12 junho 2009

a semântica dos pinguins



"I could never take a chance
Of losing love to find romance
In the mysterious distance
Between a man and a woman."

(Paul David Hewson)



Tão bom ver a lua e saber que você estava por perto. Alguns passos e daria de cara. Bom saber que tem sempre um caminho. E que seja de pedras ou que raios caiam ou que se perca a palavra. Bom mesmo é esgotar o minuto. Encher o que não é completo e esvaziar o pensamento. Na verdade, do âmbar ao misticismo que nos encobre, vivo bem. Aguento meia hora de solidão e, um passo apenas, entro em um paraíso qualquer. Cabe a mim realizar seus sonhos? Dorme de bruços? Eu durmo encolhida e não há sonoridade porque me aperto e deixo metade do espaço pra você. Depois de meia dose e meio medo, sou eu mesma. Pode rir. Falo sério. Tão sério que fico até vermelha. Eu corada andando ao seu redor. Romântica estátua grega ou um violão daqueles bem grandes. Tenho mais tarraxas que o violão do João Gilberto. Mas se preocupa não. Sou Bossa Nova apenas quando sinto que meu astral anda meio Leila Diniz em depressão. Quando quero ser o que penso que você deseja, desço as escadas correndo e recebo você no portão. Maluca, desajeitada e você ouve a Erin quebrando jarros dentro de casa. Meu humor de temporada. Um dia sua, outro pé na estrada. E minha estrada é você. Estrada que conheço. Esqueço detalhes que me repelem quando estou meio racional. Posso ser racional. Novidade. Sou racional. Romântica racional. Debruçada, observo o objeto que se movimenta pelo quarto. Você é o retrato natural que tento congelar. Permanece em mim a sua imagem indo embora e querendo ficar. E o tempo frio me deixa Marlene Dietrich. E você sabe. Me conhece. Sou palco e contratempo e me perco em sua nuvem de parâmetros violentos. Na verdade, verdade existe? Eu sempre fui aquela pintura que se escondia no fim da tarde. As nuvens sempre escondem algo. Quando não o sol, escondem estrelas, o romantismo dos átomos e o seu rosto. Não quero lembrar. Prefiro ser escondida como faróis antigos em terras antigas e sofrer muito mesmo como uma menina romântica porque o filme não teve final feliz. Compro jornais e corro na chuva. Sou mesmo a agulha que lê seus discos. E ontem desenhei uma florista atravessando a rua. Sempre busco aumentar minhas palavras porque um livro não esquece. Livro é um conto que se esticou. E você é um livro eterno. E esse é o meu momento subjetivo. Amanhã acordo despertador, liquidificador ou pinguim de geladeira. O poema que beija as mãos que contornam a letra.


Photo on deviantart

13 comentários:

Beto Canales disse...

Hummmm!

Glaucia disse...

Que delícia de texto, Letícia!

Muito gostoso de ler...
Amei...pra mim teve um sentido bem particular :)

A imagem me encantou também!

Beijos!

Mai disse...

Bipolar, esquizo com múltiplas personalidades. Atriz e cantora. Carnavalesca, puxadora de samba e porta bandeira original da escola de samba 'malucos beleza'... Uma escritora assim, não precisa de personagens...
Nem preciso dizer nada vou passar a emitir os 'grunidos' do Beto huuuum...
e me lasco de rir com ele também porque o beto é um percussionista da palavra em onomatopéias...
Ou seja o Afeto Literário é completo e repleto de Arte e Artistas.

Como estás, maluquinha?
Eu estive off mesmo - unha encravada e piolho no juízo...

Agora cá prá nós Leila Pinheiro é uma gangrena cerebral, né, não?
Você ouve e houve uma vez você, porque o sujeito rasga a boca e o ouvido o ouvido pinga de chorar...
Beijos, Let.
Fica bem.

Anônimo disse...

Bárbaro! Parabéns!

Mai disse...

...acordar luquidificada ou liquidificando depois da semântica romântica dos pinguins que ve átomos. Eu fico. Eu me liquidifico assim, feito quem bebe shampoo e solta bolha de sabão. É mto lindo o que escreves, Let. É muito.

Cara tu endoidas qualquer um o tanto que escreves. Putz!
Beijos, sabes o quanto te gosto, não, maluquinha?
Existe assédio literário, Let?
Eu desconfio que é isso que tu fazes com teus leitores. Uma cobra 'naja' são teus textos e tu és o encantador que encantas os textos, a Naja e os leitores...
(eita! eu estou assim, alopradinha de tudo...)

Narradora disse...

Tão pouco tempo pra ficar o tanto que eu queria...
Mas a escritora disse que "bom mesmo é esgotar o minuto" e é mesmo.
Beijo querida.

Leo Mandoki, Jr. disse...

como é bom ler vc, meu Deus do céu! às vzs eu queria ser matério organica passeando devagar pela tua corrente sanguínea só para saber do que é que vc é feita qnd escreve. Vc não é humana ou é?!)...sabe a mulher que foi retratada nesse seu texto é a mulher que sempre foi o meu ideal..a que se entrega (ainda que em momentos) ao amor, a paixão, ao sexo, ao descabido da vida...a mulher que pega na mão do seu amante e juntos controem um mundo novo. Gosto realmente muito de vc Leticia.

Elcio Tuiribepi disse...

Oi Letícia, aqui não só aprendo como fico me perguntando como fazer para escrever assim, hoje não resisti e contei quantos pontos você usou nesta narrativa, se não errei foram quarenta e dois pontos..........................................rsrs...
Quanto ao poema lá, pois é, o mais legal é que este casal que me inspirou discutem de forma muito engraçada, como se um fosse criança e o outro adulto, discutem como se operdão já estivesse intrínseco na discussão, aí ao mesmo tempo saem de braços ou mãos dadas um ajudando o outro, numa sincronia de ternura, de um eterno compreender e perdoar...que beira a inocência, acho que o estado idoso é realmente um voltar a ser criança, ainda bem, me quero assim quando chegar aos 80, se eu chegar é claro...rsrs
Valeu a presença, apesar da minha ausência...ultima semana de provas, não muitas...afinal, com quantos pontos se faz uma narrativa como essa? rsrs...Um abraço na alma...

Lorena disse...

Você é linda, Lê. Mais ainda quando está romântica e feminina e desse jeito seu que é tão particular. Eu li o texto três vezes, li mesmo, duas ontem e uma hoje, até conseguir achar o que eu queria dizer. Que era isso mesmo. Que sua beleza também se estende nas coisas que você escreve. E eu adoro. ^^

beijos, fantasminha. Feliz, muito feliz por você. =)

Lucas Vallim disse...

Nem sei mais o que comentar, e isso é bom eu acho. Gosto muito do teu jeito de escrever, mesmo com o jeito feminino. Não gosto muito de autoras, mulheres que escrevem, jutamente por ser muito mulher. Mas o seu não. O seu é bom, eu gosto. Gosto muito. Enfim... sei lá. Continue assim e eu vou continuar vindo.

Germano Xavier disse...

Sim.

Conheço o texto.
"3" textos no mês.
Escreva mais, Branca.
Precisamos...

João Neto disse...

Dear Crazy Diamond,

Este é um daqueles seus textos que explicam de maneira inequívoca o porquê da minha paixão por boa literatura. Esgotemos os minutos, nenhum deles há de ser desperdiçado com medos sem sentido (e olha que quem está falando é o ex-mister-play-it-safe). A vida vai seguindo seu rumo e vamos nós buscando extrair dela aquilo que nos faz bem.

Amo seus escritos, são fruto da alma.

Take care.

Zélia disse...

Depois de tanta coisa passando por aqui, eu começo com um Q?!

Tanta vida num texto só. Mas o que será um texto só que não um apanhado de vida(s)?

Falo sério, durmo encolhida, quebro vasos, esgoto minutos, corro na chuva, sou agulha que lê discos, acordo tudo, conheçi a estrada de cara. Sou eu mesma e sou você.

E escreve o escritor que consegue ler pessoas...