08 julho 2009

hemisférios



Esse texto é meu. Meu porque escrevo e porque sigo as opiniões contrárias. O contrário é sempre o imaginário de meus trajetos. Não sei meu nome — ando de costas para o tempo e não uso resina. Não faço parte de relíquias. Não as tenho. Acordo com um pontapé do sol — mesquinho ou misericordioso — tentando enganar meu mau gosto e vivo feliz em minha fase lunar de não querer ser cartão-postal. Não sou. Não sofro recaídas. Não bebo das águas tônicas desses rios sem profundezas. Sou contrária. Uma mala sem cadeados e, revolta, guardo palavras soltas em minha boca. Falo como quero. Não tenho aquele comportamento primário de sentar ao chegar. Sopro e derrubo portas. Catástrofe prevista ou dedicatória em foto de artista. Sempre entro de mãos vazias — vagas, finas e minhas. Sou toda pronomes. Fui, em antigos dias, arremessada pelo vento que não anda por minha casa. Falo o que me faz bem. Ódio me faz bem. Incerteza transparente me alimenta. Anjos em miniatura e desfaleço limpa após ser desejada por mim mesma. Quero a mim mesma. Desejo dos velhos que esquecem remédios e sou branca. Irmã mais nova das idades. Sou o que venho a dizer e digo. Em todas as letras que me suportam. Grande ou pequenina, pobre ou injustiçada, recolhida e linfática, desfaleço na cama e durmo sem pena. Sem pena e sem roupas. Leio por distração e repito milagres. Sou satélite de céu único e aplauso em cena aberta. Sou o que quero ser. E meu texto é meu e olha para você que olha para mim e vê o quanto eu sou selvagem. Grave estoque de bondade. Sou pele e músculo com tendências hermafroditas. Sou rebelião fora e dentro e amo com pesar os textos que flagram meu pensamento. Texto que não pensa em meu revestir — pouca trégua para minhas lutas. Sou luta e criatura que vence a madrugada. Morro de dia e, à noite, vivo a continuar. Se há estrelas, admiro. Se elas somem, eu as crio. Não sei o motivo. Ando culpando até a ausência do sol. Essa nossa mania, nossa plangente busca por culpados, carrascos, sentimentos odiosos. Estou me libertando disso ou estarei me entregado ainda mais ao interrogatório? Porque se há um culpado, sou eu. Permanecem a lentidão e as fracas certezas. Culpada por viver tudo e digo mais. Que me venha a gota d'água. Que me venha a dose exagerada dos excessos. Porque estou aberta e pertenço a todos os hemisférios. E vivo imensa à apoteose dos acontecimentos.


Image by Daniela Calumba

13 comentários:

zélia disse...

eu diria que o texto é meu. meu porque me aposso de qualquer texto que seja eu. sou pessoa que aconteço, que vivo. estou viva e vejo talento escorrendo pelas mãos.

ps. estou de babá. não posso me preocupar com certas formalidades da escrita. sorry. ;)

Glaucia disse...

Meu Deus...

Não consigo achar 'frases' marcantes, porque todas são.
Um conjunto de tanta coisa, tanta força e você cria um texto assim!

Eu perco as palavras...

Mas como necessito sempre me vestir de alguma frase sua, escolho essa:

"Incerteza transparente me alimenta. Anjos em miniatura e desfaleço limpa após ser desejada por mim mesma."

Perfeito!

Simonne Allice disse...

Let...
tão intenso, tão vivo, tão humano.
Intenso nos sentimentos.
Vivo nas palavras.
Humano nos desejos.
Como todas somos,
como pretendemos ser um dia... sempre!
Lindo!!!
Perfeito!!!!
Catando palavras???
Catando estou eu...

Kenia Cris disse...

Mais uma bela amostra da sua força poética! Você é tudo isso aí e ainda um furacão de emoções que carrega todos nós que lemos. Estar aqui é reviver momentos de enfrentar o abismo e descobrir asas.

Beijo sempre carinhoso, para alguém que tem tantas palavras, as minhas podem não ser nada, mas sempre vem te beijar.

Mai disse...

Um texto que foi teu e agora não mais porque ai está e mexe com a consciência, faz-nos tomar ciência desse furacão, desse pontapé no traseiro, no direito, no esquerdo, no avesso, no oblíquo.
Eu te conhecí assim, malcriada por dentro e, por fora uma elegante etiqueta atracada nas mãos.
Te conheci derrubando copos e biscuits, soprando tudo. E nada fica no lugar e não há palavra alguma fora do lugar.
Lugar comum é dizer o q já sabes.
Beijos, Let.
Um pouco de tudo e este texto, como disse a Zélia, tb é meu.

Monday disse...

que beleza, hein, Le? Tanto tempo sem te ver e, quando consigo passar por aqui, mais um pouco de colírio literário direto da Paraíba!

adoro esse jogo de palavras incomuns a formar suas frases ...

dizer que voltarei é pleonasmo, mas sempre é bom pleonasmar em certas ocasiões ...

bjks, menina

Márcio Almeida Júnior disse...

Letícia,
O tom de seus textos chama a atenção, mas o ritmo não fica atrás. O desse último texto, por exemplo, é de tirar o fôlego, com uma inteligente alternância entre frases curtas e longas. Parabéns. Não é todo dia que se vê esse tipo de recurso empregado com precisão.

Elcio Tuiribepi disse...

Pataquerapiu, e eu ainda não era seguidor daqui...merece outro xingamento...potraquepartiu
Isso tudo é muito humano, assim cheio de imperfeições quase perfeitas. Entendeu? Não? Então nem eu, só sei que mais uma vez parabéns.
Um abraço na alma...

Biba disse...

Letícia, assim caio em vertigem de tanta voragem que há em seu texto. Esse eu que se apregoa e rasga reflexos, é dele que precisamos, é nele que nos fazemos humanas demais, existentes.

Beijo e afeto
Carpe Diem!!

Camila disse...

Sim, é você da primeira palavra até o último sentimento. É você nas frases curtas. É você na enorme liberdade ser você e pronto, dando a cara e o texto a tapa.

Mas também sou aqui e alí e por todos os cantos. Porque que também sou contrária, já que prego o amor, mas o ódio também me faz bem. E talvez eu seja a própria inceteza em pessoa, apesar de ter aprendido a tomar decisões. E tomo, mas não tenho medo de voltar atrás. E volto. Porque culpo meus pais por coisas e me culpo por culpá-los do que não tem culpado algum, senão eu. E também quero a gota d'água, porque já quis deixar de ser overdose, mas até viver eu vivo demais.

E sei que somos parecidas, mesmo tão diferentes. Mas quem disse que não pode ser assim?

Seus texto continuam brilhantes! Ainda bem que vim logo nesse. Porque, mais uma vez, aqui eu me encontrei.

Miss you, Let!
So much!

hellen disse...

Let, INTENSO, essa é a descrição pra um texto desse porte! Menina, cada dia tu se supera...Lindo, lindo, fico com meu cração palpitando ao ler, cada frase, cada palavra, emociona, encanta, lava a alma!
bjos amiga.

Germano Xavier disse...

Sim.

Éverton Vidal disse...

Quando tiro assim pra te ler a impressao que tenho é que estou lendo uma cidade e seus diversos tipos de pessoas.

É um jorro.