01 outubro 2009

anáfora dietética



Ela gosta de fazer teatro. Sai de casa de nariz empinado e ela mente pra todo lado e há quem diga que é feliz a mulher de batom. Primeira rua e olha pro alto. Prédio gigante e o vento ágil faz o cabelo dela se espantar. Então se arruma e reflete no carro sua fragilidade de gente comum. Um lanche, café da esquina, e trabalha como qualquer um. Fala pelos cotovelos, contando casos que nunca teve, fazendo templo sem altar de santo e, Ave Maria, ela é feminista, saia curtinha e mechas no cabelo pra homem notar. E o homem vê. E passa todo dia, ensaiando sua cantoria, portando inocência de menininha e os seios evitam a gravidade e o tempo dela é de estandarte e ela, rindo alto, bela falando demais. Acredita em tudo que é conversa. Elogio cega, moça esbelta — pensa que é novidade quando, na verdade, vive e trafega como qualquer um. Triste é ser comum. E há gente que dá conselho, ela obedece e segue em frente, mesmo dando passo pra trás empacando em seus repentes envergonhando suas mulheres ancestrais. Astrologia da modernidade, recém-casada e mula de quatro. Caberia a mula em um elevador? Em coro o dia canta, esbanja sua vida, menina tonta e ninguém se importa se você veste prata ou dias de março e, estonteante, o dia chega ao fim. Dia seguinte, o mesmo quadro. Vai as ruas em salto alto, acreditando que seu bloco é único e seu carnaval é visto por todo mundo e lágrima desce quando a mula percebe que vive e morre como qualquer um. E ela sonha ser predileta, mocinha magricela, mas é cópia de novela e, fabulosa que só ela, bolsa vermelha e carrega dentro dela, a originalidade e a elegância de um sanduíche de mortadela.



Image by mollie

5 comentários:

Pedro Avillar disse...

Teu escrever é magnífico, menina e teu livro chegou. Te enviei um mail.

Mai disse...

É, Let,
eu vou lendo e abrindo um sorriso. (exagerada feito ela) quase caí da cadeira. Porque ela é comum, comum aos dois gêneros e lá dentro de cada um pode morar um estandarte em prata ou ouro de tolo.
Fui caminhando com ela e cena por cena - crítica - me ví, a vi e vi os olhares sobre ela, tentando diminuí-la. Mas ela É e vai sendo e como não existe chinelo perdido, alguém vai achá-la e ser feliz, ou não...
Assim caminha a humanidade e que bom que o carnaval - festa da ilusão - ela poderá ter sua hora de Rainha do carnaval, né?

E seu filho chegou e tá lindo demais e me emocionei que só vendo.
E te escreví.
Beijos,
I do lov u and I'm really really happy.

Zélia disse...

Querida,

Devo iniciar comentando o cabelo da mulher na foto. Sempre quis ter um cabelo assim. :D Antes dos meus 20 anos fui a um salão com uma foto de uma mulher parecida com essa aí (mesmo sem rosto) com os cabelos estonteates. Que raiva eu tive quando a cabeleleira veio me dizer que tinha pena de gente que tinha o cabelo "assim" e queria ter cabelo grande. "Cabelo assim"? Como? "Cabelo liso, fino e pouco", disse ela. Pensei que se fosse diferente disso é que seria problema. Mas bem, meu cabelo continua fino, liso e pouco mas ele está crescendo. Vou esperar mais e tirar uma foto como essa aí e vou mostrar a ela. Ela ainda tem um salão bem ali, cuida do cabelo grande e cheio da minha irmã e cortou o cabelo grande e cheio da mulher do meu cunhado...

Sorry! Não resisti! 8)

"Triste é ser comum". Uma coisa é sermos iguais dentro da mesma espécie. Outra coisa é ser igual-diferente, único. Falta a reles abrir mais os olhos para o que há de valor no mundo, ter mais humildade e ler mais como disse Miguel Unamuno:

"Ler muito é um dos caminhos para a originalidade; uma pessoa é tão mais original e peculiar quanto mais conhecer o que disseram os outros."

Elcio Tuiribepi disse...

Oi Letícia, fui lendo e imaginando a cena, absorvendo as ilusões da moça que é moça comum das calçadas, das esquinas e que por uns é diminuida sim, como a Mai falou, mas também vista com os olhos de quem tem outras fomes, por isso ela se sente e poderá com certeza fazer alguém feliz...ou não como disse a Mai e o Caetano Veloso...rsrs...um abraço na alma...bjo

Germano Xavier disse...

Macabéa's history? A revisitação enquanto recriação. O ser simples que se nubla de rarefações, tornando-se o personagem mais complexo. Como é bom ser comum, fica no interdito. E quando a lua ocupa o lugar do sol, a opinião renegada aparece no equador. Sinal de vida no texto.