11 dezembro 2009

algarismos solitários



"Que culpa temos nós dessa planta da
infância, de sua sedução, de seu viço e
constância?"

(Jorge de Lima)


Do acorde ao instante em que adormeço permanece o desassossego que, embora tranquilize, ainda me arranha. E existe algo mais que a rede e o pescado, mais que o mar e o rastrear dos passos, mais que o olhar perdido de uma saudade, de um tempo. Existe algo que emerge em minha alma, de minha louca ventania que me alucina e me agride e, após minutos, permanece a vertigem das numerosas mãos que me invadem quando solitária sou mulher. Que eu diga todas as palavras e cante meus verbos, minhas orações, minhas culpas prediletas e todas as inquietações que não me deixam dormir. Eu penso em você. Não é lembrar. É pensar e poética a esmo. E adoro as horas em que você chega. Faço a cama, faço comida, fico amiúde feito música antiga. Velhas canções de rádio ou Nat king Cole que é pra acabar comigo de uma vez. Lembro do começo. Você veio e eu nunca mais consegui acreditar em vidente, cartomante e nunca mais li nada de irrelevante. Eu insisti em você e absorvo a verve que nos une desde antes até nosso primeiro segundo e digo que amo você, que te amo, que me arrebento toda por você. Escrevo a lápis no espelho e acho engraçado bancar a puta em uma história em que sou neo-romântica e assumida leitora de Nabokov. E nada me permite. E vou bancar a vítima. Fazer de você o diabo roubando a cruz, homem ruim. Ruim de ser visto, de ser amado e ruim de me alargar. Mas eu insisto e tremem minhas carnes em euforia quando vejo que me trai e volta sempre com sede. Eu aceito e faço drama. Minto como amo. Destruindo e engolindo seus erros e não lembro. Deixei tocar o telefone e nos queríamos tanto e eu exagero em meus movimentos de ir e vir. Nua ao redor de sua cintura sua mulher o beija e a boca morde a outra boca e molha o lábio e agita a cama, as paredes e a estante onde nos rasgamos e negligencio afetuosas formas de contato. Mulher santa que beija a boca de um único homem. E o sangue faz queimar nosso estrondoso balé de tanto corpo. Soma de um que atravessa o outro e ainda sinalizo quando me aproximo e digo que amo e minto tão bem como causo engano.




E faz algum tempo
Ouvi dizer de um livro
E da leitura permanece algo que me traduz.



Image by Heather Horton

7 comentários:

Mai disse...

É tudo isto e como doi, mulher... Meu Deus como você escreve esse amor. Eu vi lavoura arcaica...
Mas este texto me lembrou uma peça de teatro.

P.S.
Você é uma bomba atômica.
Mas aquela perna que voou era a minha.
beijo, Let.

Germano Xavier disse...

Um texto com um pé na literatura pop e outro na "romântica". Duas margens de uma marginalidade única, e impiedosa: o querer. Eu sempre invado a fronteira dos seus textos e acabo sendo eles. Por isso sua palavra é tão forte. Você sabe o que penso de tua escrita. Faço um retrato animador quando quem escreve tem por nome Letícia Palmeira.

Zélia disse...

Leio seu último verso e penso na verdade. Verdade que atormenta. Há quem diga que ela só existe quando eu(faço) e o outro concorda(r)mos com determinado fato. Assim, teremos uma verdade mesmo que não exista o que se entende e que se aceita por ela: a lógica resultante do pensamento humano. Talvez, tudo não passe de mentira mesmo e Verdade sejá apenas o que nos quis mostrar Jesus Cristo: a palavra de Deus revelada. "Tua palavra é a verdade", disse ele em João 17:17. Quanto ao resto, é o cuidado com o outro que se deve ter e a nossa integridade que deve ser mantida.

Vou passar a vez, quando a questão é dizer que você Escreve e Escreve...

;)

Thomaz Ribeiro disse...

"Sofre, Juca Mulato, é tua sina, sofre…
Fechar ao mal de amor nossa alma adormecida
é dormir sem sonhar, é viver sem ter vida…
Ter, a um sonho de amor, o coração sujeito
é o mesmo que cravar uma faca no peito.
Esta vida é um punhal com dois gumes fatais:
não amar é sofrer; amar é sofrer mais"!
Menotti del Picchia

Sonhadora disse...

Seu texto é uma tradução de almas...
almas que talvez você nem conheça, mas traduz em detalhes...


e LavourArcaica...

sem comentários!

Só vou dizer que deu uma 'gravidade' perfeita no sentimento do texto.

Maravilhoso, como sempre.

Beijo :)

Biba disse...

Tão bom te ler, Letícia. Enfim, encontro um momento para apreciar sua escrita.

Beijo e afeto
Carpe Diem!!!

Elcio Tuiribepi disse...

Oi Letícia, férias finalmente, portanto, voltei a ler o livro e estou quase terminado aquele tal poema. Tenho mexido nele de vez em quando, fico brincando de mudar as palavras e encontrar um melhor sentido para o que quero mostrar.
Quanto ao seu confessionário amororoso aqui...rs.. Muito...muito bom...algumas palavras de alguma forma me fizeram lembrar Chico Buarque, pois ele também é fera na arte de traduzir o cotidiano...
Valeu Letícia...um abraço na alma escritora...bjo