21 novembro 2009

inventei de amar você


Eu inventei de amar você. Tateando entre ladrilhos, fazendo agrado ao inimigo e querendo me sufocar. Uma serra sofrendo de tão cega cortando troncos de Baobás. E me acostumei a sua antipatia porque amantes nem sempre recebem as boas-vindas em elogios escritos em bilhetinhos ou presente que demonstre o exagero de amar. A vida engana ou nos enganamos e isso não é pergunta. É coisa que digo toda hora pra ver se acredito em algo mais. Hoje estou romântica e arrastei a cama e a coloquei bem embaixo da janela. Deito e vejo estrelas e penso em coisas exclusivamente minhas. Horas pensativas em que me perco e se, de tanto pensar eu de repente me encontre, é tão estranho saber de mim através de mim. Parece flashback de filme americano. E as estrelas estão por toda parte. Deixo a Adriana Calcanhotto cantar. E me espreguiço na cama e lá fora, buzinas, ambulâncias e a cidade em urgência. Quem me dera pudesse me levantar dessa cama e agir como agem todas as pessoas e me esbaldar de alegria falsa. Não. Prefiro ficar aqui. Meu quarto, um incenso e o tic-tac do relógio ainda consegue ser mais alto que o som que vem da voz da Adriana. Me levanto e troco a música e é um esforço enorme sair da cama e pisar no chão. Cada passo é uma eternidade. E ouço mais música. De todo tipo, de toda cara. O quarto quase às escuras e eu brinco com as mãos e faço aquela coisa de imitar imagens. Um avião com as mãos e a luminária é o spotlight e eu sou um coração feito de mãos. Veja só que mediocridade. O mundo imenso e eu aqui, figurante de uma solidão egoísta e vasta. Eu estendo a mão e pego o livro que não largo há dias. Leio poesia e tudo que leio é uma forma de auto-comoção. E há um texto de amor. E não sei por que quando se fica romântica como estou a gente perde o pedigree. E volto no tempo e fecho o livro. Você me desnuda e eu finjo que acredito que a sabedoria que você suporta é sua e de mais ninguém. Eu finjo porque quero agradar. E sabe aquela hora em que você comprou vinho e ficou feito idiota me procurando? Eu estava procurando taças. Só bebo vinho em taça. Mas acabei não comprando e acabei tomando vinho em um copo sem graça. Amor tem disso. A gente perde a identidade. E eu bebi que nem lembro e falei aquelas verdades que amargam o beijo. Eu caí no sono e você também dormiu. E não sei ao certo se você dormiu ou fugiu ou ficou me olhando. E ainda comi de um tacho de coisas que não gosto só pra fazer o que achei que seria certo. E inventei de amar mais e, em silêncio, eu observava seus intervalos de fim de orgasmo e chama que acende cigarro. E me senti um poço de ingenuidade. Não consigo ser como dizem ser outras pessoas que agem racionalizando tudo. Por mim, é verdade, não me importo muito com os resultados. É o momento que importa e todo o resto. Você, eu e mais nada. Porque a gente precisa de pouco e eu não gosto de espetáculo. E eu gosto de ficar lembrando da história toda como se pudesse trazer tudo de volta pra mim. Como quem comete crime e se arrepende e quer de volta a inocência. É assim que me vem agora todo o tempo que houve um dia. E ainda há tempo. A vida continua lá fora, outra música me amplifica, fumo dois cigarros e caminho ao banheiro e meu rosto é de sorriso. Me pergunto por que a gente é assim, tão vergonhosamente imbecil? Por que a gente transforma tudo em fim? Por que você sempre me esquece no dia seguinte? Por que você não me procura quando sabe que preciso viver um pouco mais de você dentro de mim?



Image by Caitlin

11 comentários:

Sonhadora disse...

Eis as boas-vindas para os meus olhos neste domingo! Um texo da Letícia!

Eu sou 'tão imbecil' que acho que tudo o que você escreve está me retratando em algum momento...
não é que não esteja...
está.
É que você nem sabe.

Amar é mesmo perder a identidade e mais um monte de coisas...

E engraçado que a nossa lucidez diante disso é tão rara...

Beijos, Letícia. Vou passar o dia pensando nas suas palavras ;)

Beto Canales disse...

Muito bom

Zélia disse...

Muito boa essa! E a gente inventa cada coisa...

Eu fico em silêncio. Só pensando...

Talvez esse questionamento todo que o amor nos traz tenha explicação e não seja "Cem-razão" como disse Drumond. Muitas vezes, eu encontro meu conforto na mitologia grega. Desde sempre o homem procura por respostas que possam lhe dar conforto. Nesta sabedoria popular milenar que ainda habita o incosciente coletivo, a culpa do infortunio por que passa nosso coração é dele. Do Amor. De Cupido. De Eros. Eros é menino travesso. Matreiro. Para se divertir, ele não hesita em atirar em um a flexa da atração e, em outro, a da repulsa. Daí o tormento por que temos que passar. Mas, no fim, ele só quer nos fazer passar do caos ao cosmos. Ou seja, da tormenta à paz que sente o coração dos que se amam verdadeiramente. O negócio é aguentar chegar até lá. Sorte de quem é mais esperto que ele...

;)

Fernanda Luz disse...

O romantismo...inventamos mil histórias, mil situações...e de repente tudo aquilo não faz mais sentido.
O romantismo tira a gente da razão..é bom...desafiamos nossa mente para criar o ambiente perfeito.

Abraços.....

.Leonardo B. disse...

[há na palavra imensas chaves para um desencontro! cantava Mário de Sá-Carneiro que
"Eu não sou eu nem sou o outro,
sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.",
que a Dona Adriana também soletrou... o que há no universo, que não se entenda, se os olhos e palavras o quiserem? Assim o ordenarem? Quem sou eu ou o outro?]

um imenso abraço, enviado com saudades incluídas!
abraçimenso

Leonardo B.

Thomaz Ribeiro disse...

A vida bem que podia ser mais descomplicada e não essa coleção de por ques irrespondíveis.

Eveline disse...

Sinceramente? Eu mal consegui dormir depois que li esse texto. Adorei, Letícia.
=)

Eveline disse...

É sempre difícil lidar com as verdades, principalmente aquelas que "amargam o beijo". Lidar com verdades é estar pronto para se encontrar. Encontrar uma identidade que acaba se perdendo nos braços do amor. Nos perdemos porque somos pessoas "daquelas que não racionalizam tudo" mas que vez ou outra vivem brigando com a razão. No final, como vc diz, somos imbecis e acabamos mesmo transformando tudo mesmo em fim...
Bem tem muita coisa bonita neste texto. Coisas que me surpreendem na sua escrita. Coisas as quais sinto e me identifico. Além disso que é latente em mim ao lê-lo, penso que o texto está muito bem construido, muito forte e muito simples... simples mas é um simplese que transforma as palavras lidas em complicação interior. Um texto para ser "lidosentido" e que faz doer a cada frase terminada. Frases com palvras que se desdobram em poesia interior. Esse texto é pra ser lido...ouvindo Cat Power ou Adriana Calcanhoto... lido ao gosto de vinho que amarga e que antecipa um filme da Isabel Coixet.
Acho que esse foi o melhor texto que li seu. Talvez não o melhor, mas o que mais me agradou. =)
Beijos e continue escrevendo para que assim possamos sobreviver.
\0/ Congratsss! =)
=*
Eveline*
*Ainda se recuperando da leitura!

Edilson disse...

Oi querida. Tenho pouco tempo neste mundo da blogesfera, mas fui totalmente arrebatado por tantos blogs que me fazem sentir um gostinho de intimidade bacana.Amei conhecer teu espaço e aproveito pra lhe fazer um convite, venha conhecer o meu também ok? www.lua2gatos.blogspot.com Bjao e linda semana.

Lepidóptero disse...

Adorei passear por aqui! Adoraria receber a tua visita. Queres conhecer Mo;ambique? Entao venha ver-me!

Germano Xavier disse...

Ultimamente venho falando sobre seus textos. E você sabe de como ando pensando e os motivos. As respostas são pontuais e demandam conhecimento de causa. Poucos são os que possuem a receita. E eu também inventei de.