10 setembro 2009

curta metralha



Túrgida amanheceu Dona Maria. Ao pé da letra, cheia d'água, que a casa dela ficava ao pé do barranco e a chuva, que é boa na seca, fez mal à Dona Maria e levou tudo que ela tinha. Fogão, geladeira, colchão e um monte de imagem de santo. Levou as paredes da casa também. Que a casa de Dona Maria era feita de papelão, resto de casa de gente rica e um pouco de barro que era pra dar liga à mistura da casa de Dona Maria. Quando fez a casa, ela ficou feliz que nem gente. Encheu as paredes de retrato dos filhos que se debandaram pra cidade grande. Para Dona Maria, cidade grande era chance de outra vida, melhor, de sustento, de boa coisa abastecida. Era sinal de vida ganha. E Dona Maria sabia, através do diz-que-me-diz, que seus filhos vendiam pedrinhas e faziam arte no sinal de trânsito. Dona Maria sentia orgulho que seus filhos eram artistas. Mas essa parte não fez notícia. E era manhãzinha quando a chuva decidiu levar tudo que era de Maria. O barranco desmoronou. Dona Maria acordou com um tronco de pé de árvore dentro da cozinha e chegou o recém-formado repórter querendo exibir sua fome erudita e enfeitou o dia de Dona Maria declamando em retórica a tal palavra desconhecida. Túrgida estava Dona Maria. E a senhora de muita idade e muita vida sofrida sabia nada da tal palavra bonita. Sabia apenas que teria de refazer a casa, catar mais papelão e dar um jeito de encontrar sua vida que ali seguia fugindo com a água da chuva que leva tudo que é mundo desde o alto céu até o triste chão.


Image by W. J. Solha

12 comentários:

Lucas Vallim disse...

Coitada da Dona Maria!

Texto MUITO bem narrada, parece que voce já adotou um estilo próprio. Gosto muito. Beijo

Beto Canales disse...

bom

Leo Mandoki, Jr. disse...

sabe o q eu tenho descoberto? é que vc tem uma alma solidária e cheia de compaixão. Vc deve sofrer muito com o sofrimentos do ser humano em geral. Vc é daquelas pessoas que qnd vê alguma notícia no jornal da TV, vc sente a tristeza e a dor dos outros como se fosse a sua. Eu não tinha essa noção de vc, e agora tenho.
Letícia (como eu gosto do teu nome, eu pronuncio o teu nome em voz baixa, sabia?)

beijocas

Talita Prates disse...

Ótimo texto, Letícia.
Quando "tudo" é "nada", o pensamento chega a não ser lógico!
E não há erudição que dê jeito: só justiça.

Bjo.

Biba disse...

Muito lindo e triste. Lindo na escritura, triste no conteúdo porque verdadeiro demais. Dói.

Beijo e afeto
Carpe Diem!!

Germano Xavier disse...

Testemunho ocularmente a estória. E há mais coisas entre o céu e a terra do que julga nossa vã vaidade. Em Salvador, cidade de terreno exageradamente acidentado, chove lama na casa dos pobres. Chuva pra alguns é seca pura.

Elcio Tuiribepi disse...

Oi Letícia, basta ler a primeira linha e o texto já começa a fazer estragos, muito legal te ler, sentir sua visão das coisas do mundo, das "gentes" simples e das coisas rotineiras, das realidades tristes, sei lá...aqui é assim...gente da terra, do chão arido e seco, das chuvas e tempestades, dos sóis a queima roupa...arde a alma, arde os olhos e arde a fome de ontem ainda hoje...um abraço na alma...bjo

Zélia disse...

Escreve louca! :P

glória disse...

essa casa de Dona Maria sem sotão nem porão. como diz Bachelard: não abriga sonho, nem devaneio! assim a vida dos sonhos de papelão, não resiste ao tempo, nem a um tiquinho de tempo. belo, como todos! bj

Tive uma idéia. escrevermos um livro com nossas frases do twitter - Mulheres em cento e quarenta caracteres (poesias em fragmentos). Podíamos pensar em cinco mulheres, pensei em você, na Bello Veloso - intrepréte e compositora, na Dú e na Vanluchi. Faltaria um a quinta. O que achas?
bj

Camilla Tebet disse...

A imagem já impressiona. O texto, um dia a dia que só os mais sensíveis vêem e narram.
E ai vai Letícia.

Éverton Vidal Azevedo disse...

Primeiro lembrei da minha vó, que também é dona Maria, uma Maria Júlia, porque ela tem esse costume de espalhar fotos de filhos e de netos e até de desconhecidos (só por se parecerem com a gente) pela casa.

Seu texto mostra uma faceta da nossa realidade pós-moderna, especialmente na pessoa do jornalista recem-formado, isto é, estamos tao perto do "outro" até lutamos pela causa dele, mas ao memso tempo estamos tao distante, parece que vivemos noutro mundo.

Bj. Saudades daqui.
Inté!

Elcio Tuiribepi disse...

Puxa...ficou muito bacana o livro, o conteudo eu já sei pelo que a gente lê aqui, a capa ficou show também...fico contente por você...sucesso ok, muitas vendas e o melhor: satisfação consigo mesmo! Um abraço na alma...bjo