30 junho 2009

enquanto adormece o sonhador



E dorme o dia, cansado e entrecortado por fios de alta tensão. Com ele, no quarto ao lado, esquizofrênica pensa a humanidade. Esbelta figura rural metropolitana. Lança chamas de vontades e ardente em tantas vivas memórias que reclamam seus vícios. Oram suas meninas e ela não consegue dormir. Humanidade metafísica descontente acontece suja nas mãos do cobrador de ônibus, na boca banguela do homem de rua, nas rachaduras do tempo, dos minutos, nos exilados, esquecidos e poéticos dias de ontem. Abre os olhos, sem sono, soberba, observa os ares e exaspera em incerteza e ferve nas curvas das cidades, nas esquinas, no véu da noiva, no enfadonho escritor que perde palavras e no filme sem graça, sem audiência, sem bilheteria e quer sonhar a humanidade. Dentro da voz do povo, no olhar de quem suporta a arma e no medo de quem morrerá. Nos meninos doentes, em desequilibradas filas de gente e nas mãos do carteiro ela fala. A humanidade fala e não dorme. Assombra e, ainda viva, não abandona o homem que a declara identidade. A crua humanidade que fere a gente permanece de olhos abertos. Não dorme que há consciência pesada. Ama que há inflamação de vontades. Aniquila como a mãe que protege em exagero e evoca o demônio de dentro do múltiplo humano e fala forçando a máquina corpo que necessita existência. A humanidade não dorme. Quem dorme é o homem. E acontece o tempo enquanto as roupas se acariciam sedentas em nossos varais.


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28 junho 2009

26 de junho




"Ela põe uma música antiga. A sala se completa. Danger Bird. Neil Young incorpora-se às paredes, ao teto. O ritmo dá vigor às coisas. Estremeço. Não sei porquê. Não entendo ainda muitas coisas. Coisas. Coisas. Coisas. Cada vez que não sabemos designar algo precisamente, dizemos: coisa."

(Eulália Isabel Coelho in, Arremedo)



Querida Eulália,


Gosto de seu nome. Soa como nome de gente sabida. Essa gente que tem resposta pra tudo, sabe? Essa gente boa demais que não chega a caber nesse mundo. Você é assim e olha que mal conheço você. Trocamos palavras e eu, audaciosamente, lhe pedi que lesse uns textos que escrevi. Eu escrevo de forma maluca e, até hoje, não sei como você conseguiu ler tudo e ainda me deu de presente aquelas palavras tão certas que nem eu mesma sei usar. Morro de vergonha. Mas é a vida. Não sabemos de nós e por isso precisamos do outro.

Acabo de ler seus contos e, a cada parágrafo, fui pensando nessa força que faz a gente escrever. O que será? Será mesmo que estamos procurando desvendar mistérios ou segredar ainda mais essa vida? Eu não sei as respostas. E acho difícil que alguém encontre. Escrever é o moldar da argila, como li em seu conto Arremedo. E essa energia que os personagens nos trazem? De onde vem, Eulália? Estaremos nós tão unidas a esses seres que sabem mais que a gente possa imaginar? E por que criamos tanta sabedoria e não conseguimos pisar firme nessa vida? É tanto erro.

Eu queria mesmo encher você com uma bela crítica, dessas que a gente lê na Cult. Mas não. Consigo não, Eulália. Admito. Ando de cá pra lá cheia de livros e entendo narrativas, mas não enforco texto de ninguém. Eu recebo de braços abertos. Foi assim com a sua personagem Alba. Eu sou a Alba. Você sequer me conhecia e escreveu um conto falando de mim. Veja só como a literatura é divina. E divina de Deus mesmo. Ela sabe de nós, guia nossas mãos. Não, eu não sou espírita e também não acho que escrever seja psicografia. Eu acho que escrever é viver mais que duas, três, milhões de vezes. Em seu conto, vivi mais que pude. E engoli as palavras e me maravilhei. Porque muita gente tem talento, mas poucos sabem moldar a vida dentro de um texto que olha pra gente. É como diz aquele poema que me foge à memória. Seu conto me fez ver que tudo quanto é coisa ainda está por ser feita. E admito. Você é uma contista e das grandes. Tenho inveja não. Fico é feliz. Porque é fonte de pensamento e como é bom deslizar os olhos pelas palavras e encontrar Eulália fazendo vida.

E segui lendo O Imprevisto, outro conto seu, e uma tempestade de coisas me veio à cabeça. Tanta gente nesse mundo que eu queria ver no céu com diamantes. Não que eu seja psicopata ou tenha meu coração repleto de ódio e repulsa. Mas é que se torna cada vez mais impossível engolir algumas coisas. E como você disse: "Cada vez que não sabemos designar algo precisamente, dizemos: coisa". Então tudo é coisa. Mas você não é coisa e seus contos também não são coisas. Porque leitura, em minha opinião de leitora, é algo que nos envolve. Feito um lençol mesmo. Ou uma máscara. A gente, ao ler, precisa aprender a vestir o que é lido. Enxergar, reconhecer e aceitar. Não que eu aceite tudo que leia, mas é que tudo que é arte e recriação, é difícil de se ir contra. Não consigo dizer da maldade no que li. Só consigo dizer que, conhecer uma escritora, assim meio que em segredo, é como estar numa biblioteca gigante, no maior silêncio e descobrir um livro nunca lido. Sei que meio mundo já leu você. Mas essa é a minha terceira leitura de sua obra e estou feliz. Tenho problemas que são coisas, pessoas que são coisas e a vida que me impede, por muitas vezes, de dar atenção ao que é perfeito. Mas eu tive essa oportunidade e respondo como se fazia antigamente. Através de uma carta que vai por e-mail agradecendo por tudo e dizendo: Estou com você e admiro cada palavra que se liberta de seus personagens.


Com carinho,


Letícia Palmeira


Eu escrevo cartas. E essa foi escrita para minha amiga e escritora Biba. Talento único e voz de mulher.

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23 junho 2009

a carta de ophélia


Tenho piedade das centenas de pessoas que dormem ao frio, engolindo chuva e desamor. Penso nas coloridas manchetes de revistas e nas constelações de um céu distante. Será que perco tempo? Será que me perco? E ainda povoada está a minha retina pelas belas colinas onde o sol adormecia enquanto eu seguia. Metade de um dia por pensar e retornar ao que sempre fora meu. Tanto caminho. Tanto chão. O carro transpirava fumaça e eu decorava, palavra por palavra, sua oração. Por amor, este amor entregue, sôfrego e desprotegido. Por sua bela face e seu olhar de bando ágil e tonantes cores de afeto, transbordei cálice e me abandonei certa de que minha travessia era por você. Altruísta e pequenina, decidi pela vida dos errantes, risonhos e sonhadores. Romântica e cheia de vida, provei da chuva tardia, adoeci, morri e, entregue, dei meu corpo ao sacrifício nunca compreendido. E me dizem moderna. Não sou. Sou mulher. Deixo o modernismo para as senhoras donas de suas vidas. Modernos são os prédios que se acumulam em cidades. Moderna é a fome. A morte sempre será. Moderno é o dia, a dor, a nova alegria e moderno é o seu olhar. Constrangedor, me julgando, colhendo e furtando. Mal entendem estes olhos, que a vida fora por mim cerzida. Mal sabem que sou vaso trincado que insiste em abrigar as flores que de mim crescem benévolas. Mal sabem amores que se calam, que a vida é esta flor gigante que nos alimenta e nos dá asa e fogo nas frias horas. Porque a vida é queda livre e viver é espelho de outros dias. Moderna? Não direi. Sou o pensamento liberto e criança em colo de mãe. E ainda viajo? Ainda vagueio através de um céu que se embrutece em negras nuvens? Eu curo as dores de meus inimigos e alimento sonhos malditos e, se ainda respiro, é porque trago este amor guardado, sagrado e bendito. Aprendi que amor existe. Se verdadeiro, persiste. Se liberto, triste abandona o lar. E beijo com amor sua boca adormecida, silenciada pelo orgulho, e fatigada pela brutalidade que insiste em me ignorar.


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17 junho 2009

santo de barro



"Vejo a multidão fechando todos os meus caminhos,

Mas a realidade é que sou eu o incômodo no caminho da multidão."

(Chico Buarque)



Procurar emprego é o que tenho feito nos últimos cinco meses. Todo dia vasculho cada parte dessa cidade e, emprego que é bom, nada. Vai ver não passo de um azarado cuja sorte fez questão de me abandonar desde que nasci. Lá em casa, todo mundo tem emprego. Até a Vânia, a lavadeira de roupa. No nordeste é comum, mesmo que se tenha máquina de lavar, contratar uma pessoa que saiba lavar roupas de linho, redes, toalhas bordadas e tudo quanto for de tecido que a máquina possa estragar. A vizinhança é cheia dessas mulheres que andam equilibrando quilos de roupa na cabeça. Elas fazem uma trouxa — é assim que chamam a montanha de roupa que carregam na cabeça — e saem fazendo equilíbrio rua abaixo, rua acima. Elas sofrem. Digo isso porque, todo dia, enquanto tomava meu café e rabiscava o jornal inteiro em busca de um serviço, como dizia a minha mãe, eu ouvia a Vânia reclamar da vida, do marido, das dores nas pernas por causa das varizes e ela também falava da vida de todo mundo. Era lavando roupa e falando e minha mãe ouvindo e dando conselho. Dizia pra Vânia ir ao médico, pra cuidar melhor dos filhos porque, segundo a minha mãe, pior que marido bêbado, é filho bandido. Essas são as palavras de Dona Suzana. Ela é respeitada pela vizinhança porque, além de ser barata de igreja, ainda resolve problema de todo mundo. Ela costumava ligar pra esses programas de rádio que estão sempre falando mal do governo. Ligava, falava dos buracos nas ruas, da gente necessitada que vive esquecida e também conseguia remédio pra quem quer que chegasse lá em casa reclamando da falta de dinheiro e qualquer tipo de doença. Minha mãe poderia ser presidente do Brasil. Por ela, tudo se resolve com trabalho, uma novena, um cházinho de Quebra-Pedra e um bom conselho. Fico imaginando se a Dona Suzana fosse a presidenta. Não só existiria auxílio escola, como também teria fornecimento de água e pão bento no país inteiro. E lá no senado, nada de discussão. Todo mundo cantaria aquelas músicas de igreja, louvaria Maria e o Sagrado Coração e todo político seria obrigado a saber rezar o terço. Seria essa a primeira lei de Dona Suzana. E procurar emprego é uma desgraça e, pra completar, minha mãe é louca. Meus dois irmãos fizeram bem. O Cristovão seguiu carreira militar e casou. Tem três filhos. Haja coragem. Ele mora lá pelas bandas do Mato Grosso do Sul e telefona pra casa uma vez por semana e, quando pode, passa o Natal com Dona Suzana. A aleluia maior é o dinheiro que ele manda todo mês. Uma quantia razoável e minha mãe fica feliz. Tenho certeza que ela vai mandar fazer um altar pra São Cristovão porque, Graças a ele, Deus iluminou a vida dela com um filho tão bom. Cristovão se acabava de rir quando dizia isso pra ele. Sou meio irônico. Sempre fui assim. Dos três filhos, saí à revelia pra fazer graça da cara de todo mundo da família. Os parentes todos ficavam com aqueles olhares tortos e risinhos sufocados e diziam, de forma carinhosa, "essa criatura não vale de nada". E eu continuava zombando. Dos três filhos de Dona Suzana, a Eugênia é a mais quieta. Não sei a quem saiu, porque meu pai, até morto, ainda dá risada. Era um homem muito bom. Cuidou da gente com tanto esforço que deixou a família bem. Temos uma casa, a granja perto de Campina Grande e dois carros na garagem. Eugênia sempre chorava quando alguém falava de nosso pai porque a minha irmãzinha é sensível e sempre fora a mais apegada a Seu Justino, nosso pai. Dona Suzana chorava também, mas, como protege Eugênia de qualquer sofrimento, ficava firme e forte em sua viuvez. Doze anos da morte de Seu Justino e Eugênia ainda sofre. Minha mãe dizia que a filha chorava por ter bom coração. Eu nunca vi bom coração que agüentasse tanta maconha. Minha irmã saía pra faculdade cedinho da manhã, dizia que passaria o dia estudando e só voltava pra casa tarde da noite e mais encerada que eu em meus velhos tempos. Eugênia sabe o que é bom. Vive bonitinho, engana a Dona Suzana, e ainda dirige o melhor carro da casa. É... Procurar emprego é foda e minha irmã é uma sacana. É óbvio que não tive a sorte de cair nas graças de Dona Suzana. Criei muita confusão pela vida. Aos 14 anos eu não rezava, não estudava e comia tudo quanto era menina. Viviane era linda demais e, naquela época, fumar baseado era o nosso modo de acreditar em um mundo melhor. Dona Suzana dizia que eu só tinha amigo vagabundo e eu concordava. Estudar pra quê? Era fumo, música a Viviane se descuidou e acabou que eu tenho um filho com ela. E outro com Joana. Um menino e uma menina. Eu não os vejo. Dona Suzana me obrigava a visitar meus filhos e eu nunca visitei. Sei que estão bem. Viviane casou e tomou rumo. Conseguiu até estudar. Leonardo, nosso filho, já é um cara grande e eu teria vergonha de olhar na cara dele acaso o encontrasse. Eu nunca disse que queria ser pai. Não tenho coragem, nem jeito pra coisa. A menina se chama Júlia e soube que é tão linda quanto a mãe. Joana foi o amor da minha vida, mas deu bobeira e se acabou num acidente de carro. Na época não pude fazer muito por nossa filha. Aliás, só assinei uns papéis que a Dona Suzana deixou em meu quarto dizendo que era pra eu assinar. Assinei e Júlia mora com a avó, Dona Esmeralda. A velha nunca me deixou ver a menina. Era minha mãe quem me dava notícias dela sempre que visitava a Júlia, levava dinheiro e também, um pouco de carinho e assistência, já que não pude fazer isso. Vi umas fotos da Júlia. Minha filha é linda mesmo. Vai crescer bem e peço por ela e pelo Leonardo. Sei que nada significo pra eles, mas se tem uma coisa que a gente não escolhe, é família. E tentei tomar jeito. Procurei emprego. Saí de porta em porta e falei com tanta gente. Dona Suzana não se esforçou muito não. E eu entendo. Ela perdeu a fé em mim desde aquele dia. Eu bebi demais e era jovem e achava que o mundo era meu. Empurrei o pé no acelerador e já era. Seu Justino saiu voando pelo pára-brisa. Dizem que a morte foi instantânea. E ele estava tão feliz naquele dia. Tinha acabado de comprar a granja, fez um baita churrasco pra família toda e todo mundo tinha orgulho do meu pai. Eu também. Se existe uma pessoa da qual me orgulhe, essa pessoa é meu pai. Homem bom, sorriso grande e era bom comigo. Acreditava em mim. Dizia coisas, me aconselhava e nem encheu muito quando soube que eu iria ser pai. Lembro que ele me olhou austero e chamou pra conversar. Dona Suzana sempre dizia que meu pai acabava comigo de tanto que me apoiava. Minha mãe sempre achou que eu tinha nascido errado e parece que coisa que mãe diz, é sempre sagrada. E meu pai morreu e eu não pude ir ao velório, funeral e nada. Passei dois dias em coma e cinco meses no hospital. Perfurei tudo quanto foi órgão. Ninguém nunca me perdoou de verdade. Sempre me olhavam torto e me evitavam. Disseram que Deus havia me dado uma segunda chance. Não sei disso. Mas estou vivo e tenho o mundo pra ver. Não posso ficar preso ao passado, me lastimando. Preciso trabalhar e, quem sabe um dia, criar coragem e voltar pra casa e olhar bem na cara da Dona Suzana e dizer que a amo e que a culpa também é dela e que ela me esqueceu. Chorando agora, o homem traga de novo a fumaça da pedra, olha pro amigo e dá um sorriso fora de tempo e levanta. O chão, a calçada e a noite de São Paulo é tudo minha casa agora. Eu não fugi. Eu desisti de tentar caber em roupa que não foi feita pra mim. E seguiu largo e solto pela Paulista. Pé no mato, pé no caminho.


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15 junho 2009

desatino




"Amor?
Na saúde e na peste
Vestido ou sem vestes
E que a morte nos separe."


A criança chora e suja a roupa da mãe que agora machuca a criança que chora e pensa no marido em casa, bêbado, sem dinheiro, vadio, saco de lixo vazio. E mais chora a criança e a mãe ira à voz do tempo e há trabalho. A patroa acaba de entrar. Almoço pronto, mesa posta e a patroa é bonita. Mãos limpas e eu sou ordinária e feia. Pés escuros e há esmalte antigo em minhas unhas. O vermelho do sangue que escorre de minha serventia e sinto agonia porque a criança é faminta e me arranca leite e sou traída, mastigada, fenômeno apático da sociedade. E nada sei. Respiro em meu frio e úmido quarto e já não tenho mais a força de antes. Paralítica a mente e a minha voz. Respira a cidade e a mulher se sente nojenta, horrorosa, comprando roupa barata e ganha o dia vestindo camisas coloridas e o marido não percebe e bebe aos goles a intimidade da mulher. E que dia será o dia das pessoas como ela? Que dia será a sorte de tantas belezas estragadas pelo tempo, pelas horas e pela fuligem dos trens? E a mãe espanca a criança que chora por raiva e ódio e não entende o homem na TV. E não foi à escola, não houve tempo, barriga cheia e bêbado vadio, trocando pernas pelas ruas imundas que abrigam a casa da mulher. E mais chora a criança e mais castiga a sua mãe e o pai castiga a mãe da criança e o mundo castiga os pés dos andarilhos que observam, e cegos, nada veem. A patroa de novo, outro dia, tempo oco, chuva molha roupa e ela vai ao trabalho e leva a criança e recebe o salário e há sindicato que a defende. E minha casa? Quem irá romper a embriaguez? Quem saberá que amo a criança? Quem saberá que ontem chorei também? E não há culpados ou inocentes. Espanca a mulher o marido a criança que chora e cresce apavorada por não ser ninguém.


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12 junho 2009

a semântica dos pinguins



"I could never take a chance
Of losing love to find romance
In the mysterious distance
Between a man and a woman."

(Paul David Hewson)



Tão bom ver a lua e saber que você estava por perto. Alguns passos e daria de cara. Bom saber que tem sempre um caminho. E que seja de pedras ou que raios caiam ou que se perca a palavra. Bom mesmo é esgotar o minuto. Encher o que não é completo e esvaziar o pensamento. Na verdade, do âmbar ao misticismo que nos encobre, vivo bem. Aguento meia hora de solidão e, um passo apenas, entro em um paraíso qualquer. Cabe a mim realizar seus sonhos? Dorme de bruços? Eu durmo encolhida e não há sonoridade porque me aperto e deixo metade do espaço pra você. Depois de meia dose e meio medo, sou eu mesma. Pode rir. Falo sério. Tão sério que fico até vermelha. Eu corada andando ao seu redor. Romântica estátua grega ou um violão daqueles bem grandes. Tenho mais tarraxas que o violão do João Gilberto. Mas se preocupa não. Sou Bossa Nova apenas quando sinto que meu astral anda meio Leila Diniz em depressão. Quando quero ser o que penso que você deseja, desço as escadas correndo e recebo você no portão. Maluca, desajeitada e você ouve a Erin quebrando jarros dentro de casa. Meu humor de temporada. Um dia sua, outro pé na estrada. E minha estrada é você. Estrada que conheço. Esqueço detalhes que me repelem quando estou meio racional. Posso ser racional. Novidade. Sou racional. Romântica racional. Debruçada, observo o objeto que se movimenta pelo quarto. Você é o retrato natural que tento congelar. Permanece em mim a sua imagem indo embora e querendo ficar. E o tempo frio me deixa Marlene Dietrich. E você sabe. Me conhece. Sou palco e contratempo e me perco em sua nuvem de parâmetros violentos. Na verdade, verdade existe? Eu sempre fui aquela pintura que se escondia no fim da tarde. As nuvens sempre escondem algo. Quando não o sol, escondem estrelas, o romantismo dos átomos e o seu rosto. Não quero lembrar. Prefiro ser escondida como faróis antigos em terras antigas e sofrer muito mesmo como uma menina romântica porque o filme não teve final feliz. Compro jornais e corro na chuva. Sou mesmo a agulha que lê seus discos. E ontem desenhei uma florista atravessando a rua. Sempre busco aumentar minhas palavras porque um livro não esquece. Livro é um conto que se esticou. E você é um livro eterno. E esse é o meu momento subjetivo. Amanhã acordo despertador, liquidificador ou pinguim de geladeira. O poema que beija as mãos que contornam a letra.


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