27 outubro 2009

adormecidos



Engraçado como tem gente que sente falta de si mesmo. Saudade vazia que nem mesmo o espelho do banheiro consegue acalmar. Essa gente vive a procurar sinais que provem a existência, o violento transformar da alegria em tristeza, o acordar do tempo e a natureza que se faz assumida trem da vida e leva todos nós. É como se sentir anestesiado. O corpo existe, mas falha a voz e a verdade não passa de um contratempo. Como provar que ainda se está ali? Na sala de estar, no quarto do filho, na casa de amigos? Como voltar a se sentir vivo? Tonalizar fios brancos, enfeitar a casa para um bando e fazer digno o realçar das incertezas? Não há nada mais triste do que a busca de si mesmo e ver que tudo se foi. Já se partiu e agora o ser que habita a gente não passa de uma obra decadente que o tempo esqueceu de enterrar. Melhor viver logo o dia de aniversário e se deixar envelhecer. A perda maior é o esquecer de si mesmo. A gente se esquece no rosto de alguém, vivendo outra vida, lavando calçadas ou apagando marcas, cauterizando outras dores enquanto há fome de tanto e por tudo que se sente. A gente precisa viver. À tortura ou à plena felicidade absurda. É bem melhor que se viva. Antes mesmo que o cenário mude e a saudade se torne moribunda. Não há saudade maior do que essa que a gente sente de si mesmo. A gente, de repente, se torna o produto com prazo vencido.



Image by jasinski

7 comentários:

Mariah disse...

tenho fases de saudade de mim mesma. acho que é a única saudade verdadeira.

Biba disse...

Letícia,

já senti essa saudade algum dia, mas aprendi a viver o agora com mais intensidade deixando essa saudade esmorecer sob meus pés. Há, por vezes, uma falta, mas não creio que seja de mim mesma. Ou será?

Beijo e afeto
Carpe Diem!!

Zélia disse...

É normal a gente se perder às vezes. São tantas coisas, tantos caminhos, tantas pessoas, tantas obrigações... O segredo, talvez, esteja na forma de se viver aproveitando cada instante como um aprendizado e, durante essa viagem, tentar manter "eyes wide open" para não perder o caminho que, seja para onde for, deve dar em nós mesmos. Outra alternativa, e mais simples, é fazer como João e Maria e espanlhar migalhas de pão por onde passarmos e torcer para que nenhum passarinho os comam... Hehehehe! ;)

Mai disse...

É Let,
Deixar de fazer coisas é perder o bonde e ficar na janela olhando a banda ou o trem passarem tb é besteira. Fazer o q? Jogar água gelada na cara q a hora é agora. E tarde, todavia, sempre é cedo no dia de HOJE.
Bjs.
P.S.
Não tenho aparecido pq tô vendendo limonada, ralando 'côco', fazendo cocada e faxina prá fora.

Mai disse...

Let,
li o texto do 'artesã'e fui lá ver o link e vi o evento e tuas fotos. Ficou bacana, né? Você merece, viu? Tô feliz de verdade e o livro é muito bom. Você sabe a minha opinião desde o início, né?

Beijos e boa semana.

Sonhadora disse...

Forte e urgente!

Foi o que senti ao ler!

:)

Grande Letícia!

Germano Xavier disse...

Perder-se é se achar.