12 outubro 2010

poemamente


Rua de homem sozinho acampando em mim. Pele sobre pele e corteja minha ingenuidade porque sou aquário e levo você e o sol inteiro nos lábios que forjam mentiras. Por que mentimos? Eu não sei dizer. Pode ser vício espontâneo. Pode ser estação do ano. Pode ser vontade de sumir entre mapas astrais. Todo dia a campainha toca e todo dia fico quieta. Sempre em meu aquário. Água me faz renovar ascendentes e, antes que alguém seja rude, escrevo em letras redondas que, mesmo que seja cruel a correnteza, meu aquário me protege. Tanto amor recebo. Moro em aquários porque não suporto frio e, sendo assim, nada me será tão triste quanto o esvair dos dias. Tudo é tão rápido. Mal tive tempo de me apresentar e já éramos juntos. Mal tive tempo de fazer planos e já éramos distantes. Mal tive e bem tive. Fiquei feliz por todo o engano. Alguém precisa mentir — e eu menti. Fui feliz por segundos e voltei ao mar que criei. Voltei ao aquário e durmo ao colecionar lembranças. Passa o dia e brinco e o homem sozinho sorri e já é amor de novo. Nosso mundo é feito de calçadas, vozes e aquelas linhas que dividem ruas. Ele adora ingenuidade. Eu adoro solidão. Somos final feliz de filme que ninguém entende. Ele tem algo a dizer, mas é tanto barulho. Leio lábios e o livro é pronto. O tempo esqueceu e não mentiu e somos o homem, o aquário, virgem e uma verdade. E ontem venerei o cummings até ele dormir e, alucinada, reli Anaïs Nin. Ela fingia por trás do cigarro, da postura de mulher do mundo. Era forte e amou até explodir. Hoje tem livro dela nas estantes pelo mundo afora. E hoje tenho diagnóstico. Escondida em meu aquário. Sou feliz — sei mentir. E dias nos consomem com a mesma ritualística velocidade das vozes ao telefone. Olho você e me silencio. Me atiro sedenta em seu abismo. Esse sentimento sedativo me causa calafrios. Seja meu hino e ser feliz nada tem a ver com isso.




love and math
you wear my past
over me you come
over me you cum
over us we love
love and math
play your best
forget
the rest is not us
I wear your body
dear love of mine
love and math
you cum and open me
a flower of you
a woman of you
naked and safe
in the arms of you





Image by icynra

14 comentários:

Camilla Tebet disse...

lies, come and cum. And just one true. Love??
Mentimos porque não aguentamos a vontade de falar a verdade. Mentimos para fugir da verdade que é tão grande, e não tem barulho que a abafe. Esse texto fez um barulhão em mim. Me deu vontade de voltar para o meu mar. Mas meu aquario quebrou.

Kenia Cris disse...

Às vezes acho que a gente mente pra não se sentir tão diferente de todo mundo. Pertencemos à grande mentira que é a vida em sociedade. Belíssimo texto, novamente!!! Você escreveu muito rápido dessa vez, não tive tempo de inventar minhas novas palavras.

Beijo porque sempre.

;)

Germano Xavier disse...

Estou para não me arriscar mais a dizer nada por aqui, porque tende ao estrago. "Cousas futuras" sempre me sucedem quando termino-inicio a leitura dos teus textos. Quem lê sabe distinguir o ôba-ôba natural aos jumentos que poetizam dos poderosos instrumentos de transformação feitos com a palavra. E é o que vejo aqui, a simples palavra que atormenta. Tua prosa também é de diamante, Branca, assim como a do maudit Arthur.

Sou louco por você.

Eveline disse...

Sempre bons textos por aqui e lista de blogs atualizados.

Leo Mandoki, Jr. disse...

dps que li...me ocorreu uma frase:
Nós dois somos aquilo que nunca fomos, e talvez aquilo que nunca heveremos de ser.
...
É para mim uma frase verdadeira e triste. Como o teu texto.

Printemps disse...

I love this picture and the deep meaning behind it...'Open me a flower of you a woman of you naked and safe in the arms of you'

WOW!

Zélia disse...

E tenho a impressão que o termo "poemamente" é meu... 8)

Zélia disse...

É engraçado isso: Às vezes, mentimos porque a mentira é a nossa verdade.

Adorei a disposição dos textos junto com as fotos e o jogo entre os dois textos. Duas línguas, verdades diferentes. A verdade é o que se pode ver...

Narradora disse...

"Mal tive e bem tive" nesse conjunto de mentira e verdade de cada um.
Beijo

Glaucia disse...

E eu to aqui chorando...

"nada me será tão triste quanto o esvair dos dias"

Suas palavras entram em mim como facas...e eu amo.

Beijos.

Thomaz Ribeiro disse...

Viver num aquário. Quem pode dizer que não se pçode ser feliz sem ter alguém?

Edilson Pantoja disse...

Mentimos porque é impossível não fazê-lo. Até quando falamos a verdade, mentimos. Por quê? Porque a verdade, como tudo a nossa volta, é criação nossa. Inclusive, a mentira. E a oposição entre ambas. Resta saber as razões de ser assim...

Beki Girl disse...

Gostei do texto... só visitando
(desculpa o comentário vago)

Monday disse...

Oi, Le. Caprichou nesse, hein, moça?

Acho que ando pouco filósofo ou muito lógico, leio alguns comentários e me parecem meio estranhos. Sei lá, cada um na sua, não?

Outro delicioso jogo de palavras para trazer beleza mais bela ao texto, especialidade dessa casa ...

Te falei do CD? Estou montando um, talvez em agosto, início de setembro, fique pronto. Devo criar uma caixinha de som no blog, para as amigas que lá frequentam.

Teu lugar estará guardado na primeira fila ...

bjks e boa semana