26 setembro 2009

a sombra e a prece



Do panorama aos edifícios, escolho o que me causa risco. Gosto de assombrar-me. Gosto também de ressaltar solidão quando deliberam-me companhia. Ah, que bela é a vida sob a cegueira da qual o sol se desmantela. Hoje, exata hora em que escrevo, lembro-me; roguei pragas à costureira, ao sapateiro e ao plebeu de nome rude. Tantos anos agora e não há quem diga que surtira efeito minha vernácula mesquinha que fez de mim triste e equivocada sombra em acúmulo de tudo que por tempos disse. As pragas caíram sobre mim. Não ando; arrasto-me. Não falo; balbucio. Não amo; aleijados sentimentos cercam meu olhar. Não politizo; monarquia perdida na história. Não planto, não colho e, ao que me resta de contento, semeio maldade que é a única coisa que me alegro em fazer. Velhice enrugada, beleza engolida pelo tempo e, de agora em diante, aos velhos e sujos padres e oradores cristãos, servirei meu corpo de alimento para que roguem a mim o bendito perdão. E descanso em paz porque a vida é longa demais aos que dela fazem diversão.



Image by Slawek Gruca

24 setembro 2009

artesã de ilusórios



Um belo dia decidi que escreveria um livro. Em minha imaginação, tudo seria simples. Uma capa, muitas folhinhas cheias de palavras, muitas idéias para a capa, contracapa, prefácio, muitas imagens e eu poderia publicar um livro, plantar uma árvore e viver feliz com meus botões. Mas o quadro foi bem diferente do que sonhava minha mente infantil. Em fevereiro de 2009, eu já estava com todo o material que seria publicado e saí em busca de editoras. Recebi orçamentos, muitas palavras de encorajamento, oportunidades de ter um livro meu publicado e divulgado via internet. E eu só queria o livro pronto. Nada mais. Um livro com as minhas palavras que ora vêm trocadas, ora consigo deixá-las na linha. E, com a ajuda de muitas pessoas, fui tecendo o livro. Entrei em contato com a Editora Universitária, aqui em João Pessoa mesmo, e o editor me disse pra enviar o material por e-mail, com as devidas correções e, em um passe de mágica, o sonho seria, de uma vez por todas, concretizado. Eu não sabia como funcionavam questões editoriais, prazos e muitas viagens à editora pra ver o livro sendo construído. O livro Artesã de Ilusórios nasceu de um conto, narrativa, texto que traz o mesmo título. E, na procura por uma capa que vestisse bem o que eu havia escrito, enviei um e-mail à artista plástica Jô Cortez que, prontamente disse poder fazer com grande alegria uma tela que ilustrasse meu trabalho. E, no meio do caminho, encontrei uma pessoa que se dispôs a me ajudar. Logo, passei a enviar e-mails. A querida amiga e escritora Eulália Isabel Coelho (Biba) aceitou de boa vontade e grande generosidade ler o material que eu enviei e escrever algumas palavras que ilustrassem a contracapa. Palavras que já receberam muitos elogios dos poucos que já estão com o livro em mãos. O prefácio não poderia ser escrito por outra pessoa que não a Zélia Maria, especialista em Literatura Anglo-Americana, grande amiga com quem falo a respeito de literatura, falo de meus textos e ela me ajuda a ver onde preciso refazer palavras e consertar pensamentos que não ficam muito claros quando escrevo. E corri com o tempo pra fazer tudo como deve ser feito. Diagramação da capa, do livro em si, revisão, outra diagramação e assim por diante. Foram muitas revisões, releituras, muita organização e fé para que a Artesã existisse no plano material. E, em outro belo dia, o editor José Luiz disse que gostaria de levar meu livro à Bienal do Livro no Rio de Janeiro. E fomos. O livro e eu. Pude estar lá, ver a reação das pessoas ao tocarem o livro, fiz amigos e fiz mais fotos do que se fosse dia de casamento. Eu digo que foi um pré-lançamento porque haverá outro lançamento aqui em João Pessoa, cidade onde moro. Já recebi e-mail de amigos querendo adquirir o livro em questão e decidi escrever no afeto e dizer que sim, podem adquirir o livro entrando em contato comigo. Eu bem queria ter escrito uma página só de agradecimentos, mas esqueceria alguém e isso seria injusto. Tenho muito a quem agradecer. Vocês que, desde sempre vêm ao afeto, leem o que exponho e me encorajam e me fazem, cada vez mais, seguir adiante. Pretendo escrever por muito tempo. Mesmo que esse muito tempo seja apenas um raro instante.

E para ler Artesã de Ilusórios (204 páginas em papel pólen e tamanho normal) basta entrar em contato comigo, enviando um e-mail para leticiapalmeira@gmail.com. E ficarei mais feliz, autografando livros para os meus amigos escritores e pensadores do mundo virtual.

No fim das contas, que é ponto que agora chego, estou feliz. É gratificante. E sobre o conteúdo do livro, adianto que tentei fazer do artesanato, palavras.



18 setembro 2009

amor de ética



Quero amar cara de alma e corpo na mão. Amar doente morrendo toda, agonizando clemente, fazendo simpatia pra dizer que tenho amor. Chamar curandeiro que me faça desistir e voltar a amar como marcha à ré de carro automático. Doente de amor e vadia. Fé torta de minha língua em pescoço de amor e amar de ferro, fogo e pontapé na rua quando o amor esfria. E se esfria, quero amar mais cara e veemente. Amor de idólatra, romana, esquecendo de mim e amando Deus, somente Deus, e amando tudo. Até as sujas e simplórias mãos. Amar de vagabundo dormindo no chão e rir tonta de mim mesma porque amar me faz rir e abrir flores e ler em voz alta cartão clichê que diz que ama. Me deixa amar mais cara o seu signo, sua voz e a fome que tem de tanto procurar velas no cais. É tudo vazio e amor só há em mim porque sofro de amor e repudio padrão e não caio na boca grande que diz mal de mim. Eu amo imenso de corpo e talos de tudo quanto é flor que existe. Amo mais que mãe quando o filho vai embora dizendo que não volta e não olha pra trás. E você me perde porque não sabe que amor é doença boa que acomete de tristeza e crueldade tudo de um tempo só. Amor meu é copo cheio entornando água e relógio contando minuto que já passou. Amo largo em farto tempo e, se morre o amor primeiro, amo outros tantos mais.



Image by radina

10 setembro 2009

curta metralha



Túrgida amanheceu Dona Maria. Ao pé da letra, cheia d'água, que a casa dela ficava ao pé do barranco e a chuva, que é boa na seca, fez mal à Dona Maria e levou tudo que ela tinha. Fogão, geladeira, colchão e um monte de imagem de santo. Levou as paredes da casa também. Que a casa de Dona Maria era feita de papelão, resto de casa de gente rica e um pouco de barro que era pra dar liga à mistura da casa de Dona Maria. Quando fez a casa, ela ficou feliz que nem gente. Encheu as paredes de retrato dos filhos que se debandaram pra cidade grande. Para Dona Maria, cidade grande era chance de outra vida, melhor, de sustento, de boa coisa abastecida. Era sinal de vida ganha. E Dona Maria sabia, através do diz-que-me-diz, que seus filhos vendiam pedrinhas e faziam arte no sinal de trânsito. Dona Maria sentia orgulho que seus filhos eram artistas. Mas essa parte não fez notícia. E era manhãzinha quando a chuva decidiu levar tudo que era de Maria. O barranco desmoronou. Dona Maria acordou com um tronco de pé de árvore dentro da cozinha e chegou o recém-formado repórter querendo exibir sua fome erudita e enfeitou o dia de Dona Maria declamando em retórica a tal palavra desconhecida. Túrgida estava Dona Maria. E a senhora de muita idade e muita vida sofrida sabia nada da tal palavra bonita. Sabia apenas que teria de refazer a casa, catar mais papelão e dar um jeito de encontrar sua vida que ali seguia fugindo com a água da chuva que leva tudo que é mundo desde o alto céu até o triste chão.


Image by W. J. Solha

06 setembro 2009

pátrias



E nada mudou. Sempre espero, de ingenuidade que sofro, que algo de novo aconteça. Que portas se abram de forma mais obesa — exageradamente escancaradas, porque de frestas já basta a vida que espanca a rotina que dela nasce criança e cresce adulta a caducar. Ainda vejo praças e o caminhar da gente. Chafariz ateando água em meu fogo e que sufoco viver do lado oposto onde nada acontece e tudo que fora vivo fenece de poeira e esquecimento. Quisera eu viver ao vento. Ser poeta ou enamorado das coisas de simples aspecto. Mas adoeço todo dia desta agonia de ser complexo. E novamente à espreita. A vida não nos respeita e canso de falar. Amarguras tantas sofro e calcifico minhas devotas multidões de mim. Caço à margem dos simbolismos minha identidade que fora tão minha e nunca furtada e é verdadeiro o medo de cada um. E alcançou-me a mudez atônita da verve. Enclausurado não é somente aquele que adormece entre quatro paredes e grades em pequena janela de onde o sol ensaia humilhar. Sou também prisão de órbitas e minhas poucas e parcas alucinações não me fazem mundo. Apenas solidão. Se me demora a alegria que é dita pela vida, a tristeza vem a mim forte tenaz feito pássaro de voo raso que me faz mergulhar fundo ainda mais em meu deserto. De olhos maciços o exército vem ao meu encontro. O confronto não é brutal, embora ecoe em mim aversão que se nutre de minha vertical masculina fonte. Debruçadas nos degraus de minha casa, elas se armam. Sorridentes entre meus pertences, elas me ameaçam ofuscar. Penitentes de tantos santos oram minhas vidas antigas que me fazem vivo enquanto existo. E se aproximam a me esnobar. Acordo em grito de flagelo, abraço a mulher que tenho e meus filhos dormem no segundo andar. Essas memórias de ontem me inquietam e não vivo do presente porque glória não há neste tempo de agora. Minha mulher não entende a vida que um dia deixei passar. A vida que tentei sufocar de tanto tentar esquecer. E me julga louco? Portanto, declaro óbito de minha lucidez e ainda à espreita a vida a me desgovernar.



Image by pesare

01 setembro 2009

o revés do anzol


Será que se pode ficar ainda mais vazio? Vazio de sentido, de espírito, de significado? Será que chorar faz mesmo tão bem assim? Sempre aquela voz de compaixão dizendo que chorar faz bem. Chorar liberta. Então vamos tratar de chorar só pra ver se vale a teoria, se realmente funciona a crendice e chorar até raiar o dia. E o azar realmente existe? Onde mora? Onde decora seus truques e quem ele escolhe primeiro? Finas perguntas — parece mais coisa de criança. E talvez seja. E a paz? A paz das brancas passeatas. A paz de fim de filme. Quem criou? Que dimensão tem? Tantos precisam dela, mas parece estar sempre ocupada. Parece que perde sempre a hora e quando chega, já é fim de carnaval. Vai ver a paz goste de chegar por último, chamando atenção de bandeira e lenço na mão. E as promessas? Quando quebradas, são odiadas. No entanto, no meio do tempo, quando completas, perdem a graça. Promessas são perfeitas — sinceras ou não. O dia se completa com uma bela promessa e já somos felizes. Promessas merecem respeito. E a tristeza? Já que alegria existe, por que não sua companheira? Por que fugir de ser triste? Um tempo, um século de minuto, um intervalo de luto. Nada arranca tantos pedaços assim. Ficar triste é saber que o oposto existe. Ficar triste é saber que esperança não é tolice. E vem sempre a multidão mentindo alegorias e fazendo zombaria dessa vida. Nada melhor que provar o veneno e depois sentir a cura em seu antídoto. É o revés da nuvem e do anzol. Viver é quase isso. Uma criança aprendendo perguntas, uma senhora carregando vento em sua sacola e gente passando dentro de um trem.



Image by immacola