29 dezembro 2009

crônica e poética



Fim de ano e mais clichê. Por isso me dispo, por isso me deixo ver. Sou Drummond com extremos níveis de progesterona e qualquer coisa em mim me diz que nasci rainha da Mesopotâmia e quem liga? Ninguém à porta, ninguém me acorda e durmo o sono dos dias. Tenho mais amigos que posso carregar e, certas horas, não tenho ninguém. Mas a culpa é minha. Busco estar sozinha, fritando minhas quinquilharias em minha cabeça de mulher enguia que desliza longe de qualquer coisa prática. Gente prática, moderna, gente descolada que sabe tudo de cor e resolve todo e qualquer problema, vou me rebelar: Não é o fato de odiar vocês, Gente Moderna, é simplesmente o afastamento. Não se pode Ser humano assim. Tudo certinho, ponto com nó bem afiado e risadinhas no fim do dia em algum barzinho maçante cheio de gente maçante que me cansa os ouvidos. Por isso um quarto só para mim. Sou Virginia Woolf cheia de extremos de um cigarro a outro e apresento altos níveis de testosterona. E a coisa poderia estar bem pior. Se eu decidisse estudar Filosofia ou me afundar em tequila e fazer amor? Isso seria o fim porque não se vive assim declarado. A vida está mais para uma viela onde todo mundo se conhece do que para uma viagem sem volta ao desconhecido. E há crimes, barbárie e eu ainda não entendo as tais agulhas no corpo da criança; passei noites tendo sonhos e correndo atrás de um homem e minha terapeuta me mandou conversar mais. Por isso busco a natureza e deixo coisas para trás. Sou Walt Whitman pagando impostos e apresento altos níveis de insensatez. E ainda consigo dizer que o dia é bonito e acordo colorido pra ver mais um tempo passar. Um amigo me telefona e diz que tem problemas. E eu vou anotar seus problemas e ajudo você. E você também pode me ouvir? E, antes que eu termine de me contar, ele desliga e vai cuidar da vida. É assim. Olho por olho e um fiasco de amizade. Por isso insisto e penso e faço tanto existencialismo arrebentar a cara de quem me quer. Sou Martin Heidegger olhando pros lados e assistindo reprise em sessão da tarde. Que custa ser fraco? Que custa dizer que é difícil dar o próximo passo? Por que é tão impossível admitir que o fundo do poço também faz bem? E, olhando meus livros agora, percebo: Sou eu mesma. Lendo mais que dou conta, pagando minhas dívidas, amando insegura, ainda querendo conhecer a Islândia, tentando escrever poesia e recebendo crítica. Essa coisa de mulher moderna me emperra o dia. Sou Amélia atordoada e coberta de adjuntos adverbiais da Dorothy Parker, marchando em busca do soldado desconhecido e meus atentados terroristas sempre mal sucedem. As bombas explodem em meu jardim. O melhor a se fazer é abrir champanha, brindar nossas âncoras, adorar santos e esquecer. Por isso me arrisco. Por isso faço alarde e durmo tarde. Sou a mão que ainda arde a espera da outra face. E o Alberto acorda certeiro escrevendo crítica e eu dou o primeiro mergulho em minhas relíquias e não compro brigas. Acho que ainda não amadureci. Não o suficiente.



E uma música para acompanhar.







26 dezembro 2009

cinema mudo



Ela não seria tão discreta, comendo delicada as delícias que a noite traz. Não seria você esculpindo falsa oratória em busca de se ajustar ao meio mundo que está em todo canto e já seria absurdo o entusiasmo das meninas rebolando nas esquinas da cidade enquanto o padre novamente redige homília? Ela não seria tão drástica. Talvez uma chaminé caduca de tanto exalar o pó dos dias e fazer navegar os pássaros no céu azul com cinza de papel queimado e lixo não aproveitável. Ou seria talvez um Quem Sabe de quem deseja amar e não diz nada porque falar é pecado entre os humanos. Nada diz é o que se fala entre os olhos e ela não seria tão ruborizada, pois já nasceu esbaforida, sem vergonha na cara. E ao recomeço ela viria, dizendo malícias em todos os tempos e seria talvez um beco onde o crime reforça a estupidez ou o viaduto de novo escondendo homem e mulher ou mulher e mulher ou homem e homem se encarnando. Não importa. É tudo humano. E a saliente vontade da mulher que olha outra mulher a fazer compras. A vontade de penetrar a mulher seria contradita porque mulheres e túneis se confundem e vale o fato de não enfrentar o entender. E amo uma mulher e nada vem ao caso porque de tanto fracasso tenho dúvida se realmente causo o querer ou me deixo esquecer. E ela continua zumbindo, acontecendo, explodindo enquanto velhos morrem, homens se atormentam porque querem e não atingem o maldito ponto g que é história. Não existe. E ela dança tal feito macumba e toda outra religião santa e seu futuro é rubro e a nascente é hoje e hora de qualquer criança nascer. Não poderia ser castrada feito os anos 30. Mulheres de um lado e homens em qualquer lugar. Não seria temida tal anos 60 realizando rebeldia em vitrola que hoje não mais se vê. Não seria indigna tal como os 70, dissimulando ausências e alardeando praças. Não seria os 80 perdidos tempos de nada explode e atentados imorais. Não seria hoje nem o tudo que se move ininterrupto ao vulgar coincidir das ilusões. Nem Virginia, nem alforria, nem carta de Ana Cristina. Não seria café barato e contrapeso das medidas egoístas e ela sabe que existe individualismo em todo ato de ingênuo e belo prazer altruísta. E não seria você que chora e acorda no meio da noite e respira fraco de medo porque ela não permita que seja visto o dia de amanhã. E estamos cegos de tanto ver que só vive aquele que se permite morrer.




Image by Slawekgruca

20 dezembro 2009

persona



Aos estrondos cai por terra o que tanto quis. Carta de baralho, sonho marcado e eu mesmo por decidir e me veio, preguiçosamente, a persona que me desmarcara. Tantos atos e falho a me reproduzir. E sopra ainda o vento a casa e vai embora e nada diz. Eu e minhas mãos buscando tempo, estando certo ou errado, meu inconsciente sempre me diz que devo ser feliz e não sou. Vai encher teus bolsos e não realizo ação porque me surpreendi com a vida batendo à porta, sorri ao ouvir os homens e seus simpósios de sabedoria e eu ainda era criança malfadada, típica imagem que de minha mãe saiu sem cura deste milagre desatento que das espécies se transfigura e me desacato minúsculo em adulta estatura. Viver com meus erros e retribuir espantos. E ainda sopra o vento aos imensos olhos torpes de minha necessidade. E a cidade se ergue sonhando que ainda irei desnudá-la, que irei habitá-la, que hei de comer vísceras e domesticar víboras que me seguem por ruas e que sempre irei viver cativo de uma sorte que nada faz por mim. Espera indecente a cidade que eu sirva sua vontade tecendo a vida que não me redimiu. Eu verbalizo e me desmascaro porque o que sou já não me cabe mais. E, somente quando eu retornar a mim, direi a que vim. E, ao subjaz do tempo, às voltas com minhas memórias, estimo melhoras e observo tranquilo, em exílio, o vadiar dos aviões.




Image by Bryan Collins

11 dezembro 2009

algarismos solitários



"Que culpa temos nós dessa planta da
infância, de sua sedução, de seu viço e
constância?"

(Jorge de Lima)


Do acorde ao instante em que adormeço permanece o desassossego que, embora tranquilize, ainda me arranha. E existe algo mais que a rede e o pescado, mais que o mar e o rastrear dos passos, mais que o olhar perdido de uma saudade, de um tempo. Existe algo que emerge em minha alma, de minha louca ventania que me alucina e me agride e, após minutos, permanece a vertigem das numerosas mãos que me invadem quando solitária sou mulher. Que eu diga todas as palavras e cante meus verbos, minhas orações, minhas culpas prediletas e todas as inquietações que não me deixam dormir. Eu penso em você. Não é lembrar. É pensar e poética a esmo. E adoro as horas em que você chega. Faço a cama, faço comida, fico amiúde feito música antiga. Velhas canções de rádio ou Nat king Cole que é pra acabar comigo de uma vez. Lembro do começo. Você veio e eu nunca mais consegui acreditar em vidente, cartomante e nunca mais li nada de irrelevante. Eu insisti em você e absorvo a verve que nos une desde antes até nosso primeiro segundo e digo que amo você, que te amo, que me arrebento toda por você. Escrevo a lápis no espelho e acho engraçado bancar a puta em uma história em que sou neo-romântica e assumida leitora de Nabokov. E nada me permite. E vou bancar a vítima. Fazer de você o diabo roubando a cruz, homem ruim. Ruim de ser visto, de ser amado e ruim de me alargar. Mas eu insisto e tremem minhas carnes em euforia quando vejo que me trai e volta sempre com sede. Eu aceito e faço drama. Minto como amo. Destruindo e engolindo seus erros e não lembro. Deixei tocar o telefone e nos queríamos tanto e eu exagero em meus movimentos de ir e vir. Nua ao redor de sua cintura sua mulher o beija e a boca morde a outra boca e molha o lábio e agita a cama, as paredes e a estante onde nos rasgamos e negligencio afetuosas formas de contato. Mulher santa que beija a boca de um único homem. E o sangue faz queimar nosso estrondoso balé de tanto corpo. Soma de um que atravessa o outro e ainda sinalizo quando me aproximo e digo que amo e minto tão bem como causo engano.




E faz algum tempo
Ouvi dizer de um livro
E da leitura permanece algo que me traduz.



Image by Heather Horton

07 dezembro 2009

antiquários



Faz chuva, faz sol, faz medo e faz-de-conta que somos parte da crença que se eleva da ponta de nosso nariz e se desfaz contra o vento. E seremos nosso próprio calvário, aniquilando pesares, equilibrando vontades e seremos também quem somos, em nuas verdades, e viveríamos a vida, todo dia, a fazer nosso reverenciar. E se espalha pelo corpo um espasmo quando somos interrogados a respeito do tempo e buscamos da retórica o que ela pode nos dar e cegos dizemos apenas do que nossa pobre vista alcança. Não violente nossa ignorância com suas demandas. Nós queremos nos rebelar. Forçar portas, almejar tudo e esquecer que nos apavora o limite entre o que há e o que verdadeiramente existe, e detestamos lembrar que perdemos nosso desejo, nossa virtude e nossa idiotice. Há muito perdemos nossa castidade. Nossa fé sofre aleijada e nossos quartos, temerosos cômodos nos quais a úmida poeira faz brotar fungos, espera algo de nós. E não há mais lençóis. E a verdade é flor que, ao mesmo tempo que nos alimenta, nos arrebenta por passados passos pesados presos ao calçar de nossos sapatos. E vejo no futuro, à porta do antiquário, em letras garrafais, a lisonjeira sentença de nosso diário e caduco esquecimento. Em anúncios seremos exibidos, violados pela liberdade que a terra nos permite e tomados pelo silêncio que nosso corpo ao findar de nós exige. Porque agora somos exemplares feitores de grandes obras, e amanhã, por não sermos exceção da história, nossas vozes se tornarão destroços do que já fomos e não mais seremos e, por vezes talvez relembrados, sufocados em álbuns guardados, sejamos belos retratos de um amarelo e sorridente presente que urge apagado pelas sombras e rastros do caminhar do tempo que nos esquecerá no passado ao estridente arrastar de nossas correntes.




Image by Galcha