29 outubro 2009

embarcações



Tudo há de passar, Eulália
E teu nome de poesia
Há de suportar
A eufórica urgência
Com que a vida nos faz caminhar.



É apenas mais um dia frio de vastas tempestades. Ouvi alguém dizer isso, lá de longe, como um eco entre as montanhas. Um soluço e tento dormir. Se servir de consolo ou até como auto-ajuda passageira, também não estou lá essas coisas. As sete maravilhas do mundo e não estou entre elas. Sempre um lugar para se visitar. Daria tudo — esse tudo que quase não tenho — só para enxergar as pirâmides ou fazer parte da história e tocar o busto que adormece no Père-Lachaise. Tantos dormem e tenho insônia. Mas comigo é assim. Não é aquela coisinha tímida que um chá de camomila possa resolver. É insônia mesmo. Não durmo. Tanta cogitação. Ontem mesmo tentei assistir ao filme que tantos me recomendaram. Assiste porque é cult. Preguiça de andar, preguiça de controle remoto, preguiça de legenda, preguiça de tentar entender. Então tentei um livro. Tem sempre um livro na escotilha de minha embarcação amotinada. Não li. Comecei e parei. Era algo sobre um jantar comum. Era um livro do Guy de Maupassant. Que descanse em paz. Mas não quis entrar em outra atmosfera. Era um caracol na cerâmica. Querendo ficar quieto, em silêncio, escondido. Mas nada chama tanta atenção quanto um caracol na cerâmica, no piso que, de tanto brilho, já se torna espelho. E caminhou a noite assim como outras noites e pensei em amores e sofri vertigens. Queria estar viajando de avião. Destino desconhecido. One way Ticket e ainda ouvindo Ticket to Ride. Mas não estou abandonando você. Só me sinto como se sente aquele que diz que o fundo do poço é escuro. E acabo de descobrir que não é tão escuro assim. Estou aqui, bem no fundo. A típica parede de tijolinhos aparentes, a água gelada porque é tão parada a coitada. Um pequeno lago gélido dentro do fundo do fim. E vejo cores. Minhas mãos têm cores. Minhas roupas também. Não me largaria assim no fundo do fim sem roupas. Essa é a minha dignidade. Sempre espalho meu corpo, mas me preparo. Um pára-quedista antes do salto. E entre cores e o lago que me molha os pés, sinto que encontrei meu semelhante. Sou eu. Sou igual a mim. Futuro mito sem rito, sem hino, sem procissão. E um dia alguém diz que as janelas nem sempre ficam fechadas. Inocentemente eu acredito. Acredito em tudo e por isso eu digo que hoje, no fundo do fim, caracol solitário, o vento que não atrasa, não abandono você. Aquela história de adeus e lágrimas não é a minha teoria. É só um dia e dias passam e ainda penso em comprar um pouco mais de fé e ter alegria. Acredito que sou otimista apesar de ser quem sou. Espero o tempo me curar e ainda acredito que todo esse caos comovente me ajuda a respirar e nado contra a corrente. Eu e minhas embarcações.




Image by Rovi Jesher

28 outubro 2009

in natura



Amar e armar a esmo, torcendo dedos e masoquismo é enredo e me machucas que ando nua nas ruas de minha infância. Praga de ingênua horta de tuas mãos cultivar. Há em mim o que de fato existe. Homens escravos e a história de meus país. Manchetes em meus ouvidos e eu com isso? E eu com o mundo? Torta fêmea feita de horas e aborto beijos calculados. Quero susto e que me corram deuses e demônios em minhas veias de mulher pedinte e sedenta. Transito de dia e, à noite, hemorragia é a vontade que me guia. Não colho absurdos coitos de homem que sente medo. Já ouvi de todos que medo nos encolhe, então, ágil, espalmo o piso e ele se curva e ele faz de mim a fenda por onde se vê que trêmulos dizemos amor e há pornografia bela dita em nossas línguas. E assombra a hora de ir embora e não me deixa o homem que elabora. Homem vasto de tanto espaço e sou a sombra do que ejacula tua obra in natura. Em instantes. Minutos em caos de eternidade. Sirvo em ritmo alfabético, ereta e discreta, e declaro o que poesia não diz. Estou vaga feito lâmpada acesa enquanto caminha mais um dia e diga você o que deseja. E diga você o que espera sentado à porta de casa cruzando braços enquanto espalho meu corpo em sua cama doente de tanto sorrir. Meu feminismo é entregar-se. Coragem é deixar-se larga, sorrindo feito menina, enquanto te ergues farto e composto trajando tua face de covarde. Minhas mulheres trabalham mais e eu alimento animais. Estes cegos e amedrontados verbos passivos que habitam em ti.




Image by blind-awakening

27 outubro 2009

adormecidos



Engraçado como tem gente que sente falta de si mesmo. Saudade vazia que nem mesmo o espelho do banheiro consegue acalmar. Essa gente vive a procurar sinais que provem a existência, o violento transformar da alegria em tristeza, o acordar do tempo e a natureza que se faz assumida trem da vida e leva todos nós. É como se sentir anestesiado. O corpo existe, mas falha a voz e a verdade não passa de um contratempo. Como provar que ainda se está ali? Na sala de estar, no quarto do filho, na casa de amigos? Como voltar a se sentir vivo? Tonalizar fios brancos, enfeitar a casa para um bando e fazer digno o realçar das incertezas? Não há nada mais triste do que a busca de si mesmo e ver que tudo se foi. Já se partiu e agora o ser que habita a gente não passa de uma obra decadente que o tempo esqueceu de enterrar. Melhor viver logo o dia de aniversário e se deixar envelhecer. A perda maior é o esquecer de si mesmo. A gente se esquece no rosto de alguém, vivendo outra vida, lavando calçadas ou apagando marcas, cauterizando outras dores enquanto há fome de tanto e por tudo que se sente. A gente precisa viver. À tortura ou à plena felicidade absurda. É bem melhor que se viva. Antes mesmo que o cenário mude e a saudade se torne moribunda. Não há saudade maior do que essa que a gente sente de si mesmo. A gente, de repente, se torna o produto com prazo vencido.



Image by jasinski

22 outubro 2009

moinhos de um caçador



E meus olhos cerrados ao abismar-se minha constatação. Onde se perdeu a fruta madura colhida da árvore dos quintais de minha eterna vida de antes? E o sumo da fruta que escorria de meus lábios e brincava em minha garganta que hoje não mais canta e quando cessou de ecoar minha voz? Em que lugar de todo o universo esqueci minhas ideias, minhas aflições de jovem que era e meus planos que tanto refiz e eram sensatos e teriam por fim a glória? Onde estancou minha palavra que era dita de lado a lado em ruas e todos ouviam minhas vidas porque eu acreditava enfim. Por onde, nesse mundo vasto de todas as sedes, se esconde minha luz que era eterna e eu abria janelas e meus olhos avistavam terras e madura gente em que eu costumava acreditar? E as esquinas de meus pensamentos? Onde irão dar agora que minhas imensas dúvidas habitam o cume de minhas irradiações? Qual o dia certo de confronto entre o eu que sou e o eu que era tão diverso em credos que mesmo colhi em tantas idades que vivi? E a mulher que amo? E o homem que canto? E o abrasivo costume de andar ao vento olhando ao redor e ser pacifista entre guerras alheias? Onde vai dar o tempo que esperei? Ora, mas tanto costume criei. E os alfinetes com os quais minha mãe prendia seus longos vestidos e nos alimentava de seu ofício? Onde a vida irá estar? Será nostálgico o momento em que repousam nuvens na enorme tela em que acontece o sol? Nostalgia não passa de mentira que me faz imaginar vidas das quais estive ausente porque sempre estive ausente querendo viver mais. Invento quintais e amores e livros de tantas bibliotecas de minha pequena cidade que era eu. Eu era minha própria cidade. Meu sítio. Meu estado amplo de toda bandeira. Meu regionalismo era rico porque, de todos os lugares, tive o sopro e o hálito de todas as bocas. Terá mesmo vivido o meu idolatrar de instantes? Quando adormeceram as vozes de ontem? Quando se tornou inferno o bonito e lúdico menino que tanto era o que eu costumava ser? Mentirosas memórias que me trazem tempos e eventos de outras paisagens. Acumulo dentro de mim, de pura inveja e vontade, a vida que é de todos e nunca minha porque me poupei de sofrer porque sofre em vida o ser e eu seria sempre a criança com a fruta madura correndo através dos jardins. E ainda estou vivendo, embora ainda questione e perca, em vida, mais um momento de ser deslumbramento, vaidade e desconcerto.




Image by broda502

21 outubro 2009

templários



Deus que me livre de dizer seu nome. Deixo tudo guardado. Certas coisas são sagradas e você tem dimensões verbais e discursivas que não me atrevo a reler. Guardo. Limpo suas cartas, limpo seus retratos. Na verdade, amo essas velharias pré-datadas. Um cemitério de lembranças. E protejo as inutilidades que amo. Não falo de você. Falo de mim. Nem todo poema tem entrelinhas, pois alguns se mostram completos. Ontem mesmo vi um poema passeando em minha rua. Tão exuberante quanto você no dia em que me disse que a casa estava fechada. Casa fechada, roupas vendidas e partilha de bens. Fiquei com pouco. Levei alguns trapos — minha terrível mania de manter sempre folhas amarelas ao meu lado. Levei também um sorriso sem graça. Engraçado acreditar que tudo um dia termina. Final de filme e uma sensação de que o mundo ficou vazio, longe, perecível. Sorriso sem graça e eu só queria mesmo um pouco de paz. Queria acordar e fazer meu cenário de novo. E corri pra arrumar novas casas. E você não faz ideia de quantas casas refiz. Casa casada, divorciada, casa mal resolvida, casa de avelã, casa de gente mais nova que meu filho que ainda estava por nascer. Refiz casas e refiz nomes e prédios inteiros. Também fiz incêndio e fiz novena pra ver sua casa aberta de novo. Foi tempo de me refazer também. Plantei tudo no meu quarto e, a cada passo em falso, lembrava de você. Tão meigo com cara de fugitivo. Sempre pedindo migalhas de mim. E dei tanta migalha que acabei ajoelhada vendo que o tempo não cura nada. Outro amor também não cura. Amar de amor, já amo e descanso ao som do violão. Amei você até o fim e deu certo. Teve letreiro e uma citação em homenagem a nós dois. Éramos tantos e profanos. Éramos arames farpados sem soldados nem armadilhas. Hoje somos casa cheia e jantar em ação de graças. Hoje você funciona e eu vendo histórias que ninguém quer comprar. Mas sou boa sim. Faço doações, colaboro, beijo estreito e longo e deito em meu curto movimento. Há poemas para você e para outros estranhos que bem conheço. Mas não sou de enganar. Amor mesmo, amor de doer e passar noite lembrando que amanhã vai ser dia de sentir-se igual, na multidão, rosto esgotado de cansaço e voltar ao trabalho, não guardo mais. Por nós e por todas as promessas, deixo respeito e também um pouco de vingança. Sou militante das causas perdidas, mas não sofro de graça. E sobre a qualidade ambiental, nada sei.



Ao som da Ani DiFranco.





Image by AnnWeaver

02 outubro 2009

águas de chuva de janeiro


Solidão entre cinco paredes. Vezes mais, vezes menos e são belos seus pequenos azulejos imaginários portugueses. E construímos. Você constrói. Lembra o dia de ser herói? Salvar amigo, ainda criança, quando feliz corria em sua bicicleta e cai o menino e você o salvou. Enquanto chorava a criança, algo de valor fora dito, e fora de sua boca e, de um minuto a outro, a cena era completa e você pôde sentir felicidade em ajudar alguém. Mas o tempo faz esquecer. O dia seguinte transforma o que sente a gente e é sorte. Porque se arde em nós a dor, pode ser que amanhã passe, haverá cura para todo mal, o sol brilha e ainda existe motivo para continuar. E se acredita. E não hipoteticamente. É certo que navegamos cegos no mar de imensa gente, mas, entre o elaborar de todas as coisas, há mistérios que até os mais incrédulos se acometem e se atrevem a proteger. E é este o mistério maior. Aguentar o tranco. E há quem aguente? As estatísticas não mentem. E se mentem, perdoa que será perdoado também. E vive em família. Família de um, geladeira quase vazia, dias de domingo sem fim. Família de dois, entre a discórdia e a hora de abrigar o outro corpo, contas e a fé na sabedoria e gera filho e cria mais família e faz o mundo ser maior. Família de tantos, tantas mulheres e tantos homens, de lá pra cá entre os cômodos da casa e respeita ordens porque não se faz barulho enquanto os mais velhos dormem seus sonos. E assim se faz república. Independente, prudente, grande mãe de todos nós. E lê e estuda tanto que o futuro traz respeito. E dá de cara com o vazio das portas fechadas e depressão existe. Não é invenção. A mãe diz que não. Depressão é invenção da nova era, amigos falam em beber e você, querendo ser homem e forte, bebe com amigos, faz graça da vida e acha, inocentemente, que dia seguinte tudo há de se equilibrar. E faz família com moça que se aninha em seus umbrais. Metáfora? Não há quem diga. É que segue em margem a vida e, mesmo quando se desalinha, quando parte alguém antes da hora prevista, é ela quem dita nossas leis e, altruísta, que muitos dizem ser egoísta, a vida é o que ocorre entre a sala de estar e a mesa de nossa cozinha.



Image by pesare

01 outubro 2009

anáfora dietética



Ela gosta de fazer teatro. Sai de casa de nariz empinado e ela mente pra todo lado e há quem diga que é feliz a mulher de batom. Primeira rua e olha pro alto. Prédio gigante e o vento ágil faz o cabelo dela se espantar. Então se arruma e reflete no carro sua fragilidade de gente comum. Um lanche, café da esquina, e trabalha como qualquer um. Fala pelos cotovelos, contando casos que nunca teve, fazendo templo sem altar de santo e, Ave Maria, ela é feminista, saia curtinha e mechas no cabelo pra homem notar. E o homem vê. E passa todo dia, ensaiando sua cantoria, portando inocência de menininha e os seios evitam a gravidade e o tempo dela é de estandarte e ela, rindo alto, bela falando demais. Acredita em tudo que é conversa. Elogio cega, moça esbelta — pensa que é novidade quando, na verdade, vive e trafega como qualquer um. Triste é ser comum. E há gente que dá conselho, ela obedece e segue em frente, mesmo dando passo pra trás empacando em seus repentes envergonhando suas mulheres ancestrais. Astrologia da modernidade, recém-casada e mula de quatro. Caberia a mula em um elevador? Em coro o dia canta, esbanja sua vida, menina tonta e ninguém se importa se você veste prata ou dias de março e, estonteante, o dia chega ao fim. Dia seguinte, o mesmo quadro. Vai as ruas em salto alto, acreditando que seu bloco é único e seu carnaval é visto por todo mundo e lágrima desce quando a mula percebe que vive e morre como qualquer um. E ela sonha ser predileta, mocinha magricela, mas é cópia de novela e, fabulosa que só ela, bolsa vermelha e carrega dentro dela, a originalidade e a elegância de um sanduíche de mortadela.



Image by mollie