27 julho 2009

galeria de eventos



Casas onde habitamos, deixamos nossa pele, nosso corpo, nossos olhos ansiosos em cada cômodo. Nos quadros opacos e na louça antiga e na louça recém-usada ainda suja de nossas mãos reside nosso registro. E são tantos os dias. Lembra o dia primeiro em que chegamos? A cozinha era de um aspecto tão sozinho e havia uma pequena lagarta dentro da pia. Como se nunca fora usada e água nunca a tivesse banhado e não sabíamos o motivo, mas a casa era de um desamparo, embora linda e brilhante em seus vitrais. Caminhamos mais. Três salas imensas de janelas grandes e abrimos as janelas e o vento nos acariciou. Terá sido Deus caminhando ou apenas um pouco de vida dentro de nossa casa esquecida por outros que a deixaram para trás? Lustres em lágrimas e a luz amarelada nos acalmou. O piso florido em cerâmica antiga e nos alegramos quando imaginamos a disposição de nossa mobília que ainda não existia, porém já era plano e sonho de nosso contento. Nossos passos pisando no chão e cada instante seria liberdade, embora a casa fosse grade, seria livre o nosso estar. Caminhamos mais ao corredor e quartos se abriam. Não enormes, mas amáveis. Paredes brancas e piso amadeirado. Havia cupim e havia vida, pensamos. Quem quer que houvesse deixado nossa casa aos temporais, não a deixou só por completo. Cupins, borboletas e outros insetos a habitavam e se fazia vida em cada espaço, do piso empoeirado ao teto inalcançável que nos envolveria em nossa diária busca de encontrar mais tempo dentro do pouco tempo que se esvai. E mais espaços. Portas e letras em suas frestas. Sempre registram existência aqueles que abandonam um lugar. Em uma das portas, no quarto último, havia uma escritura que nos fez lembrar crianças. Uma palavra e um desenho em caneta colorida que pensei ser difícil remover. E olhamos mais. Telhado nosso, nosso quintal, a galeria de nossos eventos se abria e nos chamava. E hoje é nossa. Nossa casa solitária deixada para trás ainda refaz em seus desenhos a origem de nosso lembrar. Não há abandono maior que a indiferença. Não há tristeza maior que um ligeiro discordar de verbos e um sorriso desatento de quem passa pela casa que finge não a ver. E ela permanece em suas cores perenes. Nós a habitamos, mas caminhamos ao deslocar do tempo. Um dia seremos nós os estranhos passageiros que também iremos de nossa casa nos afastar. E em seus cômodos, nosso encantamento será sempre sorriso ou discórdia, mas estará por inteiro. Porque da casa se esvai o corpo, mas, imortalizados em sua alma, habitam nossos fartos sentimentos.


Image by Hillary White

10 comentários:

Kenia Cris disse...

Mudei de casa 10 vezes. Sempre descobrindo novas borboletas e lagartas e pequenos insetos afins. É triste sair por uma porta e deixar uma estória pra trás. É mágico entrar por uma porta e começar uma nova estória.

Mais uma vez beleza é tudo o que se vê nas suas linhas. Beijo-te com carinho.

Liene disse...

Letícia,

Uma metáfora bem propícia. A vida, em suas nuances, é como uma casa. Ao longo dos tempos vamos organizando móveis, retiramos cupins, renovamos pintura... mas ela continua sendo uma galeria de sentimentos e lembranças que não não se apagam...são nossas verdades.

Um grande abraço...

Leo Mandoki, Jr. disse...

me fez lembrar a 1ª casa em que eu morei com meus pais antes da minha irmã nascer. São as minhas primeiras memórias de infãncia. Era um pequeno apartamento em Niterói.
Há cerca de 10 anos passei em frente a essa casa (fui lá de propósito) e fiquei observando as pessoa dentro do apartamento. E o sentimento que eu tive foi de que eles eram os estranhos dentro da minha casa. Eu deixei de viver nessa casa há 36 anos. Morei lá até aos 5 anos de idade. E lá não havia lagartas dentro da pia. Não havia ou eu nunca as vi.

hellen disse...

Gosteiii! fiquei aqui lembrando das mudanças que já fiz, é dolorido deixar algo pra trás e muito gostoso ter a oportunidade de um novo recomeço, parece até que estamos tendo outra chance...na vida tb é assim, né?

Texto lindo LÊ, achei diferente dos que vc escreve...

e aí novidades do book? quando sai?
bj

Zélia disse...

Uma casa é parte do que somos. Por isso, não estaremos sendo nós verdadeiramente em um lugar que não contenha nossa identidade. Podemos mudar de casa, assim como mudamos de roupa - não com tanta frequencia porque ninguém aguentaria tanta mudança, mas ela guardará parte do que fômos esquanto nela estivêmos para sempre. E, portanto, guardará, ainda, aquilo que somos hoje através do que lá vivemos.

Sunflower disse...

Olha, esse texto e aquela mini-biografia ali poderiam ter sido meus.

Quanta identificação, dona moça.

beijas

Lucas Vallim disse...

Não que os posts recentes não tenham sido bons, mas há tempos não me surpreendia com algum conto desse nível por aqui! Gostei muito, muito mesmo! Cada detalhe foi descrito de uma forma que me fez sentir quase a sensação exata de estar nessa tal casa.

Biba disse...

Tão lindo! Uma vez sonhei com uma casa enorme e era assim, tinha insetos, coisinhas perdidas, mas não era habitada por pessoas. Eu pisava nela pela primeira vez. Sua escritura me lembrou desse sonho.

Beijos,
Carpe Diem!!

Du disse...

E este é pura nostalgia...

Germano Xavier disse...

Uma casa guarda um mundo de acontecimentos, como um báu registra um tempo em sua área de mofo. Não podemos nos esquecer, porém, como diria o velho mestre Benedetti, que guardar também é esquecer. Antônio Cícero, irmão da cantora Marina, e grande poeta, também tem um poema belíssimo sobre o "guardar", que não me lembro agora o título, mas que já declamei num "Dia da Poesia" em anos passados na UNEB.