17 junho 2009

santo de barro



"Vejo a multidão fechando todos os meus caminhos,

Mas a realidade é que sou eu o incômodo no caminho da multidão."

(Chico Buarque)



Procurar emprego é o que tenho feito nos últimos cinco meses. Todo dia vasculho cada parte dessa cidade e, emprego que é bom, nada. Vai ver não passo de um azarado cuja sorte fez questão de me abandonar desde que nasci. Lá em casa, todo mundo tem emprego. Até a Vânia, a lavadeira de roupa. No nordeste é comum, mesmo que se tenha máquina de lavar, contratar uma pessoa que saiba lavar roupas de linho, redes, toalhas bordadas e tudo quanto for de tecido que a máquina possa estragar. A vizinhança é cheia dessas mulheres que andam equilibrando quilos de roupa na cabeça. Elas fazem uma trouxa — é assim que chamam a montanha de roupa que carregam na cabeça — e saem fazendo equilíbrio rua abaixo, rua acima. Elas sofrem. Digo isso porque, todo dia, enquanto tomava meu café e rabiscava o jornal inteiro em busca de um serviço, como dizia a minha mãe, eu ouvia a Vânia reclamar da vida, do marido, das dores nas pernas por causa das varizes e ela também falava da vida de todo mundo. Era lavando roupa e falando e minha mãe ouvindo e dando conselho. Dizia pra Vânia ir ao médico, pra cuidar melhor dos filhos porque, segundo a minha mãe, pior que marido bêbado, é filho bandido. Essas são as palavras de Dona Suzana. Ela é respeitada pela vizinhança porque, além de ser barata de igreja, ainda resolve problema de todo mundo. Ela costumava ligar pra esses programas de rádio que estão sempre falando mal do governo. Ligava, falava dos buracos nas ruas, da gente necessitada que vive esquecida e também conseguia remédio pra quem quer que chegasse lá em casa reclamando da falta de dinheiro e qualquer tipo de doença. Minha mãe poderia ser presidente do Brasil. Por ela, tudo se resolve com trabalho, uma novena, um cházinho de Quebra-Pedra e um bom conselho. Fico imaginando se a Dona Suzana fosse a presidenta. Não só existiria auxílio escola, como também teria fornecimento de água e pão bento no país inteiro. E lá no senado, nada de discussão. Todo mundo cantaria aquelas músicas de igreja, louvaria Maria e o Sagrado Coração e todo político seria obrigado a saber rezar o terço. Seria essa a primeira lei de Dona Suzana. E procurar emprego é uma desgraça e, pra completar, minha mãe é louca. Meus dois irmãos fizeram bem. O Cristovão seguiu carreira militar e casou. Tem três filhos. Haja coragem. Ele mora lá pelas bandas do Mato Grosso do Sul e telefona pra casa uma vez por semana e, quando pode, passa o Natal com Dona Suzana. A aleluia maior é o dinheiro que ele manda todo mês. Uma quantia razoável e minha mãe fica feliz. Tenho certeza que ela vai mandar fazer um altar pra São Cristovão porque, Graças a ele, Deus iluminou a vida dela com um filho tão bom. Cristovão se acabava de rir quando dizia isso pra ele. Sou meio irônico. Sempre fui assim. Dos três filhos, saí à revelia pra fazer graça da cara de todo mundo da família. Os parentes todos ficavam com aqueles olhares tortos e risinhos sufocados e diziam, de forma carinhosa, "essa criatura não vale de nada". E eu continuava zombando. Dos três filhos de Dona Suzana, a Eugênia é a mais quieta. Não sei a quem saiu, porque meu pai, até morto, ainda dá risada. Era um homem muito bom. Cuidou da gente com tanto esforço que deixou a família bem. Temos uma casa, a granja perto de Campina Grande e dois carros na garagem. Eugênia sempre chorava quando alguém falava de nosso pai porque a minha irmãzinha é sensível e sempre fora a mais apegada a Seu Justino, nosso pai. Dona Suzana chorava também, mas, como protege Eugênia de qualquer sofrimento, ficava firme e forte em sua viuvez. Doze anos da morte de Seu Justino e Eugênia ainda sofre. Minha mãe dizia que a filha chorava por ter bom coração. Eu nunca vi bom coração que agüentasse tanta maconha. Minha irmã saía pra faculdade cedinho da manhã, dizia que passaria o dia estudando e só voltava pra casa tarde da noite e mais encerada que eu em meus velhos tempos. Eugênia sabe o que é bom. Vive bonitinho, engana a Dona Suzana, e ainda dirige o melhor carro da casa. É... Procurar emprego é foda e minha irmã é uma sacana. É óbvio que não tive a sorte de cair nas graças de Dona Suzana. Criei muita confusão pela vida. Aos 14 anos eu não rezava, não estudava e comia tudo quanto era menina. Viviane era linda demais e, naquela época, fumar baseado era o nosso modo de acreditar em um mundo melhor. Dona Suzana dizia que eu só tinha amigo vagabundo e eu concordava. Estudar pra quê? Era fumo, música a Viviane se descuidou e acabou que eu tenho um filho com ela. E outro com Joana. Um menino e uma menina. Eu não os vejo. Dona Suzana me obrigava a visitar meus filhos e eu nunca visitei. Sei que estão bem. Viviane casou e tomou rumo. Conseguiu até estudar. Leonardo, nosso filho, já é um cara grande e eu teria vergonha de olhar na cara dele acaso o encontrasse. Eu nunca disse que queria ser pai. Não tenho coragem, nem jeito pra coisa. A menina se chama Júlia e soube que é tão linda quanto a mãe. Joana foi o amor da minha vida, mas deu bobeira e se acabou num acidente de carro. Na época não pude fazer muito por nossa filha. Aliás, só assinei uns papéis que a Dona Suzana deixou em meu quarto dizendo que era pra eu assinar. Assinei e Júlia mora com a avó, Dona Esmeralda. A velha nunca me deixou ver a menina. Era minha mãe quem me dava notícias dela sempre que visitava a Júlia, levava dinheiro e também, um pouco de carinho e assistência, já que não pude fazer isso. Vi umas fotos da Júlia. Minha filha é linda mesmo. Vai crescer bem e peço por ela e pelo Leonardo. Sei que nada significo pra eles, mas se tem uma coisa que a gente não escolhe, é família. E tentei tomar jeito. Procurei emprego. Saí de porta em porta e falei com tanta gente. Dona Suzana não se esforçou muito não. E eu entendo. Ela perdeu a fé em mim desde aquele dia. Eu bebi demais e era jovem e achava que o mundo era meu. Empurrei o pé no acelerador e já era. Seu Justino saiu voando pelo pára-brisa. Dizem que a morte foi instantânea. E ele estava tão feliz naquele dia. Tinha acabado de comprar a granja, fez um baita churrasco pra família toda e todo mundo tinha orgulho do meu pai. Eu também. Se existe uma pessoa da qual me orgulhe, essa pessoa é meu pai. Homem bom, sorriso grande e era bom comigo. Acreditava em mim. Dizia coisas, me aconselhava e nem encheu muito quando soube que eu iria ser pai. Lembro que ele me olhou austero e chamou pra conversar. Dona Suzana sempre dizia que meu pai acabava comigo de tanto que me apoiava. Minha mãe sempre achou que eu tinha nascido errado e parece que coisa que mãe diz, é sempre sagrada. E meu pai morreu e eu não pude ir ao velório, funeral e nada. Passei dois dias em coma e cinco meses no hospital. Perfurei tudo quanto foi órgão. Ninguém nunca me perdoou de verdade. Sempre me olhavam torto e me evitavam. Disseram que Deus havia me dado uma segunda chance. Não sei disso. Mas estou vivo e tenho o mundo pra ver. Não posso ficar preso ao passado, me lastimando. Preciso trabalhar e, quem sabe um dia, criar coragem e voltar pra casa e olhar bem na cara da Dona Suzana e dizer que a amo e que a culpa também é dela e que ela me esqueceu. Chorando agora, o homem traga de novo a fumaça da pedra, olha pro amigo e dá um sorriso fora de tempo e levanta. O chão, a calçada e a noite de São Paulo é tudo minha casa agora. Eu não fugi. Eu desisti de tentar caber em roupa que não foi feita pra mim. E seguiu largo e solto pela Paulista. Pé no mato, pé no caminho.


Image by servack

13 comentários:

Leo Mandoki, Jr. disse...

a verdadeira epopeia nordestina né! ainda me lembro da palavra «retirante» ainda se usa esse termo?....
acho que ele fez mto bem..foi pra são paulo, rompeu (não completamente) com as suas origens e sobretudo com o seu amor...sair é romper..é partir sem olhar para tras...é assim que faço sempre
um grande beijo

Thomaz Ribeiro disse...

Gostei do conto. É um conto, não? No entanto, pelo menos é o que penso, há algo na forma como é construída a história que não faz o texto fluir tanto quanto poderia. Não sei, pode ter sido uma impressão errada causada por uma leitura atrasada. No mais, o texto é feito com competência.

glória disse...

esses traços de vida falam da saga dos que tentam caber em mundos outros, dos que tentam romper cancelas e fundar novos territórios de si. você pontilha muito bem o boradado entre os papéis as linhas.bj

Lucas Vallim disse...

Cada vez você me surpreende mais, menina! Esse está ótimo, muito bom MESMO!

obs: Evite usar expressões como "foda", e "ja era", em personagens assim. Tira a seriedade do conto, mas mesmo assim está fantástico!

Fernanda disse...

Cada vez gosto mais da forma como você escreve... Este blog inspirador!

Lorena disse...

Lindo, sim, sim. =)

E por mim você pode continuar usando foda, seus personagens podem dizer e fazer o que eles quiserem, eles continuam cada vez mais reais pra mim.

Luv u.

Du disse...

rsrsrsrs Letícia, fui lendo e lembrando da minha ex-cunhada paula. Ela conversando é igualzinho ao texto! Falava de tudo e de todos com detalhes e me deixava tontinha! rsrsrsr

Adorei, de verdade!

Beijos no seu coração!

Glaucia disse...

Não tiraria e nem colocaria palavra alguma em seu conto!

Está perfeito, como sempre!

Seus personagens são únicos e indecifráveis. Amo sua escrita, Letícia!

beijos.

Zélia disse...

Engraçado esse espaço aqui. Ainda há pouco, estive pensando no tipo de texto chamado "comentário". Se vê e se sente tanta coisa nesses comentários dos blogs por onde andamos. Até pensei com os meus botões: "atenção com o que vc escreve por lá"... Afinal, tantas idéias são colocadas nos comentários. Esse pensamento me fez refletir sobre o tipo de comentário para cada blog, para cada texto. Muitas vezes, se perde o rumo. É como se reparassemos na capa do livro em lugar da história que ele traz.

Bom, isso não é um comentário sobre os comentários deste texto ou deste blog. Apenas um comentário sobre aquilo que o texto me trouxe.

Continuando, o pesonagem central de "Santo de Barro", parece um retrato de "a dead man walking". Apesar da busca do emprego, algo que sugere luta pela vida, ele é estacionado. Se prende a fatos, pessoas, acontecimentos. Trazendo para a nossa realidade dos dias de hoje, ele precisa é de tratamento para seu trauma. "O tempo urge", repetia um antigo professor. Desistir de tentar caber em roupa feita para nós, não resolve problema. Não caibo nesta roupa. Coserei minha própria roupa, então.

Quanto a estrutura do texto, rico em detalhes, personagens comuns e, portanto, cheios de vida. Difícil sugerir ou apontar mudanças. Todo texto tem um propósito. Ele cabe nas mãos do seu escritor. Mas, talvez, uma exploração maior sobre o personagem central, do seu drama e das consequencias que o fizeram ser o que é, agora, dariam um enriquecimento maior ao texto, ao próprio personagem e ao trabalho de seu escritor. O que já não diminue o valor que o texto ganhou ao fazer-se história.

É isso! E estive aqui antes. Mas tive que sair...

PS: O detalhe final é, simplesmente, dispensável para este espaço... :D

Elcio Tuiribepi disse...

Oi Letícia, eita que a cada dia que passo aqui a surpresa vai ficando maior. Suas palavras fazem nascer o cotidiano de parto natural, ela fluem e vão tomando conta da gente. Trouxa de roupa suja...rsrs...lembro da minha infância e da Erotildes..rsrs...é Erotildes era o nome ou é ainda o nome dela, não morreu...e lavava roupa para fora como diziam...
Voltei no tempo, nas rádios e lembrei de uma amiga de minah mãe que era super reclamona e corria atrás do prejuízo de verdade, enfentava a todos e a tudo em busca por melhores soluções para a vida e as injustiças nela contida...Parabéns Letícia, quando puder, passe lá no Verseiro, tem um conto lá, aceito conselhos e dicas viu!! rsrs...
Um abraço na alma de quem admira sua forma de escrever...valeuuu...bom fim de semana...

Monday disse...

Oi, Le, tava com saudades de te ler. Sabes que eu adoro fazer isso (te ler, não o ter saudades ... rsss), mas nem sempre as noites permitem, os olhos normalmente chegam cansados e gosto de ter esse prazer que são textos seus somente se puder saboreá-los por inteiro.

Ri bastante com esse, gostei do personagem e da história em si.

Gostei do final. Tem cara de bem acertado. Melhor que passar a vida em lamúrios. Ir em frente, mesmo errando o caminho. Sempre ir em frente.

Bjks, moça

Compondo o olhar ... disse...

tem selinho p vc no meu blog, dá uma olhadinha e passe para pegá-lo.

bjocas

Germano Xavier disse...

Sim.