmo tempo que
o vento balanças roupas no varal...

Lindo, lindo.

Beijos!

Beto Canales disse...

hummmmmm!

São João? Deve ser muito legal aí...

Mai disse...

Porque as doenças inflamatórias não acometem as pedras e sim os homens.E a pandendemia é culpa histórica, doença que inflama as mentes e embota o coração dos homens.Assim, o amor pode ser veneno e vacina...
Insônia de acordados sonhos... calores e frios, rurais ou urbanos e assim caminha a Humanidade q ama, deseja, cresce, intumesce e arde, como ardem os incêndios...
E o medo Let, é humano, também.
Beijos,

Leo Mandoki, Jr. disse...

ai meu DEus do céu..PQP! Letícia. Vc sabe e eu tbm sei. Sabemos: que a função da Literatura é escavar novos mundos perceptivos..."a carícia sedenta das roupas nos varais"...nunca na minha vida teria a capacidade de pensar nisso. NUNCA! é por isso que eu te adoro. Vc me conduz para novas percepções. Te adoro (apesar de seres linda. Eu serei o teu Hannibal Lecter

Elcio Tuiribepi disse...

Óia isso..rsrs..o Léo pensou parecido comigo, esta parte que ele destacou foi a minha predileta, depois claro da parte que fala do humano, "da boca banguela do homem de rua", lembrei do seu comentário lá, pois acredito que nascer humano até que é fácil, difícil é manter-se humano no sentido mais puro da palavra no decorrer da vida, no cotidiano, por isso lembrei também do meu próximo post, que é sobre o Eduardo, um andarilho banguela...show de bola Letícia...Um abraço na alma...

glória disse...

Letícia, nem sei por onde começar. Sigo os traços deixados por essa gaguez de olhar vago e incerto das dobras do que chamam humanidade. Somos andarilhos que seguem rastros e atos insones de uma "humanidade (que) fala e não dorme". Quem dorme é o homem, eu ouço o ronco pesado dos corpos que parecem blindados e ausentes aos rugidos e solavancos de um mundo que profere dialetos de difícil tradução. Eu co-habito teus escritos por sentir-me convacada na minha dobra "acordada" e faminta de humanidades. É impactante o que leio aqui, sempre. Merece o PQP sim do Léo, é lírico, é lúcido, é intenso. Não demando justificações por supostas ausências de comentários teus ao meu blog. Não importa, não importa. bjs moça que tem sede.

Germano Xavier disse...

poema?, você diz
Pavese, Leminski, Ponge
vai ver você bebeu com todos
no café dos moribundos
e aprendeu a versar em linha
reta, direta, secreta

onde o verso que vi no fim?

Zélia Escritora de Certo Prefácio 8) disse...

"E acontece o tempo..."
(Letícia Artesã Palmeira)

Gostei muiiiiiiiiiito disso! Remete àquela história sobre o tempo no quadro de Dali. Mas vc soube como retratar em palavras o quadro do famoso pintor.

Quem tem olhos para ver, vê que o tempo acontece. Não fica parado esperando a vida passar...

E continue trabalhando dona Formiga. O inverno já está aí!!! ;)

Éverton Vidal disse...

Interessante que ontem eu li por acaso um poema de um poeta baiano, Antônio Brasileiro o homem. Eu salvei olha só:

"A vida é a contemplação daquela nuvem.
E o mundo
uma forma de passar, que inventamos
para não ver que o mundo não é o mundo,
mas uma nuvem
passando.

E uma nuvem passando
ensina-nos mais coisas que cem pássaros
mil livros um milhão de homens..."

Legal né. Pois entao, as coisas vao se ligando e se encaixando, eu acabei encontrando no seu texto uma coisa filosófica que de algum modo passa pela mesma fresta do poema dele.

E gostei de "ama que ha inflamaçao de vontades", entre outras coisas.

Grande abraço.
Inté!