22 outubro 2009

moinhos de um caçador



E meus olhos cerrados ao abismar-se minha constatação. Onde se perdeu a fruta madura colhida da árvore dos quintais de minha eterna vida de antes? E o sumo da fruta que escorria de meus lábios e brincava em minha garganta que hoje não mais canta e quando cessou de ecoar minha voz? Em que lugar de todo o universo esqueci minhas ideias, minhas aflições de jovem que era e meus planos que tanto refiz e eram sensatos e teriam por fim a glória? Onde estancou minha palavra que era dita de lado a lado em ruas e todos ouviam minhas vidas porque eu acreditava enfim. Por onde, nesse mundo vasto de todas as sedes, se esconde minha luz que era eterna e eu abria janelas e meus olhos avistavam terras e madura gente em que eu costumava acreditar? E as esquinas de meus pensamentos? Onde irão dar agora que minhas imensas dúvidas habitam o cume de minhas irradiações? Qual o dia certo de confronto entre o eu que sou e o eu que era tão diverso em credos que mesmo colhi em tantas idades que vivi? E a mulher que amo? E o homem que canto? E o abrasivo costume de andar ao vento olhando ao redor e ser pacifista entre guerras alheias? Onde vai dar o tempo que esperei? Ora, mas tanto costume criei. E os alfinetes com os quais minha mãe prendia seus longos vestidos e nos alimentava de seu ofício? Onde a vida irá estar? Será nostálgico o momento em que repousam nuvens na enorme tela em que acontece o sol? Nostalgia não passa de mentira que me faz imaginar vidas das quais estive ausente porque sempre estive ausente querendo viver mais. Invento quintais e amores e livros de tantas bibliotecas de minha pequena cidade que era eu. Eu era minha própria cidade. Meu sítio. Meu estado amplo de toda bandeira. Meu regionalismo era rico porque, de todos os lugares, tive o sopro e o hálito de todas as bocas. Terá mesmo vivido o meu idolatrar de instantes? Quando adormeceram as vozes de ontem? Quando se tornou inferno o bonito e lúdico menino que tanto era o que eu costumava ser? Mentirosas memórias que me trazem tempos e eventos de outras paisagens. Acumulo dentro de mim, de pura inveja e vontade, a vida que é de todos e nunca minha porque me poupei de sofrer porque sofre em vida o ser e eu seria sempre a criança com a fruta madura correndo através dos jardins. E ainda estou vivendo, embora ainda questione e perca, em vida, mais um momento de ser deslumbramento, vaidade e desconcerto.




Image by broda502

5 comentários:

Zélia disse...

Menina,"baixa o facho"!!! kkkkk

É isso mesmo. Vive mais aquele que questiona. Esperar simplesmente os dias passarem ou ser levado pela correnteza não dá vida a ninguém. Nós vivemos pelas consequências das perguntas que são feitas, especialmente, mas também das perguntas não feitas...

Germano Xavier disse...

São tantos pontos de vistas possíveis para se tecer um comentário, que no fim fica até dífícil comentar alguma coisa mais específica acerca do texto. Vai parecer que é mais uma desculpa para não deixar nada, mas não é.

Eu leio apenas e fica o texto em mim.

Sonhadora disse...

Cristo!

Eu fico uns dias sem vir aqui...que quando volto me dá vontade de chorar...imaginando tudo o que perdi!

:(

Como eu amo a sua escrita!

Vou pedir seu livro de presente pra uma pessoa! Acho que eu vou ganhar! Aí te mando um e-mail...

Eu preciso ter suas palavras em mãos..pegar e ler em toda hora e lugar!


E o texto de hoje? Meu Deus...quantas dúvidas...e duvidar em si já é deixar de viver por um instante!

Letícia, você é perfeita!

Amo muito seu trabalho...

Um beijo.

Biba disse...

tanta riqueza nesse olhar intranquilo, reticente, criativo. O que posso dizer de um texto como esse? Que arrebata a gente de um modo avassalador? Digo apenas: siga!

Beijo e carinho
Carpe Diem!!

Jéu disse...

Você me fez questionar sobre a minha própria cidade agora.

Será que enquanto questiono ter estado ausente no que já passou, perco o presente estando ausente também?

Por isso que acho que a vida deve ser vivida e não complicada.

Abraços Letícia.