03 julho 2009

crime de minha arte



Plágio, grande amigo, voz que repete o que já fora dito, serve-me agora de inspiração e logo me transformo em casto marcapasso. Floresta sem árvores, sem retorno — luz da desoriginalização. Porque não escrevo. Arremesso medo e há quem apanhe e faça vida dentro da letra que há em mim. Li Vidas Secas e me contrariei, então não copiei prosa desse tempo. Li tudo de forte que há em minha estante. Li entre pobres e fracos e foi um alvoroço quando repeti voz da Dailey conversando com Hemingway em cartas e o pior assombro fora o dia em que abri a porta e dei de cara com Platão comendo chuva e vestindo jeans. Fiz um tratado quase honesto e corrigi erro de estilo. Mas falho nesse ritmo — não tenho estilo e à minha língua, falo mal. Só não espero que você, Plágio Servil, venha me amontoar em ideias que já engoli. Sou apache e, de praxe, imito à francesa. Mas não saio da mesa até a última citação. Cato texto assim — até em conversa fiada e na triste verdade de não se ter o que dizer. Sou parte da manada que sofre desse mal. Sou o silêncio do planeta em explosão. Sofro ao criar e perco voz quando, em transtornos, me torno Deus. Mas Deus ninguém quer ser. Responsabilidade de cuidar de casa e ver tempo voar, só mesmo para os antigos. Hoje se escreve reto e torto e texto cambaleia no retrovisor de nossos olhos. Texto esconde rosto, esconde gosto, esconde verso em inverso do que se quer saber. E dessa corrente vive o escritor — corte umbilical a cada flor tingida por uma palavra que já se contagiou por ordem de outro autor.

Image by Ashley

13 comentários:

Glaucia disse...

Eu estava aqui: "Faz séculos que a Letícia não escreve...Ah, faz só um 1 dia."

Entro aqui e a página atualiza diante dos meus olhos. :D

Que honra!

[Queria plagiar seu talento um dia]
;)

Beijos.

Extase disse...

Tu não és a Leticia do Clube de Carteado, a comunidade?

Extase disse...

Nice me too. ça vá?

Kenia Cris disse...

Lindo demais! Seu ritmo é outro, é ritmo de quem tem sonho complexo e muita vida dentro do jogo infinito da existência. Você é seu próprio poema.

Beijo carinhoso.

Mai disse...

Absurdamente lindo este texto eu li duas vezes e não sairei sem reler.
Estás com intervalos de longa lucidez e me assombras.
Eu te digo que podes dizer mil vezes, repetir outras infindas.
Porque ainda que as palavras tenham os mesmos fonemas, gramas, em tuas mãos, elas desfilam - top words - com roupagem diferente.

Só tu prá me fazeres imaginar Platão em jeans, comendo chuva, sua maluca.
Let, eu acho q tu és o caso mais difícil que eu já vi.
És linda, uma espécie rara de arma branca com as mãos em verde e amarelo.
E o disco de vinil quebrou de vez e o menino bateu com a cabeça no chão e foi um filme que me arrepiou e tive medo. Foi este o pesadelo mas a música era aquela mesma e o drops, bem, o drops fell down on my eyes and head.
Fica bem, mto bem.
Beijo, abraço e aplaudo você, de pé.

Zélia disse...

Breve falo por/com vc:

"...e há quem apanhe e faça vida dentro da letra que há em mim." (Letícia Palmeira)

Só assim faz sentido a vida e a obra de um escritor.

PS: Eu te amo! Ôpa!!! Não era isso! :D Eu queria mesmo era dizer que a pessoinha aí da foto parece com vc. ;)

Beto Canales disse...

Gostei... mas, hehe... lembra de conversarmos...

Jaqueline Lima disse...

o texto esconde tudo o que se quer saber. ou revela tudo o que se quer esconder...

beijos menina!

meus instantes e momentos disse...

muito bom.
Maurizio

Leo Mandoki, Jr. disse...

é impossível fugir ao plágio. Onde está o início da Literatura? Na Odisseia, de Homero, sec. VII a.C.
...
tudo a seguir a Odisseia é plágio.
um beijo de saudade

Elcio Tuiribepi disse...

Oi Letícia, uma coisa é certa, quanto mais lemos, mais vamos agregando palavras na mente, na alma ou em outro lugar qualquer, até que um dia elas saem sem data, sem hora e sem receio, transfiguradas, amassadas e até mesmo polidas. Mas Platão de jens...ahh...só fazendo dupla com Aristóteles de bermuda e havaianas...rsrs...um abraço na alma...show de bola mais uma vez

Filipe Garcia disse...

Oi Letícia,

como eu gostaria de ter escrito suas palavras, tê-las dito primeiro/escrito primeiro. São tão minhas, entende? Li e me senti em casa, com os pés apoiados na primeira mobília à frente. Suas definições foram exatas, sua lucidez foi louca e eu desejei o plágio. Ah, como desejei.

Foi um prazer!

Beijos.

Germano Xavier disse...

"Porque não escrevo. Arremesso medo e há quem apanhe e faça vida dentro da letra que há em mim."

Depois não digam que eu sou exagerado quando teço loas a esta escritora-mulher.