02 outubro 2009

águas de chuva de janeiro


Solidão entre cinco paredes. Vezes mais, vezes menos e são belos seus pequenos azulejos imaginários portugueses. E construímos. Você constrói. Lembra o dia de ser herói? Salvar amigo, ainda criança, quando feliz corria em sua bicicleta e cai o menino e você o salvou. Enquanto chorava a criança, algo de valor fora dito, e fora de sua boca e, de um minuto a outro, a cena era completa e você pôde sentir felicidade em ajudar alguém. Mas o tempo faz esquecer. O dia seguinte transforma o que sente a gente e é sorte. Porque se arde em nós a dor, pode ser que amanhã passe, haverá cura para todo mal, o sol brilha e ainda existe motivo para continuar. E se acredita. E não hipoteticamente. É certo que navegamos cegos no mar de imensa gente, mas, entre o elaborar de todas as coisas, há mistérios que até os mais incrédulos se acometem e se atrevem a proteger. E é este o mistério maior. Aguentar o tranco. E há quem aguente? As estatísticas não mentem. E se mentem, perdoa que será perdoado também. E vive em família. Família de um, geladeira quase vazia, dias de domingo sem fim. Família de dois, entre a discórdia e a hora de abrigar o outro corpo, contas e a fé na sabedoria e gera filho e cria mais família e faz o mundo ser maior. Família de tantos, tantas mulheres e tantos homens, de lá pra cá entre os cômodos da casa e respeita ordens porque não se faz barulho enquanto os mais velhos dormem seus sonos. E assim se faz república. Independente, prudente, grande mãe de todos nós. E lê e estuda tanto que o futuro traz respeito. E dá de cara com o vazio das portas fechadas e depressão existe. Não é invenção. A mãe diz que não. Depressão é invenção da nova era, amigos falam em beber e você, querendo ser homem e forte, bebe com amigos, faz graça da vida e acha, inocentemente, que dia seguinte tudo há de se equilibrar. E faz família com moça que se aninha em seus umbrais. Metáfora? Não há quem diga. É que segue em margem a vida e, mesmo quando se desalinha, quando parte alguém antes da hora prevista, é ela quem dita nossas leis e, altruísta, que muitos dizem ser egoísta, a vida é o que ocorre entre a sala de estar e a mesa de nossa cozinha.



Image by pesare

3 comentários:

Zélia disse...

E cá estou eu, de volta. Já "perdi o meu meda chuva" há tempos. Engraçado, agora, fiquei pensando que tipo de pessoa sou eu. Um ET ou alguém que, simplesmente, sabe ler? É impressionante como eu me encontro em tudo que eu leio -e que preste! 8)

A vida é única. Ela é mesmo "o que ocorre entre a sala e a mesa da nossa cozinha". Estava eu, agorinha, na minha cozinha, cozinhando, ouvindo Pe. Fábio, louvando a Deus e filosofando sobre o que aconteceu nesses últimos anos entre a sala e a mesa da minha cozinha. Entre tantas coisas, a minha vida segue mesmo na falta dos que se foram "cedo demais". Ainda tenho o que fazer aqui e não quero que o amanhã escorregue pelos meus dedos...

Trabalha, filha! Trabalha que é isso que vc nasceu pra fazer. I'll be always around. ;)

Germano Xavier disse...

Entre a sala e a mesa da cozinha há um portal para uma terra desconhecida. Toma-se uma pílula, diminuímos de tamanho e o coelho maravilhoso nos segue em jornada sem fim. O grilo saltitante e a lagarta aparecem, ficamos com a companhia dos homenzinhos vestidos em naipes. No fim, resta apenas o poema em formato de gato. Miamos, juntos, por ser só, um todo.

Thomaz Ribeiro disse...

Isso que você escreveu é simplesmente lindo. Me deixou encantado. Não tenho nada que comentar, tudo foi dito. Texto bom é assim, quando deixa a gente sem palavras. Parabéns