01 setembro 2009

o revés do anzol


Será que se pode ficar ainda mais vazio? Vazio de sentido, de espírito, de significado? Será que chorar faz mesmo tão bem assim? Sempre aquela voz de compaixão dizendo que chorar faz bem. Chorar liberta. Então vamos tratar de chorar só pra ver se vale a teoria, se realmente funciona a crendice e chorar até raiar o dia. E o azar realmente existe? Onde mora? Onde decora seus truques e quem ele escolhe primeiro? Finas perguntas — parece mais coisa de criança. E talvez seja. E a paz? A paz das brancas passeatas. A paz de fim de filme. Quem criou? Que dimensão tem? Tantos precisam dela, mas parece estar sempre ocupada. Parece que perde sempre a hora e quando chega, já é fim de carnaval. Vai ver a paz goste de chegar por último, chamando atenção de bandeira e lenço na mão. E as promessas? Quando quebradas, são odiadas. No entanto, no meio do tempo, quando completas, perdem a graça. Promessas são perfeitas — sinceras ou não. O dia se completa com uma bela promessa e já somos felizes. Promessas merecem respeito. E a tristeza? Já que alegria existe, por que não sua companheira? Por que fugir de ser triste? Um tempo, um século de minuto, um intervalo de luto. Nada arranca tantos pedaços assim. Ficar triste é saber que o oposto existe. Ficar triste é saber que esperança não é tolice. E vem sempre a multidão mentindo alegorias e fazendo zombaria dessa vida. Nada melhor que provar o veneno e depois sentir a cura em seu antídoto. É o revés da nuvem e do anzol. Viver é quase isso. Uma criança aprendendo perguntas, uma senhora carregando vento em sua sacola e gente passando dentro de um trem.



Image by immacola

11 comentários:

Júnior disse...

Minha doce amiga, cada linha que leio sua me faz admirá-la mais. Acredito muito nisso de provar do oposto para saber que o outro lado existe. É preciso chorar para aprender a sorrir. E sentir-se triste talvez deva preceder o sentir-se alegre.
Love you!

Leo Mandoki, Jr. disse...

mais um dos teus dons...o dom da filosofia enquadrada no texto literário...sabe que o Camus ganhou um Nobel assim né?!E depois morreu.
viver é essencialmente a arte da antinomia:
viver é escovar e não não escovar os dentes. Amar e não amar. Chorar e não chorar.
A única antinomia que não cabe no viver é morrer.
Viver é vir aqui e te ler, e sentir saudade..e desejo...e vontade...viver tbm é não vir aqui. E qnd não venho aqui é pq geralemente estou preso a um anzol.
beijocassss

Germano Xavier disse...

Que me desculpem os alegres, mas tristeza é fundamental.

Sonhadora disse...

Que delícia de texto...


"Viver é quase isso"

Fico pensando como vivem as pessoas que não sabem o que você escreve por aqui...(?)

Beijos, minha querida. =)

Biba disse...

A vida espelhada em seu texto. É como entendi.

Beijos e afeto
Carpe Diem!!

Beto Canales disse...

legal

Zélia disse...

Bem, eu devo começar dizendo que eu adoreiiiiii a foto da postagem. Eu amoooooooooo girafas e adoraria sair viajando em um trem versão moderna da Arca de Noé.

Quanto ao texto, vc disse:

"Viver é quase isso" (Letícia)

A vida é mesmo feita de reveses e é quase isso. O que é para mim e o que não é para você e vice-versa.

;)

Mariah disse...

prefiro o ... "sacode, levanta a poeira e dá volta por cima"...essa de "chorar faz bem" já era.

Madalena disse...

"Viver é quase isso".
Quase sempre.
A outra parcela é que crianças dão as respostas, senhoras carregam tudo e pessoas hão de voltar.

Elcio Tuiribepi disse...

Oi Letícia, mais um né! Bom...essa coisa de chorar, desabafar, colocar as urgências para fora deve ser bom sim...pois deixa vazio o balde novamente...
As pessoas passando no trem, é uma coisa que sempre mexeu comigo, esse vai vem sem que um não perceba as dores e alegrias do outro, como se o mundo fosse tão pequeno e só nosso, dos pés ao umbigo, de forma a nem chegar na cabeça...Quanto a felicidade e a tristeza, saõ momentos cumplices, quando uma chega, a outra democraticamente sai de fininho e vice-versa...é a lei natural balde cheio, balde vazio...rsrs
Um abraço cheio...na alma...boa quinta para você

Germano Xavier disse...

Na esperado d'O Buquinador.