14 julho 2009

parvos revolucionários



Parvos e desonestos, defenestrados em arestas e observo de minha janela os batalhões a crescer. Caminho de um lado a outro da casa e cômodos me assustam em estatura. Tenho medo dessas criaturas, mas, oh Deus, que hei de fazer senão aceitar a glória de tão rebeldes visitas? Caminham em torno de meus muros, castelos tenho, montes ao redor, vozes lúcidas me atingem e não temo o toque dos clarins que anunciam o começo de mim. Vou ao combate. Tenho em mãos o escudo, a arma, meu estandarte. Sinto-me forte tal Golias não seria ou o belo Apolo não poderia se comparar. Minha armadura é de carne e osso e, muito embora tema o confronto, sigo. Pés no caminho. O assoalho brilha e brilha também minha empáfia. Mas ora que sou medroso tal qual Judas medonho traidor. E na história, muitos de mim caíram em maldição. Lembro das aulas em que ditavam os professores os heróis abençoados de nossos tempos. Não me comparo. Sou violento, embora covarde e enfrento os parvos que se engrandecem, oram, ditam regras, calam outras vozes e sou louco Maquiavel trancafiado em sua cela. As janelas estão abertas, intrusos em meu castelo, Dom Quixote estava certo. Moinhos são dragões. De arma em mãos, abro os portões que me protegem. Não suporto intrusos em minha solidão. Ataco sem alarde ou balbúrdia. Apenas um som emana de minha boca. Que não me ouçam os vizinhos, que morram os inimigos. Sou Augusto, outrora rei da Macedônia, comprador de sapatos e agora moro solitário e tenho insetos como companhia. Devoram as plantas de meu jardim e eu os enfrento. Sou combatente moderno. Eu os aniquilo em gotas de inseticida e mordo os lábios de prazer. Minha casa é só minha e a história me protege. E eles devoram petúnias e eu os silencio venenosamente. Ora que a história não irá rir de mim. Mato insetos durante o dia e à noite celebro o fim das coisas miúdas, meu amor pela Beatriz e a vitória de minhas lutas. Que não me enlouqueçam mais esses insetos imbecis.

Image by Justine

8 comentários:

Leo Mandoki, Jr. disse...

não sei qual foi o sentimento que te fez escrever, mas sei qual foi o sentimento que me causou: afastamento. Vc tem palavras que me fazem ficar afastado das coisas. Não sei que poder é esse, mas é assim que me sinto. Vc nca se sentiu assim? afastada das coisas? Pois bem! é isso que vc acabou de provocar em mim.
um beijo

Kenia Cris disse...

Gosto demais da sua flexibilidade, do seu jeito de assumir outros papéis em outras épocas, e da forma fácil com que as palavras parecem dançar em tudo que você escreve. Não há dor. Parecem sempre felizes juntas. Quase consigo ouvi-la, a sua voz, interpretando esses papéis. Quase te vejo.

Mais uma vez, mais um texto lindo.
Um beijo cheio de doçura.

Elcio Tuiribepi disse...

Dificil comentar, mas a primeira coisa que veio em mente foi esse pedaço de um poema...

Sou assim no dia e na noite

Na luz e na sombra, no claro e no breu

Sou de lua, sou de sol, sou afago e sou açoite

Sou água, sou terra, sou cristão e sou ateu

Show de bola...mais uma vez...já virou rotina...Um abraço na alma

Glaucia disse...

E há sempre uma razão pra se viver...algo para se lutar contra!

"Não suporto intrusos em minha solidão...
...E eles devoram petúnias e eu os silencio venenosamente."

Maravilhoso, Letícia! Me fez refletir muitas coisas =)

Beijos.

A DONA DO MUNDO disse...

passando por aqui pela primeira vez, e registrando que gostei muito do seu blog, vc escreve muito bem mesmo, voltarei mais vezes
boa quinta

Menino-Homem disse...

Oi Letícia,
acho que lembras de mim...rs
então aqui estou pra te agradecer a sua contribuição ao menino-homem que completa o seu primeiro aniversário... o blog não seria o mesmo sem você!

beijos,
tudo de bom!

Germano Xavier disse...

Minha nossa!

Zélia disse...

Cada texto nos leva a um lugar. Esse me levou aos moinhos de Dom Quixote. Adoro a imagem de moinhos. Para mim, eles representam a força da vida. Diante da grandiosidade que o moinho representa, podemos imaginar qualquer coisa...

Eu imagino!