07 dezembro 2009

antiquários



Faz chuva, faz sol, faz medo e faz-de-conta que somos parte da crença que se eleva da ponta de nosso nariz e se desfaz contra o vento. E seremos nosso próprio calvário, aniquilando pesares, equilibrando vontades e seremos também quem somos, em nuas verdades, e viveríamos a vida, todo dia, a fazer nosso reverenciar. E se espalha pelo corpo um espasmo quando somos interrogados a respeito do tempo e buscamos da retórica o que ela pode nos dar e cegos dizemos apenas do que nossa pobre vista alcança. Não violente nossa ignorância com suas demandas. Nós queremos nos rebelar. Forçar portas, almejar tudo e esquecer que nos apavora o limite entre o que há e o que verdadeiramente existe, e detestamos lembrar que perdemos nosso desejo, nossa virtude e nossa idiotice. Há muito perdemos nossa castidade. Nossa fé sofre aleijada e nossos quartos, temerosos cômodos nos quais a úmida poeira faz brotar fungos, espera algo de nós. E não há mais lençóis. E a verdade é flor que, ao mesmo tempo que nos alimenta, nos arrebenta por passados passos pesados presos ao calçar de nossos sapatos. E vejo no futuro, à porta do antiquário, em letras garrafais, a lisonjeira sentença de nosso diário e caduco esquecimento. Em anúncios seremos exibidos, violados pela liberdade que a terra nos permite e tomados pelo silêncio que nosso corpo ao findar de nós exige. Porque agora somos exemplares feitores de grandes obras, e amanhã, por não sermos exceção da história, nossas vozes se tornarão destroços do que já fomos e não mais seremos e, por vezes talvez relembrados, sufocados em álbuns guardados, sejamos belos retratos de um amarelo e sorridente presente que urge apagado pelas sombras e rastros do caminhar do tempo que nos esquecerá no passado ao estridente arrastar de nossas correntes.




Image by Galcha

6 comentários:

Beto Canales disse...

legal

Zélia disse...

Não sei se eu estou boa de comentários hoje. Tenho pensado e pesado muito sobre o que sobra de nós depois do cruzar de portas... Filosofia alguma me trouxe a paz que eu preciso agora. E descobri que arrastamos correntes também ainda estando aqui...

Júnior disse...

Eu fico muito feliz quando leio seus textos, pois me encontro muito em cada um deles... Sua maneira de sentir e de pôr no "papel" todas essas palavras que se misturam numa bela indefinição de gênero!

Sonia Schmorantz disse...

Talvez seja esta a nossa busca humana, um meio de eternizar-se, de sair dos retratos bem guardados, mas que ninguém mais olha...
beijo

Fernanda Luz disse...

Seu blog tem algo de maravilhoso: as palavras colocadas de tal maneira que nos fazem refletir, pensar...voar na imaginação...Parabéns pelos textos tão maravilhosos...

Germano Xavier disse...

Poema de uma poeta que poetiza o arrebate do cão puxado com o polegar. O cão preparando o disparo. Recolhendo a força necessária para o desquite. Pou! Pou! Tiros além de Columbine. Um texto rebelde. Sobre o despertar dos acintes nervosos e mentais. Ode em prosa para aqueles que almejam mudanças.