25 julho 2009

cegas orações



Bom dia em outra embarcação e a palavra dormiu ao meu lado e atrevida que é a menina, penetrou minha boca e agora se declina suave em muitas orações. Loucas orações de existir e sentir, a palavra se move escorregadia, embora queira ser o que sou e se erradia e sai pelas avenidas de toda concepção. Preenche esse tempo vazio, loquaz, demorado absurdo de acontecimentos do mundo e a palavra quer tomar posse de tudo e o que me resta fazer? Falar. Falo palavra e devoro fonemas e que me venham as cegas ordens existenciais. Palavra é alimento de quem fala e ouve e você ouve atrás de mim que sou porta e me abro. Tenho respaldo e categoria. Próxima página, destrói minhas linhas e ameaça minhas margens porque existir é dar a cara e fazer penitência e elaborar palavra que entorta as vigas de muitas construções. Mas que dirão da correta gramática que se irrita com toda a deselegância de tal verborragia? Gramática é moldura e a língua, que beija feroz as criaturas, é o dia rompendo a morte. O fim que permite sentido ao começo e o enredo é a saliência de quem entende. Mas não entendo. Que forja a minha vista todo o conhecimento porque palavra não obedece regras. Mecânica não se deixa. Rimada rebelde corteja a insanidade de nossas vozes. Que não entenda. Palavra não é de todo mundo. É como amor que se assume doença sem cura e que enverga a nomenclatura de todo ser. Esta menina que pula janela e traz dúvida e emancipação não é dose fechada. É aberta, eclética e digo mais. Palavra foge de quem a escraviza. É livre em toda língua. É sexo em exagero e honestidade de quem paga em dinheiro. E também é mistério e filósofo algum a iludiu. Porque intacta ainda está em minha língua, embora escorregadia e atrevida, performática finge ser parte de mim.


Image by Joe Hendry

14 comentários:

Elcio Tuiribepi disse...

Oi Letícia...você brinca sério mesmo com as palavras, mas hoje to meio de mal com elas, talvez de mal comigo mesmo...rsrs..até para comentar, não acho o tempo, o verbo, e muito menos o sujeito, fiquei com o indefinido e a terceira pessoa entalados na oração
Perdão...arrebentou de novo...um abraço na alma

Mai disse...

E talvez não finja, é parte, faz parte. Há quem saiba fazer de tudo uma espécie de oração. Porque não profana e cuida da palavra, delicadamente. Atrevida a menina mas da palavra ela cuida. Beijar a palavra. Dulcíssima esta oração e beijo.

Nem falo mais nada...
Só bebo agora e oro contigo.
Sem profanar, digo amém!

Kenia Cris disse...

A Dica disse o que eu queria dizer. Você sempre surpreende. Wishing you an amazing weekend! When am I going to meet you online? Kiss your eyes.

Niltinho (de Freitas) disse...

Entre montes e vales, uma caminhada extasiante pelo texto magnífico. Parabéns, estou encantado com seu modo de escrever e virarei seguidor do blog.

Quando tiver um tempinho, visite o Blog do Niltinho

Abraço.

Monday disse...

Em atenção ao seu comentário por lá, digo que tens razão, menina, não são dedicatórias, são retratos da vida como eu os vi acontecerem ... rsss

Éverton Vidal disse...

Letícia,

Em muitos de seus textos fico com vontade de comentar frase por frase. Sei que parece exagero, mas é verdade. Neste, por exemplo eu gostei do que você escreveu sobre a palavra, gostei da forma como você colocou a gramática como "moldura" em relaçao às palavras da oraçao que saem como explosao, como o "dia rompendo a morte".

Isso é tao certeiro que assusta. A gente concorda com o pelo arrepiado.

"menina que pula janela"
"é mistério e filósofo algum a iludiu"

E o Leandro é um grande artista sim. E por isso mesmo um bom teólogo. Tenho que conhecer pessoalmente esse cara rs.

Bj!

Patrícia Lara disse...

Olá Letícia!

Encontrei seu blog por acaso, e adorei tudo por aqui!

Que texto fantástico! Parabéns pela inspiração.

Com certeza, voltarei mais vezes.

Um grande abraço,
Patrícia Lara.

Thomaz Ribeiro disse...

Interessante o efeito desta sua pequena obra, misto de poesia, crônica e desabafo existencial. As palavras são impossíveis, covardes, já que só atacam em bandos, mas, como diria Drummond: "Palavras, palavras, grito exasperado, se me desafias, aceito o combate".

Zélia disse...

"...e a palavra quer tomar posse de tudo e o que me resta fazer? Falar. Falo palavra e devoro fonemas..."
Letícia

Dito o que eu não disse há pouco. Falo porque sou livre para decidir.

;)

Printemps disse...

i love this mirror image!

Rodrigo M. Freire disse...

sei porque me tornei seguidor.
o tempo e tantos outros me tomaram textos como este.

glória disse...

passar por aqui, sempre, me refaz.

Du disse...

É, moça... "palavra não é de todo mundo"... são só suas e perfeitas, de mais ninguém.
Lindo mesmo, poesia em prosa.

Germano Xavier disse...

E que oração não é cega, feita longe do desamparo, munida de confiança e razão? Que tipo de oração não é um sacrifício da alma, uma oblação para o terror de nós mesmos? Que oração não é um pouco de medo dos noturnos?