12 outubro 2010

palavra



Palavra que nasce e vive enroscada ao Lácio e vibra como se fosse vidro ou dilacera em alturas o ouvido e agride ao deixar seu dono, ganha o mundo. Ela que, preguiçosamente se debruça em minha consciência, e incide — ora bruta, ora caduca — menina desavergonhada a me desequilibrar. Como se fosse nosso passo ferindo ruas, palavra caminha em linhas curvas, e o que entendo da palavra não será o que o outro entenderá. Ela ouve e me arranca queixas, ergue palco e dramatiza minha voz lírica de esconder-me e, falsa ainda, maliciosa palavra que me torna explícita. E, quando já adulta, madura a linguagem ao quebrar o tempo com seus diversos efeitos de contradizer-se, palavra sempre ousa ofender-me e vive a me contrariar. Dona de todos os momentos, palavra escapa ilesa de minha boca, golpeia outros falares, se esvai pelos ares e invade outros pensamentos. É mesmo um imenso túnel, belo esculpido e edificado que, vertiginosamente, se entrega aos absurdos do vento.



Image by Kath Bishop

5 comentários:

Beto Canales disse...

plac, plac, plac

Biba disse...

Tal qual o Beto, aplaudo. Do meu jeito mais quieto. Gostei muito desse túnel, estranho e ilógico...

Beijo e afeto
Carpe Diem!!

Priscila Milanez disse...

Às vezes, tenho medo de palavra!Mas é por ela que escapo quando preciso. Belíssimo teu texto!

Zélia disse...

Vc sabe que eu não sou de dizer que um texto é "lindo" mas sobre esse eu vou dizer: Lindo! Foi o que eu achei. E sei que a palavra é isso mesmo. É dona de si, reverssa, livre, diz o que não diz, diz mais que disse e ainda é capaz de se transformar a cada novo "olhar".

;)

Germano Xavier disse...

"Palavra,que estranha potência a vossa!", exclamou a escritora que morria ao terminar um livro. A palavra é um substrato da língua. A língua, por sua vez, é um ser vivo, mutável, não-estanque, contível e continente. A palavra vive, marca território, persiste, diz, significa, cala, grita, invade, cabe, fim?... Palavra. Que seria de nós, seres escreventes, sem a dita cuja?