28 outubro 2009

in natura



Amar e armar a esmo, torcendo dedos e masoquismo é enredo e me machucas que ando nua nas ruas de minha infância. Praga de ingênua horta de tuas mãos cultivar. Há em mim o que de fato existe. Homens escravos e a história de meus país. Manchetes em meus ouvidos e eu com isso? E eu com o mundo? Torta fêmea feita de horas e aborto beijos calculados. Quero susto e que me corram deuses e demônios em minhas veias de mulher pedinte e sedenta. Transito de dia e, à noite, hemorragia é a vontade que me guia. Não colho absurdos coitos de homem que sente medo. Já ouvi de todos que medo nos encolhe, então, ágil, espalmo o piso e ele se curva e ele faz de mim a fenda por onde se vê que trêmulos dizemos amor e há pornografia bela dita em nossas línguas. E assombra a hora de ir embora e não me deixa o homem que elabora. Homem vasto de tanto espaço e sou a sombra do que ejacula tua obra in natura. Em instantes. Minutos em caos de eternidade. Sirvo em ritmo alfabético, ereta e discreta, e declaro o que poesia não diz. Estou vaga feito lâmpada acesa enquanto caminha mais um dia e diga você o que deseja. E diga você o que espera sentado à porta de casa cruzando braços enquanto espalho meu corpo em sua cama doente de tanto sorrir. Meu feminismo é entregar-se. Coragem é deixar-se larga, sorrindo feito menina, enquanto te ergues farto e composto trajando tua face de covarde. Minhas mulheres trabalham mais e eu alimento animais. Estes cegos e amedrontados verbos passivos que habitam em ti.




Image by blind-awakening

3 comentários:

Zélia disse...

Eu chego aqui e digo que sou eu e estou eu "in natura". Sou mulher que trabalha mais e alimento animais. Vou dizer apenas isto porque já digo o que a poesia não diz.

Vejo espelhos, leio e releio e o baú velho vai jogando novas coisas fora...

Falei mais. Eu tenho "pobrema" :D

Germano Xavier disse...

Não vou falar nada.

Weslley M. Almeida disse...

Olá Letícia, colega - sou, também, formado em Letras c/ Inglês, pela UEFS (UNIVERSIDADE ESTADUAL DE FEIRA DE SANTANA - BA) Me embrenheiei recentemente pela blogosfera... Peguei seu link por Vidal.
Esse seu texto - como alguns outros que dei uma lida - são fortes. Dá a impressão de que você está com o megafone citando-o... Tenho um poema com este mesmo título, mas com uma temática diversa.
Gostei principalmente da frase: "trêmulos dizemos amor e há pornografia bela dita em nossas línguas..."
É de uma poeticidade incisiva e sensual... parabéns!
Abraço!