26 novembro 2009

joni mitchell, Veja e fauna e flora

Estou ouvindo Joni Mitchell e sou romântica e a Veja é uma revista que me causa diversos males, mas é preciso que se leia. Sou uma péssima vendedora de livros, não sei fazer marketing pessoal e o perfume do Jasmim de minha vizinha invade minha casa durante o dia. E hoje estou me preparando para colocar em ordem as cadernetas de minhas turmas. E vou corrigir provas e trabalhos e telefonar para minha mãe e ela vai dizer que sou meio desligada e nunca dou as caras. Minha mãe sempre tem razão. A pergunta que deve estar na ponta da língua é: E daí? E daí mesmo. Certas coisas são tão nossas que chega a ser crime torná-las públicas. Mas, acredito eu, coisas boas devem ser registradas. Hoje estou feliz porque recebi um e-mail do Cronópios e lá está um texto que escrevi. E compartilho com vocês que leem minhas linhas feitas de avessos um instante de uma vida.


É só clicar na imagem e dar uma olhada, ler, reler e ler mais e assim por diante.







E ouço Folk pela manhã. Joni Mitchell





Um beijo para todos.
E segue o dia em harmonia.

21 novembro 2009

inventei de amar você


Eu inventei de amar você. Tateando entre ladrilhos, fazendo agrado ao inimigo e querendo me sufocar. Uma serra sofrendo de tão cega cortando troncos de Baobás. E me acostumei a sua antipatia porque amantes nem sempre recebem as boas-vindas em elogios escritos em bilhetinhos ou presente que demonstre o exagero de amar. A vida engana ou nos enganamos e isso não é pergunta. É coisa que digo toda hora pra ver se acredito em algo mais. Hoje estou romântica e arrastei a cama e a coloquei bem embaixo da janela. Deito e vejo estrelas e penso em coisas exclusivamente minhas. Horas pensativas em que me perco e se, de tanto pensar eu de repente me encontre, é tão estranho saber de mim através de mim. Parece flashback de filme americano. E as estrelas estão por toda parte. Deixo a Adriana Calcanhotto cantar. E me espreguiço na cama e lá fora, buzinas, ambulâncias e a cidade em urgência. Quem me dera pudesse me levantar dessa cama e agir como agem todas as pessoas e me esbaldar de alegria falsa. Não. Prefiro ficar aqui. Meu quarto, um incenso e o tic-tac do relógio ainda consegue ser mais alto que o som que vem da voz da Adriana. Me levanto e troco a música e é um esforço enorme sair da cama e pisar no chão. Cada passo é uma eternidade. E ouço mais música. De todo tipo, de toda cara. O quarto quase às escuras e eu brinco com as mãos e faço aquela coisa de imitar imagens. Um avião com as mãos e a luminária é o spotlight e eu sou um coração feito de mãos. Veja só que mediocridade. O mundo imenso e eu aqui, figurante de uma solidão egoísta e vasta. Eu estendo a mão e pego o livro que não largo há dias. Leio poesia e tudo que leio é uma forma de auto-comoção. E há um texto de amor. E não sei por que quando se fica romântica como estou a gente perde o pedigree. E volto no tempo e fecho o livro. Você me desnuda e eu finjo que acredito que a sabedoria que você suporta é sua e de mais ninguém. Eu finjo porque quero agradar. E sabe aquela hora em que você comprou vinho e ficou feito idiota me procurando? Eu estava procurando taças. Só bebo vinho em taça. Mas acabei não comprando e acabei tomando vinho em um copo sem graça. Amor tem disso. A gente perde a identidade. E eu bebi que nem lembro e falei aquelas verdades que amargam o beijo. Eu caí no sono e você também dormiu. E não sei ao certo se você dormiu ou fugiu ou ficou me olhando. E ainda comi de um tacho de coisas que não gosto só pra fazer o que achei que seria certo. E inventei de amar mais e, em silêncio, eu observava seus intervalos de fim de orgasmo e chama que acende cigarro. E me senti um poço de ingenuidade. Não consigo ser como dizem ser outras pessoas que agem racionalizando tudo. Por mim, é verdade, não me importo muito com os resultados. É o momento que importa e todo o resto. Você, eu e mais nada. Porque a gente precisa de pouco e eu não gosto de espetáculo. E eu gosto de ficar lembrando da história toda como se pudesse trazer tudo de volta pra mim. Como quem comete crime e se arrepende e quer de volta a inocência. É assim que me vem agora todo o tempo que houve um dia. E ainda há tempo. A vida continua lá fora, outra música me amplifica, fumo dois cigarros e caminho ao banheiro e meu rosto é de sorriso. Me pergunto por que a gente é assim, tão vergonhosamente imbecil? Por que a gente transforma tudo em fim? Por que você sempre me esquece no dia seguinte? Por que você não me procura quando sabe que preciso viver um pouco mais de você dentro de mim?



Image by Caitlin

06 novembro 2009

napoleão



E cora o tempo a declarar satisfações. Pardos homens e mulheres se confundem entre braços enquanto dialogam o tempo e a imensa população. É o mundo criando fatos e há quem diga que o fim reside na esquina. Mas não dou ouvidos. Ignoro vozes que oram insípidas por atenção. E o que tenho que tanto sofro que me adormece o corpo e não fecho os olhos para o noturno repouso? Dizem ser loucura. Ou medo. Ou doença. Ou vadiagem que é o resultado de quem resolve cruzar os braços enquanto redige o tempo outras orações. Pois digo e escuta. Abre bem teus ouvidos porque minha língua é feito gente sem educação. Falo alto, idolatro santo falso e ainda construo ilusões. Odeio linha reta, dialética e geléia em pão dormido. Aborrece-me tudo que é bonito, belo, estético, político e certeiro. Ainda vivo a montar cavalarias, assassinar flores coloridas, perfumadas, repetitivas que tanto exalam vida e causo loucura em todos os que me guardam cheios de fé. Puritano sou de engano porque minha face é duplo escárnio de todas as dúvidas e me alegra a visão do espaço aéreo. Digam aos homens que existo, sinistro, engolindo todos sem permissão. Sou a voz que amedronta durante a noite e, ao violentar dos dias, cativo olhares que me alvejam através do retrovisor.




Image by Slawek Gruca