12 Novembro 2009
Preparo-me para mudanças acaso ocorram. Porque todo dia vivo de pensar que será diferente e, de um mero instante, percorre em mim o que tanto acredito ser vida e, no entanto, é esquecimento. Fora assim desde minha infância. Engano sobre engano e a mudez dos quadros que ferem as paredes de nossa casa. Deixo o tempo para trás. E ao soprar do vento pela brecha da janela, alguém canta amores na estação de rádio e eu me sirvo de olhar a estrada. Largando-me pela estrada como se quisesse mesmo me abandonar. Penso ser preciso dizer que o corpo cansa. Penso ser imediata a necessidade de ficar em silêncio e aceitar conselhos por fingimento e dormir enquanto há no mundo tantas coisas a fazer. Mas deixa que eu durma. Deixa que eu não diga. Que eu não exista. Sinto tanta falta de mim que preciso de um silêncio diferente do calar das bocas em minuto fúnebre. Preciso respirar e não estou sofrendo. É apenas a minha descoberta de ser templo e precisar da solidão e do ócio das luzes apagadas e ser o pó do incensário e me deixar inerte. Estou sempre tão agregado a mim. Que egoísta somos. Não nos largamos. E como poderemos viver se exigimos de nós a pressa equivalente dos trens urbanos e da violência grande de cidade cartão postal? Penso melhor com as janelas abertas e esse vento espalhando meu cabelo e há cidades menores que a palma de nossas mãos. Porque ofertamos nossa vaidade e não sabemos o limite de nada e nos acusamos. Estou farto e fico mais forte ao dizer que fraquejo. Eu me perco ao ler meus livros que compro aos montes e, em cada livro, eu me encontro. E não há terror algum nos contos góticos. Triste é ler um livro e embalsamar o que é arte dentro dessa necessidade ridícula de dizer que sabemos e entendemos o quanto sofria o autor. Como, absurdamente, me tornei tão oco? Terá sido o acidente? Todos nós temos tristezas que nos fazem morrer de espanto ou derramar nossos traumas em alguém. Por isso permaneço só. Não quero depender da lágrima de outro e sorrir ao fim do dia. Quero sorrir de mim mesmo e fazer passeio em minhas memórias e deixar que doam minhas lembranças e ver o mundo como portal de experimentar tantos gostos que minha boca não saberá dizer, de forma explícita, o que o mundo em mim tanto agita. Talvez eu escreva poesia. Talvez eu apenas durma. Por anos, minutos e esqueça a vida de meu vizinho. Sei que ele porta a mesma falsa indumentária que eu, mas deixa que ele viva. Deixa que ele grite com sua mulher e despeje dentro dela seus traumas e suas estúpidas gargalhadas de infelicidade. Eu não movo mais meus passos em direção ao portão. Deixa que eu me abandone. Que eu vá caminhando no caminho e seja como viajante que não procura tempo exato porque necessita viver todos os tempos e ainda ver todos os olhos. Cansei dos conflitos mentirosos e não há preguiça no que digo. Minha santidade é vil e, assim como todos os santos, há dia de descanso, e hoje não faço milagre algum. E ainda se move o carro. Minhas pernas estão dormentes. Não me queixo do estado de minhas pernas porque desfaleço e algo me faz sorrir. Um garoto na estrada veste camisa de time de futebol e vende frutas. É civilizada a terra e me engano ao pensar que estou partindo e indo de encontro a outro mundo não civilizado. O homem está por todo lado e não há canto onde eu possa recomeçar e viver e ainda fazer crescer meu novo estado e construir casa e fazer morada. Onde quer que eu vá ou deixe que repousem meus olhos, o homem me espera. O mesmo homem que fala no noticiário da TV. O homem aflito que me cerca enquanto caminho e já tentaram me levar até os sapatos. Fiquei tão irritado nesse dia. Lembro de ter tomado uns goles de conhaque e ainda um calmante e fui pra cama. Sofrer um assalto é quase um estupro. Não quero me alongar falando mal das cidades e de nossa civilização. Eu quero deixar tudo para trás. No entanto, me perseguem outros momentos e me recordo do rosto do assaltante. Jovem ainda. Um menino. Poderia ser meu filho e tinha um sorriso trêmulo e não portava arma. E levou tudo que eu tinha comigo e se alimentou de meu medo e, tenho certeza, ao dobrar a esquina, assaltou outro alguém. Em que mundo estamos? Falei alto dessa vez e o motorista olhou para trás, olhando meio torto, me achando esquisito desde que a viagem dera início porque, enquanto os outros falam, eu fico em silêncio e pareço mesmo ser superior. Mas é medo o que me rouba a face humana. É medo o que me transtorna. É medo o que me afasta das mulheres e largo emprego porque canso desse zelo infeliz de portar cicatrizes tantas e ainda sorrir em churrasco de gente que se acha bacana e absorve cerveja, alimenta a cegueira e, ao voltar para casa, morre de tédio em sua cama. Não sou assim. Não deixarei que o mundo me destrua. Eu mesmo darei fim as minhas tragédias. E parto agora e não sou mulher nem homem nem criança. Sou egoísta ao extremo oposto de minha ignorância.
Image by pesare





7 comentários:
[a palavra tem condão mágico, senão de se equivaler aos tremores da terra, aos pequenos sismos e abalos da dorida cratera, pelo menos ao desiquilibrio da derme humana,do desiquilibrio do coração tão sensato de tanta insensatez... a palavra não se escreve; é!]
um imenso abraço
abraçimenso
Leonardo B.
Como dizer o indizível: Você conhece os caminhos e trava sua luta com a palavra que vem e me escolhe no recôndido de mim.
Beijo e afeto
Carpe Diem!!
"Auto-exílio" é bem a cara do mundo de hoje. Vc, autor, diz em uma linha, não importa qual:
"Largando-me pela estrada como se quisesse mesmo me abandonar".
Muitas vezes, nos abandonamos. Eu acabo de retornar de "meu próprio abandono". Será que posso cobrar do outro se ele me abandonar também? Talvez, não! Mas eu cobro! Cobramos! E aí, aparece o nosso lado esgoísta que supera o nosso lado abandono. Cada um quer o melhor para si. Nem que depois terminemos mesmo é ficando sozinhos...
PS: Vc disse, vc fez. Como sabe fazer. ;)
Como comentar sem repetir você?
As palavras são tão suas...
E eu que achava que só eu vivia o absurdo de ter que "sorrir em churrasco de gente que se acha bacana e absorve cerveja, alimenta a cegueira e, ao voltar pra casa, morre de tédio em sua cama"...
e eu morro de desgosto, porque sorrir às 21h não significa que não vou chorar às 02h...quando as cortinas se fecharem...
É...não dá pra comentar seu texto...ele 'entra' muito particular em mim...
"Na vida, tudo é uma questão de arrumação e de bom senso. Se bem soubéssemos, a partir desse instante selecionaríamos as nossas amizades da mesma maneira que escolhemos as tintas que colorirão os cômodos de nosso lar. Selecionaríamos os gostos, se amar ou não, se querer ou não, se ir ou não, se ser ou não. Da mesma forma, jogaríamos fora as nossas desilusões, os nossos desapertos e desapegos, assim como descartamos algumas peças do vestuário. E viveríamos mais e melhor, sem distorções, sem desatinos".
Escrevi isso tem já algum tempo e coloco aqui. Talvez combine vozes.
Navegando pela grande rede sem rumo com a intenção de divulgar o meu blog, cheguei até você e gostei do que vi, tanto que pretendo voltar mais vezes.
No momento estou impedida de fazer leituras muito extensas, pois a claridade da tela do computador está prejudicando um pouco a minha visão, devo tomar cuidado. Em breve resolverei esse problema. Bem, já que estou aqui aproveito para convidar a conhecer FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... em http://www.silnunesprof.blogspot.com
Eu como professora e pesquisadora acredito num mundo melhor através do exercício da leitura, da reflexão e enquanto eu existir, vou lutar para que os meus ideiais não se percam. Pois o maior bem que podemos deixar para os nossos filhos é o afeto e uma boa educação. Isso faz com que ela acredite na própria capacidade, seja feliz e tenha um preparo melhor para lidar com as dificuldades da vida. Nós professores temos a faca e o queijo na mão, temos conteúdo para isso. Dá trabalho sim, mas nada paga a sensação do dever cumprido, faz bem para a alma. VAMOS TODOS JUNTOS PELA EDUCAÇÃO NA LUTA POR UM MUNDO MELHOR ! SIM, NÓS PODEMOS.
Se gostar da minha proposta, siga-me.
Peço que ao responder deixar sempre o link do blog, pois às vezes a mensagem entram com o link desabilitado ou como anônimo. Por causa disso fico sem ter como responder as pessoas.Os meus comentários também entram via e-mail, pois nem sempre a minha conexão me permite abrir as páginas: moro dentro de um pedacinho da Mata Atlântica, creio que mais alto que as antenas, com isso a minha dificuldade de sinal do 3G. Espero que entenda quando não puder responder. Os únicos sons que escuto aqui é o dos pássaros, grilos, micos., caipora, saci pererê, a pisadeira, matintapereira ... e outras personagens que vivem pela mata.
Por hoje fico por aqui, Espero nos tornarmos bons amigos.
Que a PAZ e o BEM te acompanhem sempre.
Saudações Florestais !
Letícia, seus textos sempre são muito agradáveis de ler. E gosto de lê-los como os leio agora, no silêncio, assim absorvo todas as nuanças das suas personagens. Este conto, por exemplo, lembra as dúvidas existênciais de um dos heterônimos de Fernando Pessoa, o Álvaro de Campos. Fiquei lendo e me lembrei de tabacaria, onde o destino do mundo - pelo menos na cabeça do narrador - é decidido dentro de um quarto. Foi assim que li seu texto, imaginando que as razões e desrazões do mundo se estabelecem assim, na cabeça das pessoas.
Abraços.
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