27 agosto 2009

mísero eloquente



Não sou fidalgo, sou de outro algo. Talvez um alaúde, talvez ostentação. Plangente palhaço sem riso, sem brilho e remota cidade sem civilização. Perco o passo a saltar entre as vielas de curioso que trago entre tantas cenas o meu olhar inquisidor. O mundo não me cala e as senhoras de enormes olhares não me amedrontam. Eu as afasto com meu nobre erotismo porque de meu caminho arranco todas as culpas e fardo algum trago comigo. E todos verbalizam suas soluções como se fora eu um fantoche posto para recriação. Renego todos que me tocam porque crio minhas curas, minhas denúncias e medo só existe se houver outro ser ao meu lado porque me divirto estando só. Pescador de rede tamanha de todos os peixes e, de todos os mares, sou herói. E Helena me traiu burra menina. E de quimeras é feita a vida assim como o pedestal de onde ergo minha fonte em todo o horizonte e minhas ilhas são vistas a olho nu. Engraçado é esse traço de invenção que me fora dado. Embora fantoche me denominem as vozes humanas, liberta está minha primeira condição. Viver de cara livre e ser alegre ao modo de ser triste escrevendo lábaros livros e fazer crescente minha criação. Sem mim não há mundo e trago entre as palavras a prova de meu talento que é único, singular e adjetivo. Vadios são os outros. Sou escritor de livros e crio o que do lixo ímpio se esvai. Na verdade, invento misérias para alegrar a triste sorte dos pobres poetas. Não sou fidalgo. Sou trapo rasgado e esquecido entre tantos algos que fingem como eu.



Image by luisa m. kelle

18 agosto 2009

horário de brasília



Jovem ideológico, graduado com louvor, orgulho da família, destaque em porta-retrato de estante, sorriso de tom natural. Aos 26 anos e o futuro tão perto acenando seus dias de ouro e viagens ao exterior. Jovem orador da turma, elegância em dia de formatura, aquiescência de seus ancestrais. Mestre em pós-doutorado, vias de fato, um batalhador. Mas, o mundo que gira ao contrário, faz jovem honesto encontrar, à face da peste, pivete assustado que dispara certeiro fim no peito do rapaz promissor. E essa ironia sem serventia bagunça a vida, desidrata alegrias e amontoa de medo quem ainda acredita que o vento mudou. Logo, ao passar dos dias, em manchetes esquecidas, à justiça cega e tartamuda, o tempo ruiu. E, para família do jovem, morto sem glórias, sem pé nem cabeça, finda a história do Brasil.



Image by luisa m. kelle

07 agosto 2009

semânticos



"Não sou eu, mas sim o perfume
que em ti me conserva e resume
o resto, que horas consome."

(Cecília Meireles)



O fogo cruza o abismo de tantos eus e ergo a face justaposta em claridade que me espanta de amor e encanto ao vibrar meu canto e celebrar quem amo indigno de minha vontade. Se ora enxergo o que há em mim de tão bendito, vejo o aniquilado destino em fugir de tua força que era amor, agora exército. Armas contra mim, elemento vulgar de múltiplos trópicos, e morres febril em falsa túnica de minha outra espécie. Espalhas em sombra, em linha reta o verbo de esclarecer dor que tanto impacto me causa e que constrange a verdade que meus olhos não enxergam. Ora me tens amor, ora oposição. Ora castras minha voz, ora explodes em mim o orgulho feroz dos amantes. Ora corados estão nossos corpos, ora a terrível nuance de um despertador. E não importa se me cortas. Sobrevivo ao sangue que apavora as ilusões.


Image by Amélie Robert