24 julho 2009

leis de inércia



Qualquer palavra oposta ao tédio e a contundente pretensão de quem pensa que engana. Ela, abismada ao ver seu corpo exposto ao sol, pensava nos quadrinhos infantis, nos dias que passara com a família na casa da praia e, entre um cigarro e outro, pensava em Deus. Tinha aquela sensação de que Deus a olhava. O tempo todo — como se Ele não tivesse coisa mais importante por fazer. Em seu imaginário, Deus era uma figura romana, de enorme barba macia, passos largos, olhar reticente e uma face de quem aceita tudo. Ela não agia como Ele. Dizem que filhos saem aos pais, mas ela saiu do avesso. Não aceitava coisas. Quase nada, seria melhor dizer. Contradições lhe eram necessárias e, quando alguém evitava suas festas, ela ardia em ódio até ficar doente. Talvez fosse mal acostumada ou apenas quisesse mais do que lhe fora oferecido. Sim, porque parece que já nascemos de contrato assinado com vida. Tudo tão certinho. Lugar em que se nasce, vaso no lugar, rua em que se passa a infância, amigos, trens, o dia em que se fuma o primeiro baseado, o primeiro amor, primeiro sexo, primeiro fim, trabalho, filhos, novos amigos, chaves do armário e obituário. E ainda outras coisas. As desavenças e os conflitos que o tempo vai nutrindo e nos fazendo engolir. Fins de semana fora de casa, conversa séria depois da discussão e o porre clichê depois do murro. Para ela, tudo soava como conseqüência. Longe de acreditar em predestinação. Pensava apenas em contratos assinados antes de assumirmos nossa consciência. E o sol queimava seu rosto e também seu corpo e a mente que não se cansava de trabalhar. E pensava sempre em Deus. Desnuda de bom senso e meio alta de tanta embriaguez que já havia sofrido, precisava rir. Era engraçada. Talvez sua personalidade fosse parte do contrato. Um ser engraçado, feito de progesterona, cabelos tingidos, unhas por fazer. Filósofa e doida. Feliz e doida. Causava-lhe dor lembrar de seus pecados. Mas como foram bons. Como foram certos. Ela os queria de novo. Errar de novo e errar sempre. Nada melhor que uma noite cheia de ressentimento e arrependimento. Ela não vivia da alegria pré-carnaval. Gostava de sofrer. E lá, sob o sol de Deus, sofria seu penar e pensava nas próximas linhas previstas em seu contrato com o Altíssimo. Uma nuvem escondeu o sol e ela se sentiu feliz. Talvez fosse esse o próximo passo. Como um alcoólatra largando a bebida, ela agora passaria a aceitar os tropeços da vida. Afinal de contas, a vida não passa de um scprit de erros acumulados, saudade de outros tempos e essa covardia latente que nos prende aos outros. Somos todos doentes, ela pensou. Precisamos uns dos outros e isso é deprimente. Acendeu outro cigarro, esticou o braço e alcançou o telefone. Alguém anunciando atividades, formalidades, credos desnecessários. Ouviu, aceitou e correu em direção à piscina. Largou-se dentro d’água e deixou-se imóvel — indigna e alheia. Que o mundo exista sem mim.


Image by Mandalin

6 comentários:

Leo Mandoki, Jr. disse...

foi a virginia woolf que se suicidou na água nao foi?...mas é preciso amarrar um pedra...não é possivel o suicidio com a perda da respiração..ou é? sei lá..nca tentei

Kenia Cris disse...

E não é que a gente precisa mesmo dos outros?! E isso é bom porque nos deixa mais humildes.

Grandioso esse momento de entrar na água e esquecer o mundo, e viver um outro mundo, de silêncio e bolhas. Saímos mais leves, mais calmos.

Você é beleza em pensamento e palavras. Beijo sempre carinhoso.

Zélia disse...

Sabe que eu adoro essa coisa de ficar boiando e sendo levada pela água? Nessas horas eu acho até que deixo de ser um pouco eu. Sou apenas o que de mais leve existe em mim. É como se eu existisse sem o mundo...

Gostei!

Lucas Vallim disse...

Ah! Como gosto dos teus textos! Tão complexos e completos ao mesmo tempo.

Biba disse...

Estar sendo olhada por Deus é uma sensação que tenho às vezes. Bem assim, comoo se Ele não tivesse mais nada para fazer. Amei sua história, seu texto e o desfecho. Como é bom que você existe!

Beijos,
Carpe Diem!!

Germano Xavier disse...

Cada texto seu encerra um ciclo de realidades possivelmente imaginárias, ou imaginariamente reais.