21 outubro 2009

templários



Deus que me livre de dizer seu nome. Deixo tudo guardado. Certas coisas são sagradas e você tem dimensões verbais e discursivas que não me atrevo a reler. Guardo. Limpo suas cartas, limpo seus retratos. Na verdade, amo essas velharias pré-datadas. Um cemitério de lembranças. E protejo as inutilidades que amo. Não falo de você. Falo de mim. Nem todo poema tem entrelinhas, pois alguns se mostram completos. Ontem mesmo vi um poema passeando em minha rua. Tão exuberante quanto você no dia em que me disse que a casa estava fechada. Casa fechada, roupas vendidas e partilha de bens. Fiquei com pouco. Levei alguns trapos — minha terrível mania de manter sempre folhas amarelas ao meu lado. Levei também um sorriso sem graça. Engraçado acreditar que tudo um dia termina. Final de filme e uma sensação de que o mundo ficou vazio, longe, perecível. Sorriso sem graça e eu só queria mesmo um pouco de paz. Queria acordar e fazer meu cenário de novo. E corri pra arrumar novas casas. E você não faz ideia de quantas casas refiz. Casa casada, divorciada, casa mal resolvida, casa de avelã, casa de gente mais nova que meu filho que ainda estava por nascer. Refiz casas e refiz nomes e prédios inteiros. Também fiz incêndio e fiz novena pra ver sua casa aberta de novo. Foi tempo de me refazer também. Plantei tudo no meu quarto e, a cada passo em falso, lembrava de você. Tão meigo com cara de fugitivo. Sempre pedindo migalhas de mim. E dei tanta migalha que acabei ajoelhada vendo que o tempo não cura nada. Outro amor também não cura. Amar de amor, já amo e descanso ao som do violão. Amei você até o fim e deu certo. Teve letreiro e uma citação em homenagem a nós dois. Éramos tantos e profanos. Éramos arames farpados sem soldados nem armadilhas. Hoje somos casa cheia e jantar em ação de graças. Hoje você funciona e eu vendo histórias que ninguém quer comprar. Mas sou boa sim. Faço doações, colaboro, beijo estreito e longo e deito em meu curto movimento. Há poemas para você e para outros estranhos que bem conheço. Mas não sou de enganar. Amor mesmo, amor de doer e passar noite lembrando que amanhã vai ser dia de sentir-se igual, na multidão, rosto esgotado de cansaço e voltar ao trabalho, não guardo mais. Por nós e por todas as promessas, deixo respeito e também um pouco de vingança. Sou militante das causas perdidas, mas não sofro de graça. E sobre a qualidade ambiental, nada sei.



Ao som da Ani DiFranco.





Image by AnnWeaver

8 comentários:

Biba disse...

Deus, como é bom vir aqui. Como é bom te ler, Letícia e sentir essa sensação de preenchimento e não aquela coisa aguada que a maioria dos textos oferece. Você é de carne e osso e células e tudo o mais e assim são seus personagens: vivos e atentos ao mundo de dentro e de fora.

Beijo minha amiga
Carpe Diem!!

Mariah disse...

também me senti enganada quando descobri (da pior forma) que um amor não cura outro amor - não há equivalência entre amores. mas descobri que é bem melhor ter um colo para chorar...ah isso eu descobri.

Leo Mandoki, Jr. disse...

tenho duvidas de q o seu interesse tenha sido falar sobre o amor. Aliás, foi uma forma ilusória de narrativa, onde o narrador é colocado para segundo plano para salientar o amor, qnd na verdade a temática do amor é q funciona como enquadramento para o narrador se desenvolver a ele proprio.
beijocas

Zélia disse...

Devo concordar com o Leo(embora não costume meter o bedelho em comentários alheios :D).

A questão em "Templários", para mim se centra no Eu. Eu que falo, eu que ajo, eu que sobrevivo. Eu que sobrevivo, inclusive, ao amor. Antes de qualquer coisa, "Templários" é um novo retrato de um Eu pós amor finalizado, logo, o texto é um retrato de alguém frente a vida e o que ela nos traz.

Outra coisa com a qual concordo, é com a coisa do "amei você e deu certo". Disse alguém q não lembro que para "dar certo" um amor não precisa acabar em casamento. E mesmo q o amor acabe após um casamento( e muito isso acontece) não significa dizer q deu errado. E tudo q foi vivido e aprendido? Para onde vai? É como dizia Vinícius (esse eu lembro!): "que seja infinito enquanto dure".

PS:Essa casa aí da foto ta parecendo a minha. :D

Jéu disse...

Olá Letícia,

Foi uma grata surpresa encontrar seu blog por aqui.
Um dos melhores que já tive a oportunidade de ler e ver. Adorei tudo, desde a sua escrita peculiar e intensa, de seres humanos reais, até as gravuras e desenhos que acompanham os textos.

Meus sinceros parabéns pelo seu talento!

Grande abraço.

Marcelo Novaes disse...

Letícia,




Bendito violão a embalar as lutas & lutos.






Beijos,









Marcelo.

Germano Xavier disse...

Este é o texto perfeito.
É o que eu chamo de texto-faca.

Sonhadora disse...

Eu não tinha dúvida de que tinha perdido muito!

E cá estou...tentando recuperar :)

Perfeito, Letícia...



Beijos!