27 agosto 2009

mísero eloquente



Não sou fidalgo, sou de outro algo. Talvez um alaúde, talvez ostentação. Plangente palhaço sem riso, sem brilho e remota cidade sem civilização. Perco o passo a saltar entre as vielas de curioso que trago entre tantas cenas o meu olhar inquisidor. O mundo não me cala e as senhoras de enormes olhares não me amedrontam. Eu as afasto com meu nobre erotismo porque de meu caminho arranco todas as culpas e fardo algum trago comigo. E todos verbalizam suas soluções como se fora eu um fantoche posto para recriação. Renego todos que me tocam porque crio minhas curas, minhas denúncias e medo só existe se houver outro ser ao meu lado porque me divirto estando só. Pescador de rede tamanha de todos os peixes e, de todos os mares, sou herói. E Helena me traiu burra menina. E de quimeras é feita a vida assim como o pedestal de onde ergo minha fonte em todo o horizonte e minhas ilhas são vistas a olho nu. Engraçado é esse traço de invenção que me fora dado. Embora fantoche me denominem as vozes humanas, liberta está minha primeira condição. Viver de cara livre e ser alegre ao modo de ser triste escrevendo lábaros livros e fazer crescente minha criação. Sem mim não há mundo e trago entre as palavras a prova de meu talento que é único, singular e adjetivo. Vadios são os outros. Sou escritor de livros e crio o que do lixo ímpio se esvai. Na verdade, invento misérias para alegrar a triste sorte dos pobres poetas. Não sou fidalgo. Sou trapo rasgado e esquecido entre tantos algos que fingem como eu.



Image by luisa m. kelle

14 comentários:

Kenia Cris disse...

Sempre um diamante novo lapidado por mãos belas e olhos sábios. Eu venho porque adoro descobrir o seu riso e a sua dor e a sua poesia em cada palavra. Delícia ler vc Letícia. Delícia vc existir e escrever aberta e livre.

Beijo-te carinhosamente, mesmo no silêncio.

Mai disse...

Lembrei do meu chapéu. Este texto foi lá dentro de mim. E por mais fidalgos sejamos, nós somos, somos pedintes.
Beijos,Let.

Beto Canales disse...

hummmmm!

Elcio Tuiribepi disse...

Estou aqui lendo e absorvendo o viver de cara livre e ser alegre ao modo de ser triste...sei lá, mas você conseguiu explicar com palavras bonitas o que defino como "sorriso valente"...sei lá...só sei que senti assim...Um abraço na alma Letícia...

Joseph Dalmo disse...

Querida sobrinha!
Gosto de selecionar passagens dentro de um obra. Gosto de sinalizar o que mais me roubou a atenção, mas não farei isso na sua por entender que teria que copiar dois terços dela.
Parabéns, parabéns!
Bjs

Biba disse...

Gosto muito dessa prosa-poesia que você faz, tem um encantamento todo especial.

Beijo grande e afeto
Carpe Diem!!

Sonhadora disse...

Este me lembrou Casmurro...
Se não fosse 'Helena'...lembraria mais ainda...
Mas sei que qualquer lembrança é coincidência...porque Letíca é singular :)

Beijos.

Monday disse...

Le, hoje não me preocupei muito com o que poderia dizer o texto, mas sim com o texto em si.

E me fartei com seu delicioso escrever: satisfeito até a alma!

bom final de semana, moça!

Zélia disse...

"Sem mim não há mundo". (Letícia)

Jamais haverá mundo sem o que de mim me faz "eu". Jamais haverá mundos sem aqueles que se dispõe a entregar suas letras ao vento. Jamais haverá mundos sem "escritores de livros". E não se pode esquecer que eles são livres para escreverem seus livros e espalharem suas palavras e mundos. Qualquer um deles, se não pelo que lá está escrito, deve ser digno de respeito pelo ato de coragem.

Belo trabalho de quem "estava" (?) no limbo. Hehehehe!

Mai disse...

E a solidão é uma criança estigmata, lembras? -nas mãos, suas chagas. Não somos alegres nem tristes, somos poetas, Let?

O que eu não te disse é que aqui, anda chovendo prá danar. Ô tempinho filho da mãe,viu, Let. Meus olhos? Te disse não, né? Tô com conjuntivite. Mas o chapéu entrou da cabeça até o pé. Eloquente, não?
Pois é...E somos e mesmo os fidalgos, os míseros, eloquentes e fidalgos, somos todos pedintes de algum algo.

lov u, doidinha linda.
Tua mão, let deve parecer com as mãos das curandeiras. Já viste alguma? Parecem com as mãos de uma criança.

Jacinta Dantas disse...

Oi Letícia,
nas entrelinhas desse texto, vejo-me Alice com olhar curioso e ouvidos atentos procurando saídas.
Um abraço moça.

Germano Xavier disse...

O que há de mísero aqui?

williamlial disse...

Bonito, muito bonito seu texto, sua escrita, sua sensibilidade na escolha das palavras e, por conseguinte, na formação das frases poéticas. Quero continuar lendo você, por isso, vou seguir seu blog, assim não me perco.

Um abraço, menina!

William

Thomaz Ribeiro disse...

Acho que como autora você conseguiu fazer uma coisa muito difícil: escolher um estilo. Sério, seus textos têm algo que é só deles e isso é muito bom para quem se debruça na árdua e ingrata tarefa de escrever.