30 dezembro 2010

novela, novelo, todo enredo





Final de ano é igual fim de novela. Alguns morrem, outros fogem, alguns se casam e, com sorte, algumas mulheres ficam grávidas. E, entre vivos e feridos, estamos aqui, tentando continuar, tentando escrever, vencer (ainda não sei bem o quê), estocando comida para os dias de inverno e fazendo dieta para os dias de verão. A pergunta que permanece em mim sempre que um ano termina é: E aí? O que aprendi? Você já parou para pensar nas lições de casa que não fazemos? Nas quebradas de cara? Nas necessidades que nos regem e nunca nos protegem de estar, de vez em quando, meio de mal com tudo? Há lições demais e nossos cadernos não possuem tantas páginas. Penso desta forma e permaneço tentando viver um dia de cada vez. É de praxe que se escreva algo sobre o ano que está terminando, felicitando amigos pelas conquistas, desejando força, paz e saúde pra continuar. Eu não poderia deixar de escrever. Não poderia ficar de fora e silenciar. Não sei há quanto tempo o blogue afeto literário está ativo ou se sou eu quem estou na ativa. Sei que escrevi muitas coisas e pude compartilhar com pessoas de vários lugares e diversas opiniões. Ingenuidade dizer que aprendi algumas coisas? Ingenuidade dizer que faço questão de não aprender outras? Há coisas que faço questão de não aprender. Não quero me tornar certa ou exata feito relógio suíço. Não pretendo escrever centenas de livros ou passar a vida inteira trancada e lendo histórias. Quero viver. Assim como você. Assim como a mais simples pessoa que mora onde não mora ninguém. Sempre penso nestas pessoas. As esquecidas, as tristes, as envelhecidas. Que seja por sofrimento ou qualquer outro motivo. Penso nas pessoas que perderam familiares e sofreram. Pessoas que perderam suas casas ou seus motivos para continuar acreditando. Penso na senhora que viu sua neta morta em um terreno baldio (desagradável, não?). Mas é a vida. Novela a cores que não diz o lugar exato em que o raio irá cair. Mas ele cai. Com ou sem fé em Deus, estamos todos no mesmo barco. E que não sejamos náufragos de sentimentos. Que saibamos aceitar o que há de vir. Aprendi que não posso dar passos tão grandes. Aprendi também a quebrar a cara com mais elegância. Porque não deixo de ser gente e sonhar e ainda querer sentir o que nos é humano. Vou continuar errando, escrevendo, lendo, vivendo? A resposta é sim. Ou não. Porque todos nós iremos continuar. Até os que partem também continuam. Em lembrança ou memórias. Como em final de novela. A vida continua e surge a história seguinte. A gente não estanca.






Feliz Tudo.

E desejo paz de colher cheia
E toda felicidade clichê
Que é pra todo mundo saber que ser clichê é bom.


Beijo para todos.





12 dezembro 2010

libertinas são as horas da manhã





Era noite e eu precisava ler. Cato na estante o livro que me serve e o poeta zomba de mim. Eu visto cetim, largo a carapaça e detesto o mundo. Ou amo tudo. Ando varando Dias ao pé da letra. A teus pés me comporto, tenho fé em reticências e estreito ligações. Alô de boca em boca. Maligno é ser objeto indireto. Exaustão de calor profundo sou. De curto acesso. A veia salta aos trampolins. Amor não é tiro de festim. Visto prosa e acho engraçadíssimo ouvir gente falar em Érico Veríssimo. Não sofro disso. Tenho um abscesso antigo e saliente. Esta é a posse, a peça, a pedra no meio do caminho. O desconforto. Pedra que entrou de sola no sapato e me fez resistir. Escrevo e leio Cecília toda prosa atuando cantigas. Fala de bicicletas, romanceiro e flores no jardim. Mas sei da cólera que a subestima. E recorto a noite ao vapor do frio. Frio é nítido, colóquio é desafio e urgência é bandeira antiga que afunda meus navios. Bandeira gasta de traça e caça. E sou de virgem ou qualquer outro signo. Sei lá de mim. Retrato-me no espelho e versam poetas libertinos. Vaidade é a nova hora e medo é desconcerto. Se você não me entende, ao menos esteja prestes. Somos todos pestes. Repentinos e desconcertantes. Olho seu poema pela quarta vez. Ainda não sei bem o que devo saber. Terá segredo o que diz a palavra sem querer? De cetim em festim gera a vida minha voz. Volátil feito álcool que embriaga velhos iludidos às 3 da manhã. E visito de novo seu poema. Ainda sem entender. Vai ver é assim: Entender faz sumir o sentido. Então não tento. Abandono seu livro antes que ele me consuma. Em suma, sou fugaz. E não sou capaz de usar palavra simples que diga isto e mais isto com o dedo esticado na ponta do nariz. Tenho fraco por correr riscos e digo que loucura é fardo de qualquer um. Mas qualquer um não é todo mundo. Um milímetro no gatilho do tempo ou minutos de intervalo na programação. Consumindo castigos e lendo versinho de rima intercalada volto ao livro. Ao pé da letra, caducando malabares, releio humana meus escritores. Invejo suas vidas, seus amores e suas saliências verborrágicas premiadas com louvor. Invejo tanto o que leio que escrevo. Gloriosa concepção a literatura. Mente mimeticamente o belo anjo caído à vida. E tudo aquilo que criamos viciosamente nos cobiça.








Image by Trixis

06 dezembro 2010

um gato entre os pombos







Edição 43 do site escritoras suicidas.
E eu inventei de estar lá.


E, através do mundo virtual (Este que muitos falam mal, mas estão todos aí, conectados, vidrados, viciados e coisa e tal), conheci Neusa Doretto (poeta que escreve o blog Poesia Rápida). N. Doretto também tem seu espaço no escritoras suicidas. Eu recomendo.





E adoro este título (Um gato entre os pombos)
Livro de Agatha Christie.









É isso.
Um abraço para todos.
E um beijo especial para o Papa e o Rei da Noruega.
















Agradeço à Mariza Lourenço pelo convite.

26 novembro 2010

lilith oratória





Mulher que se preza finge orgasmo. Nem sempre, é claro. 
Mas palhaço algum faz a plateia inteira sorrir em todo espetáculo.




Mulher de Graça, Ave Maria Descalça, Traça de Homem vivendo à risca do risco da mão de Deus. Respeita mandamentos, tateia pelo chão e rasteja à oração da manhã. Deus, não faça ouvido de quem não sente. Ouça-me uma vez. Falo direto com você. Não gosto de meia palavra e por isso vou direto ao Divino Ponto G. Inventaram que eu tinha tal ponto e que ele me elevaria aos céus como se fosse levada pelas mãos de Zeus que é Deus que é Você. Minha religião é tudo. Da zombaria ao catolicismo esquemático de olhar na cara de um padre e devorar a hóstia consagrada feita de farinha e água. Gosto ruim não é Teu Corpo, Pai. Dizem ser Teu Sangue que recebo, mas, como creio que seja o mais belo dos seres, não pode ser insosso o Pai que me criou tão bem ordenhada filha, mãe e a entidade que sou. Que não sou apenas uma. Sou milhares. Mas duas incorporam minha ladainha. Uma delas, a cética, ladra aos ventos e arranca do tempo mais dúvida para poder dizer que não. A outra, bélica estonteante, tem amante, se declara, fala sozinha e estende a mão a estranhos. A primeira não segue regra alguma, a segunda é estúpida e, através das duas, faço declamação. Deus Pai, concretiza-me poeta de tudo. Que eu fale por Tua Boca, que eu ande sobre Teus Pés e liberta-me desta chaga imunda de ser mulher em mundo de bíblias, arquétipos e tradições. Deixa-me, Senhor Deus, tornar-me Lilith e prometo entregar aos homens meu poder de sexto sentido, de adivinhação, de querer mais que alimenta e pão. Deixa-me Lilith, Senhor, tornar-me santa neste mundo fechado que não tem misericórdia dos entediados, dos abandonados, de meus semelhantes que vagam como eu. Que toda mulher seja homem e que o contrário se faça por feitiço. Que todo sexo seja libertino e que as ovelhas corram loucas no campo de abater. Liberta-me, Pastor. Sou mulher, ovelha, casta, escancarada e louca de viver.





Texto também publicado AQUI.
Inspirado na arte de Fernanda Franco.






Image by dearestapathy

12 outubro 2010

Eu no Jô (Entrevista)




Entrevista que irá ao ar no ano tal.

Logo após o carnaval.

Mas este não é o assunto deste post (linguagem de blog).

Escrevo para dizer aos meus queridos amigos leitores e amigos de verdade que, se porventura souberem de quem se trata a autoria do blog Intimidade, informem ao autor ou autora que plágio é crime.

Tudo bem, estamos na internet. Tudo vale. Eu posso me fazer passar pela Fernanda Young se eu quiser. Mas minha índole não me permite.

Escrevo este blog porque levo a sério este trabalho (o ofício de escrever). Não escrevo para atrair homens, mulheres, servir de guia turístico, entrar pro Guinness ou sei lá o quê. Escrevo porque acredito que Literatura existe (Sou ingênua).

Mas os motivos que me levam a escrever são meus e não devo explicações.

No entanto, quando entro em um blog (repetindo o endereço do famigerado: Intimidade) e me deparo com textos meus sendo assinados por outra pessoa é de doer a cabeça.

Por que não plagiam Dostoievski?

Por que não copiam na íntegra os textos do Caio Fernando Abreu?

Alguém me explique: Por que eu?

Passei o dia com minhas pulgas atrás da orelha. Tudo bem que deixo os textos aqui e escrevo compulsivamente e, muitas vezes, falo porcarias, erro brabo em ortografia e tal. Mas esta é uma questão minha e de mais ninguém.

Então fica o meu protesto.

Pensei em parar de escrever o afeto literário e meu outro blog Lírica Subversiva.

Pensei em fugir com o circo.

Pensei "nas crianças mudas telepáticas." (Palavras do Vinicius de Moraes)

Pensei em tudo.

Apenas não aceito que usem meu trabalho de forma indevida. E, se usarem, que fique claro:

Plágio é crime, descaramento, e, acima de tudo, falta de originalidade.

Agora modero comentários, vou retirar textos do afeto e estou realmente pensando em mudar o ritmo das coisas.

Talvez eu passe a escrever sobre receitas de bolo ou coisinhas publicadas na Marie Claire. Ou talvez eu fale a respeito das novelas da Rede Globo. Afinal de contas, é isso que faz sucesso.

Então deixo meu recado:

Se for plagiar, seja honesto consigo mesmo. Saiba que palavras são livres. No entanto, a voz que as criou é protegida por direitos autorais.

Espero que faça efeito este meu pequeno desabafo. Estou na chuva, molho o corpo todo, mas não calo minha boca.

E, inacreditavelmente, após eu ter visitado o referido site, ele foi fechado para a visitação pública. Mas fica o Link:



O blog acima mencionado não é escrito por mim.
Encontrei trechos inteiros de textos meus por lá.
No entanto, não sou eu quem escrevo o blog Intimidade.



Um amigo me passou por e-mail o perfil da Intimidade
 Que se pronuncie então. 

Outro blog da suposta plagiadora: Íntima Proesia

E seu perfil no blogger: íntimaproesia
 

E assino meu protesto em letras garrafais:


Letícia Palmeira



14 setembro 2010

crônico tempo moderno








Voilà televisão e estamos com sorte. Hoje celebramos desastre de aviões em quedas e prédios tombados e a luxúria mora ao lado. Marilyn não era suicida. Apenas encurtou o caminho ao estrelato. E mulheres compram fogões blindados e assistem Leda Nagle Voz de Cigarro Hepático inteligentemente falar em Clarice Lispector, filme Cult, artistas e objetos voadores. Chá de cura é a televisão. Para toda criatura há uma saída. Vide Aldous Huxley. Mas adiantemos aos finalmentes. Geração que adoece mais cedo. Nossos pais, Belchior, não ficavam doentes antes dos trinta e as mulheres, elegantemente hippies, tinham filhos só de sentir o vento entre as pernas. Mulher hoje não engravida. É grave não deixar semente tua pela vida. Mas filho não é soma de se dividir como era antes. Todo mundo sendo criado aos trancos e espalhafatos. Filho é lei, ordem e progresso. Muito dinheiro para escola, gastos, pares de sapatos e paciência, consultas e terapeutas para não cair em loucura. Já diz o escritor de livro que ajuda: Pais e Mestres sabem guiar a manada. Feliz daquele que consegue acreditar em livro de auto-ajuda. Porque Estupidez é liberdade, Ventura. E falam da Elis Regina. Dizem que ela soube conciliar carreira, vida afetiva e moral. Dizem os livros biográficos que vendem feito banana. Só quem sabe da vida da Elis era Elis e ela já é Inês Morta e ainda corre a matriz do motor humano sancionando tablaturas para alcançar o futuro. No entanto, não dormimos. Andamos sonâmbulos. Agregados aos ritos do passado e tenha certeza que tempo algum vai repetir o passado. Não haverá hieroglifo dessa era escrito em parede alguma. Nem gente protegendo patrimônio histórico. Homem bicho escatológico chega ao fim do dia cansado acreditando que amanhã será outro dia e com fé a burra anda. Política demais faz perder a visão. Veja o que aconteceu ao presidente sindicalista que hoje se converte emergente. O fim está próximo. Claro que está. Basta que fechemos os olhos, tratemos de pensar bobagem, leia somente livro sagrado, peça a Deus, peque, mas somente no escuro quando ninguém esteja olhando e siga conselhos dos mais velhos: Trabalhe feito escravo, seja sensato, conte dinheiro, não traia, não caia, não pense por si mesmo. A ciência agora anula a sexualidade e gametas são depositados em laboratórios bem ao lado dos ratos. Descobriram o mundo ontem e hoje não há mais novidade. Deus está cansado. E o homem deixou de acreditar em milagres. Literatura não é lida, gente rica é quem dita, e ainda ontem no céu um imenso clarão. Testaram bomba para ver funcionamento. O que virá depois? Talvez Woody Allen, talvez o mundo inteiro unido através dos cabos interativos e estaremos juntos. Viveremos baseados em monóxido de carbono e hidrogenados. Nunca alienados. A vida se expande em seu grosso calibre, sirenes atravessam dias e seja otimista. Porque você é feliz mesmo que digam o contrário. E, para mais explicações acerca do mundo e seus mistérios, deposite imensos trocados e direi tudo sobre a História do Brasil, Cultura de Massa e Dietas Revolucionárias. Isso tudo virá a sua vida através de pensamentos positivos, cantigas de mantras e espantosas receitas milagrosas que nos deixaram de herança.




Em meus ouvidos,
Ani DiFranco.




Image by Slawek Gruca

08 setembro 2010

eu me LIVRO




Hoje, dia comum no calendário gregoriano, uma amiga me ligou. Eu estava pronta para fazer nada, deitar e olhar o tempo passar pela janela, quando, de repente: trim! Trim! TRIM! Eu atendi. A voz denunciou quem era. Nem precisou dizer. Aí veio a enxurrada de novidades. Eu ando fazendo isso, eu ando fazendo aquilo, quantos portugueses são necessários para limpar o jardim e assim seguiu a conversa. Até o ponto crucial quando, no auge do falatório, ela me disse: Não estou bem. Murchei. Como pode? Você está sempre bem. Sempre está sorrindo. Sempre está de pé. Admito que já cheguei a sentir inveja de sua alegria exagerada. Então me dei conta. Mas não é que as aparências enganam mesmo? E ela foi falando. Tenho passado por isso e mais isso e mais isso e outro isso e o mundo não é feito só dos livros que você lê, menina. Isso me tocou profundamente. Porque, enquanto minha amiga de longa data estava passando por todo o processo evolutivo de nossa era (casamento, desmantelo, divórcio, Deus nos acuda), eu estava plantando bananeira com o Neruda. Péssimo, não? E eu nem gosto do Neruda. Então passei a aconselhar. Faça isso, anda assim, não chora que borra tua cara, não fica deprê, não sofre e, depois de muitos conselhos, percebi que há o necessário. Coisas pelas quais devemos passar. É mais ou menos como querer chegar a um lugar, procurar um atalho e passar mesmo assim na frente de algum outro lugar que não passaríamos caso tivéssemos ido direto ao ponto. Entendeu? Eu também não. Mas é isso. Gente sofre. Gente chora. E canais de TV reprisam novelas e ainda passam na cara da gente que muitas outras pessoas vivem em situações bem piores que a sua. Ou seja, você se sente egoísta por estar sofrendo por coisa tão miuda quando tem gente que sorri mesmo sem ter o dente da frente. E eu sou péssima para dar conselhos. Comecei a criar histórias baseadas em livros que leio. Olha, não fica assim. Conheço uma mulher que ficou tomando umas e outras com uns amigos e nem viu que o filho estava morto em cima da cama. E falei de mais gente. Tem um cara que mora aqui perto. Dizem que ele era apaixonado pela irmã e ela foi assassinada pelo pai. E também tem um caso parecido com o seu. Uma mulher abandonou os filhos por causa de um cara e hoje se arrepende. Vive de escrever cartas pra família e ninguém responde. E mais. Mrs. Dalloway comprou as flores. Ela mesma. Existe coisa pior? Então ela riu. Bobamente. Porque eu não estava falando coisa com coisa e era tanta confusão que ela pensou que tudo pode desacontecer da mesma forma que acontece. Sofrimento é humano. Passar por problemas faz parte de nossa nomenclatura. E, quando eu já passava para o exagero de narrar a história inteira de Dom Quixote, minha amiga falou: Já chega. Já estou convencida. Quando eu tiver um problema te ligo e você me fala bastante em livros e compara tragédias de outros com as minhas. Já me sinto bem melhor. Eu salvei alguém do precipício? Não sei. Mas ela riu. E ouviu histórias. É por este e outros motivos mais que eu escrevo. Entendeu?







Image by Sam Brett-Atkin

20 agosto 2010

república





Solidão entre cinco paredes. Vezes mais, vezes menos e são belos seus pequenos azulejos imaginários portugueses. E construímos. Você constrói. Lembra o dia de ser herói? Salvar amigo, ainda criança, quando feliz corria em sua bicicleta e cai o menino e você o salvou. Enquanto chorava a criança, algo de valor fora dito, e fora de sua boca e, de um minuto a outro, a cena era completa e você pôde sentir felicidade em ajudar alguém. Mas o tempo faz esquecer. O dia seguinte transforma o que a gente sente. Isto é sorte. Porque se arde em nós a dor, pode ser que amanhã passe. Haverá cura para todo mal, o sol brilha e ainda existe motivo para continuar. E se acredita. E não hipoteticamente. É certo que navegamos cegos no mar de imensa gente, mas, entre o elaborar de todas as coisas, há mistérios que até os mais incrédulos se acometem e se atrevem a proteger. É este o mistério maior. Aguentar o tranco. E há quem aguente? As estatísticas não mentem. E se mentem, perdoa que será perdoado também. E vive em família. Família de um, geladeira quase vazia, dias de domingo sem fim. Família de dois, entre a discórdia e a hora de abrigar o outro corpo, contas e a fé na sabedoria e gera filho e cria mais família e faz o mundo ser maior. Família de tantos, tantas mulheres e tantos homens, de lá pra cá entre os cômodos da casa e respeita ordens porque não se faz barulho enquanto os mais velhos dormem seus sonos. E assim se faz república. Independente, prudente, grande mãe de todos nós. E lê e estuda tanto que o futuro traz respeito. E dá de cara com o vazio das portas fechadas e depressão existe. Não é invenção. A mãe diz que não. Depressão é invenção da nova era. Amigos falam em beber e você, querendo ser homem e forte, bebe com amigos, faz graça da vida e acredita, inocentemente, que no dia seguinte tudo há de se equilibrar. E faz família com moça que se aninha em seus umbrais. Metáfora? Não há quem diga. É que segue em margem a vida e, mesmo quando se desalinha, quando parte alguém antes da hora prevista, é ela quem dita nossas leis e, altruísta, que muitos dizem ser egoísta, a vida é o que ocorre entre a farta mesa de jantar e a devastada sala de visitas.




Image by Roman Kocian

13 agosto 2010

auto-ajuda e propaganda eleitoral

Finalmente todos os segredos foram revelados:



O real motivo do divórcio entre Xuxa e Pelé.

Os segredos que envolvem a Rainha Elizabeth.

A quantidade necessária de paus para se fazer uma canoa.



Se você quiser saber de tudo isso e muito mais, basta não clicar na imagem abaixo.







E, se você está cansado de propostas indecentes, mentiras e roubalheiras, confie em mim. Um dia seremos todos felizes. Ou não.



Valeu Marcelo.
Foi legal responder ao questionário.
Obrigada pela oportunidade.




Um beijo para todos.

01 agosto 2010

flores de domingo





Pequena Resenha Crítica


Livro "Artesã de Ilusórios" - Um Tremendo Bordado Literário de Letícia Palmeira



A compreensão não é um saber abstrato.

É um saber em ação.

(Paulo de Camargo)



— Mas, afinal de contas, o que é mesmo que Letícia Palmeira escreve? Como classificar sua primeira obra, a estréia em alto estilo, de salto alto? Conto, crônica, ficção, prosa em verso, prosa poética, derramas subjetivos, criações letrais, pirações, qual a classificação narrativa do exuberante livro "Artesã de Ilusórios", Editora Universitária, UFPB, 2009? Essa é a questão.

Você começa a ler e, baba baby, fica encantado; acha que está entrando num conto, depois periga ver é ensaio, quando não começa meio croniqueta e vira conto, ou vice versa, para não dizer que não falou de flores, ela entra e sai toda prosa de narrativas mirabolantes que seduzem, cativam, tornam o livro um mosaico de tudo o que ela purga, fermenta, depura; olhar de artista descrevendo a vida, com paradoxos, entraves, janelas abertas de sua alma em jorro letral. Já pensou? Artesã de Ilusórios, é, talvez, mas só talvez, uma heroína insatisfeita buscando-se a si mesma, auditando valores existenciais, momentos, transgressões, tentando a autenticidade num mundo perdido, degradado...

— A mulher e flor-fêmea no exercício exuberante de toda a sua existencialização enquanto alma pensante, transbordando, dando corajoso testemunho, quando retrata, recolhe, registra e diz a que veio. Talvez para pensar a vida em que habita, levita, constrói e resgata peculiaridades em verso e prosa. É a mulher que não se basta, não se contém, não se enquadra. Somos continuações. Letícia Palmeira é a liga. Escrevendo ela se dá inteira, questionadora, a consciência-passageira no viço da vida, buscando a felicidade de participar, enxergar, se inserir inteira na paleta sensível de seu estar em si. A artesã que escreve é isso.

— Artesã de ilusórios tem guardados incontidos, com suas vertentes, feito um rosário de parágrafos, de palavras bem torneadas. O texto sagrando a lida da vida. Romântica e crítica. Com seus conceitos e incompreensões que mapeia, entre afetos e circunstancias de viver e ser. "O mundo de janelas abertas. São palavras em terno e gravata, grávidas, idosos, infantis, famintas e libertas. Palavras são a certeza e a visão concreta das dúvidas". (Pg. 21, Afeto Literário). Essa é a prosa viçosa dela, formada em Letras pela Universidade Federal da Paraíba.

Fala de bichos, gatos, elefantes, dragões, e também do bicho-homem, o bicho-ser, no olival bem ilógico da vida. Quer o arsenal dos verbos. A vida é crucial? Qual é a imagem de nós mesmos no contexto de uma sociedade adultizada e machista? Não, não podemos fugir do lugar e estar que somos. Ou podemos, no escreviver, os destemperos alucinados? No tear de Letícia Palmeira, de anjos a borboletas, cercando o circo da vida. Compondo ou recompondo. tudo. Flores e árias. Clarões. E ela mesmo também ri-se de si, do que agrega, do que envolve com sua criação "Tabuada decorada para dias de prova." (Pg. 47, Flor de Decassílabo.)

— Coletivo de pluralidades. Janelas. A madura escritora Letícia Palmeira pinta o quadro do que registra. "Vestígios de mim em outra face, num disfarce de casa antiga querendo mudar de lugar". (Pg. 63, Janelas da Voz). A Mãe de Pedro arde em si, evoca almas, momentos, cicatrizes, faz um espólio de tudo. Como Clarice Lispector, poda-se para permanecer inteira e sempre na florada. O submarino amarelo é mais embaixo. A vida tem seus subterrâneos, de anjos a demônios. O amor também pode ser uma droga? Ela é cheia de questões, feminina e lúcida. Poeta a parir prosa feito artesã de si mesma. Se não nascemos inteiros, vamos nos fazendo. Assim é a escritora Letícia Palmeira.

— Traz as compotas da vida em palavras. Os potes de açúcares literais. Diz do homem desconexo, de filosofias e ervas. A vida o que é? Fala de flores e de sabão em pó, fala de sol e de lua, de madalenas e banheiros. Será o impossível? Que perigo é uma mulher pensadora, sentidora, criadora, na plena posse questionadora de si e do que a cerca? A literatura de pequenos espetáculos resgatados. Ah os origamis dos dias...

— Quando escreve é só uma espécie de strip-tease, em que desnuda a vida em toda a sua magnitude? Que labirinto é o pensar/sentir/amar, um quebra-cabeças em que se situa sensual, come e bebe de literatura cozida em vapor de existencialização, feito um fio de Ariadne para ramificar a sua própria contemplação?

No livro, Zélia Farias (Especialista em Língua e Literatura Anglo-Americana pela Universidade Federal da Paraíba) muito bem diz: "Letícia foi Alice um tempo (...). Já era o tempo em que se cercava a Mario Quintana, Clarice Lispector, Virginia Woolf, Ana Cristina Cesar, Lygia Fagundes Telles (...)". Existir é a arte da paciência sem tédio ou remorso, ou muito pelo contrário? Letícia Palmeira é a busca viva desse entendimento. Mia Couto (in, Último Desabafo de Arcanjo Mistura), diz que esse mundo não é falso. Esse mundo é um erro. Será o impossível? Ah o solilóquio das reflexões depuradas!

— Na sua exuberante literatura, Letícia Palmeira escreve recortes de vida, páginas de angústia e desprendimento, paradoxos e cisternas, olhares plangentes, fragmentos e matizes corajosos, prosa e poesia, um verdadeiro liquidificador de idéias e cobranças a partir disso, feito uma artesã que junta carne e luz, céu e terra, caracóis e pedras, defeitos de fabricação e peças de reposição, coletivos e plurais.

O mundo está dividido entre magoados e inquietos, disse Gabriel Garcia Marques. Nem sempre a lágrima é a medida de todas as coisas. Ler Letícia Palmeira é um deleite. A flor corajosa da arte e da vida, numa linguagem que situa a lucidez e a criatividade. A mulher exercitando a sua plenitude. Daí, a literatura pura.

-0-

Silas Correa Leite – Autor de Campo de Trigo com Corvos, Contos. Editora Design.








Nota: Não gosto de escrever nota. Parece tão formal. Mas a gente precisa ser formal, penso. À revelia.

Silas Corrêa escreve poesia e, vez por outra, escreve resenhas críticas. Decidi presenteá-lo com o Artesã de Ilusórios. E, por fim, eu acabei recebendo um presente do Silas. Permanecem, então, as palavras dele. Um motivo a mais para que eu escreva. Não gosto do tal forjar atitude de indiferença quando alguém nos elogia. Pois, já dizia Drummond: "Escritores precisam ouvir". Acho que é isso.



Beijo para todos.


Letícia Palmeira

30 julho 2010

pluct plact zum

Aprendi com meu avô, que era caixeiro viajante, que a propaganda é a alma do negócio. Mentira. Meu avô não era caixeiro viajante. Porém, propaganda é alma.


Para os que se aventuram a ler minhas mal traçadas linhas,
estou no cronópios.


Clique na imagem e pluct, plact, zum.









E Andy Warhol estava completamente certo.

28 julho 2010

abracadabra





1

Narrarei com as duas mãos, e um pé na frente e outro atrás, a bruta capacidade que possuem meus pensamentos robustos e irracionais. Me fazem acreditar em tudo. Sétima arte, escada de emergência, redução de calorias à base de manobras sexuais banais e decadentes e traduzo, à fina língua, o filosófico francês do jogo da amarelinha. Comedores de meu juízo. Televisivos e virtuais, andam sempre em pares e, quando díspares, nunca os vi desiguais.



2

Estou alegremente ouvindo Fiona Apple às três da manhã. Hora macabra, abracadabra e meus amigos todos dando risada. Bando de gente errada. Não fazem ideia de quem eu sou. Sumo sacerdote fêmea. Dotada de incríveis poderes sobrenaturais que de nada valem. Mas veja minha ambiguidade. Sirvo a tantas bocas e minha mesa está sempre escassa.



2/5

Poema.
Deitado de lado de olhos fechados
Ainda será poema.
Aquele que o escreve, porém, que não sonhe
Sempre o poema muda o rumo de alguém.



Passional 3

Ana C. era passional
Marginal
Mulher viajada.
Tomava chá das cinco
E contava sua vida em meia palavra quebrada.
Eu, coitada
Sou nada.
Se confesso, vou pro inferno
Se viajo, o trem emperra
Por isso me calo quieta
E não dou uma de poeta.
Me deito quieta e peço a Deus
Que me guarde, me ilumine, me desgoverne
E que eu sobreviva intacta
Aos descompassados atritos da pele.



Beijo de amor número 4

Um casal beija
No meio da praça e a criançada corre
O beijo de amor
Engole a cena
Um balé aquático
Língua pra cá
Te amo pra lá
E, do ônibus, contaminado e urbano
O público nem repara
Amor não tem graça
No meio do cotidiano.



Inquietos (fim)

O homem de boca fechada acha que não diz nada. Mas eu ouço a voz do homem calada através do olhar. Ele diz que incerta, embora crente de seu plano, a palavra respira cheia de sentido, boceja de modo tranquilo e se estica a espera do que será dito. Feito gato observando a vida através da janela do décimo quinto andar.





Image by Linnea Strid

19 julho 2010

relógio embriagado




Amor em duas vias
Assassinadas
Esquecidas
Papel amarelado de medo
Perdido no pó da gaveta
E o jantar falho de vinho?
Na sexta-feira?
Depois do expediente
Entorpecente a língua fala
Quando deveria calar
Descobri por acaso
Tenho fraco por fracassos
Sou meu próprio anti-herói


Como se o dia ofuscasse janelas, como se deuses andassem nas ruas, como se o céu abrisse a boca em enormes clareiras, como se fosse chuva e sol, como se animais noturnos rompessem segredos, como se o medo e a devoção dos santos nos atingissem, como se o estrondo de suas mãos em minhas mãos fossem certezas, como se as ilhas solitárias do pacífico fossem nossas, invadidas e penetradas casas, como se a trajetória da queda rumo ao abismo forjasse sentido, como se não existisse você, como se não existisse eu, como se não existisse mundo nem poesia que transtorna a vida dos sentimentos escondidos dentro da voz, descobri que não somos iguais. Soldados cobertos de armais mortais. Sou traça que devora suas peças e você é a placa que sinaliza proibição. Guardo minha rebeldia quando ainda arde o dia e sente fome minha rítmica ausência de alegria. Descobri que envelheci. Sem aviso prévio, perdi a fé na velha história. Agora vivo de obrigar que se consertem as cordas e engrenagens do relógio embriagado que me pulsa e regenera. Por obrigação seguem nova ordem as linhas imaginárias da palma das mãos.


Racional é o júbilo.
Passional é a vida.
Finjo ser estátua rubra
Enquanto rugem os aviões.



16 julho 2010

reality bites







Não escreva agora o que você pode deixar para outra história. Escrever é o meu drama. Nítido e particular. Estou sempre com algumas mil palavras para colocar no papel (que nem sempre é papel). Largo tudo no Word mesmo ou, à moda antiga, tenho um diário estilo menininha e escrevo coisas quando estou por aí. E agora ando calada, acuada e castrada (adoro Ângela Rô Rô). Então estou lendo. Muitos livros. Estantes de muitos livros. Leio crítica literária, poesia, auto-ajuda e Stephenie Meyer (que é um gênio – vale salientar). Não aguentado apelos midiáticos, me intrometi a ler Amanhecer (continuação da história sobre vampiros que saem à luz do dia, têm suas imagens refletidas em espelhos e não têm medo de crucifixo e cortam até cebola). E a mulher ficou milionária escrevendo tudo isso. E, no meio de minha insônia, terminei o capítulo que é mais focado no lobisomem que não usa camiseta e tem 16 anos. E concluí que a história não é ruim. Tem lá seus altos e baixos, citações desnecessárias de Jane Austen, trechos de Shakespeare e por aí vai. Decidi, então, escrever esse treco e dizer de minha total compreensão aos escritos da autora americana que conseguiu botar Harry Potter pra tirar um cochilo. Fui ao cinema. Eu vi o filme. Conheço pessoas que nunca leram PN e agora devoram quilos de papel pra saber se Bella vai se tornar vampira ou não, se vai escolher Jacob ou Edward e etc e tal. A escritora conseguiu um grande feito. Levar gente à leitura. Para mim, já é meio caminho andado.




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25 junho 2010

too much sugar for my coffee





Too much sugar for my coffee
I swear I'm strong enough
But, please my Good Lord,
Away with this misery.
I've been buried even before
Someone declare my death
I've been murdering
Guilty
Even before I shoot someone
In the eye
I'm fortunate enough to take life
Easily
But I'm too much human to take life
Completely.





Tupi or not Tupi?
Não me atrevo a traduzir.




Image by chris10belgium

28 maio 2010

augusto dos anjos, jornal nacional e liquidação




Paraíba – mulher, macho, sim, senhor
O que o Jornal Hoje não mostra


Resumo dos frutos


Poesia de Augusto de Anjos, prosa de José Lins do Rego, Ponta do Seixas (Aqui o sol nasce primeiro), Algodão Colorido, Pólo industrial (Campina Grande está entre as cidades brasileiras mais desenvolvidas industrialmente), Povo acolhedor, Há seca, mas existe água também, água e peixe, Tambaba e sol nascente (Melhores praias de águas puras), Grandes centros universitários, Profissionais bem formados, Doutores quase todos. João Pessoa já se tornou metrópole. Já existe até sequestro por aqui. E a Paraíba tem EFRAIM. Ou será o contrário?

O clima é perfeito. Embora quente, mas é verão o ano inteiro.

Tem arte, tem Fenart, tem Baluartes (Vide Academia Paraibana de Letras).

Aqui tem de tudo. Até refilmagem do filme The Day After.


Sábado, manhã, inauguração de loja, liquidação de eletrodomésticos, muitos feridos e um óbito. Esta cena o Jornal Nacional não mostrou.






Não por falar mal da terra onde moro. Em minha opinião, é tudo Brasil. Não gosto de separação silábica.

Pensei em postar aqui o vídeo. Fiquei perplexa com a cena. Pensei no desespero, em dinheiro, em escrever um texto poético e, por fim, vejo que a vida é mais do que está escrito. Sou paulistana, mas já moro aqui o suficiente para dizer que sou paraibana. Se um dia disseram que o nordeste era terra de gente pobre, analfabeta e pé no chão, mudem o discurso: O Nordeste evoluiu. A Paraíba encontrou evolução.

06 abril 2010

andando pelo mundo

O Cronópios tem sido um lugar onde me faço e refaço em leituras. Quando Germano Xavier me apresentou o site, eu andava por demais ocupada com meu umbigo. É incrível como se pode esquecer que há um mundo fora de nós e que há gente trabalhando e fazendo outras histórias. Então divulgo um filme de Pipol e produzido por Elaine Xavier e Ricardo Biserra. O filme mostra fotografias, voz e sabedoria de um fotógrafo que, de forma simples, fala de um mundo de imagens que contam histórias.

Basta clicar na imagem.
E que todos tenham uma perfeita sessão de cinema de grande qualidade.







Um beijo para todos.

01 abril 2010

quadro mudo





Na parede onde antes quadro havia
Ao zombar da imensidão vazia
Um prego torto desperta
O incômodo de vidas partidas.
Ausente da inebriante espera,
O tranquilo homem alveja,
Com olhares sábios de guerra,
Palavras inimigas alheias.
E não somente a parede emudece,
Muda harmoniosa lhe aborrece a verve
Maluca mordaz inquieta,
Desconcerta a vida secreta,
Do ingênuo homem que erra.
E ao zombar rindo-se do outro,
Que dentro de si vive em urgências,
Calado pálido irrevogável
Homem esfinge de farpas,
Adormece emoldurado pelo tempo.





Image by robrey

31 março 2010

o perdão






Raskolnikoff, personagem do famoso "Crime e Castigo" de Dostoiévski, apresenta, em um trecho da história, uma frase que trago sempre comigo, a qual transformei em uma das minhas filosofias de vida: "Sou um homem porque erro" — diz o jovem pusilânime em um dos muitos fluxos de consciência presentes na obra. Esta é a melhor definição que se pode ter de um homem: é o erro que nos faz humanos.

Por conta dessa natureza falível, deveríamos ter o perdão também como uma característica inerente à nossa condição mortal. Se erramos muito, deveríamos também perdoar em demasia.

Perdi a conta de quantas vezes errei e de quantas vezes tive que me perdoar por cometer o mesmo erro. Ao reconhecer meus próprios erros e aceitá-los como parte de mim, fui capaz de perceber que todos aqueles a quem já julguei incorretos não mereciam minha condenação, mas minha compaixão e, acima de tudo, meu perdão.

Muitas vezes temos o ímpeto de olhar para o nosso semelhante e massacrá-lo diante dos seus defeitos e dos desvios da conduta que achamos ideal. Quando olhamos para nós mesmos e temos a dimensão de que à nossa frente e à nossa volta há alguém que tem suas razões, a perspectiva pode ser transformada.

Dizem que é muito fácil julgar e condenar os outros. Acredito que não. Na verdade, sempre que condenamos o outro, agredimos a nós mesmos. No momento de recriminar, esquecemos que ninguém melhor do que cada um sabe o peso de viver sua própria vida e de conviver com suas falhas.

Antes de julgar, coloquemo-nos no lugar do próximo e, como disse uma de minhas sábias professoras, "aprendamos a compreender o compreender do outro". É difícil, mas os anos podem nos ajudar a sermos homens porque erramos.




Image by MagdaMontemor

30 março 2010

do preconceito da leitura




Dia desses, resolvi fazer uma pequena arrumação em minha coleção de livros. Alguém poderia dizer biblioteca. Outro alguém diria acervo. Eu digo literatura de auto-ajuda. Leio por um instinto de curiosidade e por saber que todo o falatório de minha professora do ginásio faz sentido. Ela sempre vinha com aquela história de ler e encontrar outro mundo. Descubro isso a cada livro que leio. Mas, se pudesse ter a chance de rever minha professora de ginásio, sempre muito polida em seus atos, diria a ela que não encontro outro mundo apenas. Por vezes sim. Por vezes, é o mesmo mundo. Esse no qual existo, mudo de roupa e estabeleço prioridades, visito amigos, frequento salas de cinema, tomo café, durmo tarde e assino ponto lá onde trabalho. Mundo igual de centenas de milhares de andantes pensativos humanos carregando conceitos e opiniões enquanto a vida acontece. Ao organizar meus livros e sempre ouvindo música, cantando com minha cara de contente, lá estava ele. Muita retórica para dizer que senti alegria ao ver que aquele livro era meu. Uma breve dedicatória lida em voz alta assim que o abri. "Pelos dias que virão", dizia a dedicatória. Edição livro de bolso. E lá mesmo, no chão da sala de casa, janela aberta e o vento morno a trazer vozes da rua, comecei a ler. Prefácio e lá fomos nós e minhas ideias. Me veio uma sensação humana de saber que poderia me ver naquelas poucas páginas de tantas palavras que tantos outros leram. E desandei a ler. E, uma vez que se abre um livro, ou se vai até o fim, ou se abandona a leitura. E, tendo feito isso, não sei de outras pessoas, mas eu me sinto incompleta. Abandonar um livro, mesmo que a leitura seja maçante ou o texto seja mal escrito, me faz sentir que estou sendo injusta. Porque travamos lutas inimagináveis a cada leitura que fazemos. E eu não quero ser aquela que julga um livro ao ver o nome do autor, editora ou se o autor é renomado ou não. Porque sempre perco algo quando não leio. Perco a fala, minha aquisição de bens não contáveis, e minha vista cega quando decido não ler por preconceito ou por alguma crítica já feita ao livro. E perco a mais nobre característica de quem tenta, a todo custo, escrever algo que um dia seja considerado bom. Porque não me basta o elogio. Já disse uma vez e repito: Quero a versão absoluta de todos os pontos-de-vista. Escritor precisa ter curiosidade. Ler desde clássicos a autores abandonados ao infortúnio. A perda da curiosidade é a morte de qualquer escritor. Digo em voz alta e que não me calem os senhores literatos que tanto expulsam aqueles que tentam vivenciar literatura desde a primeira hora do dia. Se valer o conselho, não deixem passar um rabisco sequer. Uma folha rabiscada que alguém lhe pedir para ler, um poema de um amigo, uma pagina de diário, um bilhete de amor que, muito embora possa estar mofado pelos anos gastos, há de trazer uma nova dimensão que não tínhamos em outros tempos. O livro que encontrei perdido em minha estante era Noites Brancas de Dostoiévski. Já li. Livro pequeno, texto integral. Mas, se fosse o caso, não deixaria passar um "Crepúsculo" sem que o lesse. Leio de tudo. E preconceito só atrasa. Já basta que digam que nosso país vive à pobre cultura e carece de leitores. Já basta a biblioteca da universidade onde leciono não ter exemplares de Homero. Já basta de julgarmos livros por suas capas. Meu objetivo é ler. E, a partir desse ponto, me reconhecer humana e autora de nossa história. Mesmo que coadjuvante, trafegando entre um livro e outro. Caio Fernando Abreu disse uma vez em uma entrevista: "O Brasil não precisa tanto de escritores. Precisa de arroz e feijão". Eu completo: Arroz e feijão e algo que encoraje essa gente a ler. Nem que seja um livro a cada ano.




Leitura disponível em e-book.
Basta clicar na imagem e that's it.
Há alguns erros, mas vale conferir.















Image by Fertility

24 março 2010

mercado de trabalho e Roger Waters

Em meu blog estou sempre a escrever histórias que invento ou não. Ficção baseada em fatos extraordinários ou apenas ordinários. Porém, há mais o que se dizer. Falar do mundo, de acontecimentos, de livros que leio, da morte da bezerra e assim por diante. Há muito sinto vontade de ampliar esse espaço e divulgar algo mais que o meu Eu-Lírico. E decido começar hoje. Deixo, aos amigos leitores que passarem por aqui, um texto escrito por um colunista em um site que, não somente fala de política, como também de outros assuntos e fatos a respeito do mundo e da Paraíba. O colunista é meu irmão (Por coincidência). Juljan Palmeira (Nome diferente. Culpa de nosso pai) é professor de Língua Portuguesa, Mestre em Lingüística e Psicanálise pela Universidade Federal da Paraíba, cursa seu doutorado na mesma instituição, assiste televisão, fala de política e futebol, coleciona discos de vinil, é fã dos Beatles, Pink Floyd, Chico Buarque e recita Fernando Pessoa em reuniões de amigos. Uma pessoa comum. Assim como todo mundo.


Basta clicar na imagem e ler.







Um beijo para todos.

21 março 2010

recém-nascida



Das contrações do matrimônio,
nasci. Corada coroando o dia.
Era cedo e caminhavam astros entre o tempo.
Regente ao vapor das fábricas,
Veloz ao correr dos rios.
De minha mãe herdei a forma
Que ainda, recém-nascida, não trajava seios.
Hoje sustentam vozes, bocas e línguas.
E de meu pai carrego a fome, identidades, anomalias.
Conseguiria a criança entender a finalidade de tantas especiarias?
E aos berros alertei
Que meu gênio perigoso não se acalmaria
Por saber do pó que me aguarda um dia
Que não seria menina idolatrando mesas de fórmica
Eu os alertei quando nasci
Que seria o mundo após de mim
Que amor sentiria o corpo em estado de alerta
Humana meticulosa de pernas abertas.
Nasci feito um desacato
E renasço desobedecida,
Obrigatória a contrair a vida.




03 março 2010

humanístico




Flores de toda idade é a infância e não há, em tão breve mundo, alguém que não se lembre ou se apegue e não queira novamente o vento de uma tarde que o tempo esconde, pois a memória traz inquieta aos olhos que enxergam o passado de forma a fazer saudade de nós. Minha mãe a lavar roupas, tão atarefada franzindo o cenho e quase se esquecendo de ser bonita enquanto olhava distraída a brancura das vestes de suas crias. Varais atravessavam sua imagem e era de um olhar perdido que ela se portava e carros passavam em todas as avenidas e nós brincávamos no quintal de casa e as roupas cheiravam a sabão em pedra e minha mãe parecia máquina de afazeres enquanto manisfetava notícias nosso antigo rádio de pilha. E eu, desbravador de meu jardim, brincava com formigas. Procurava nomes, as humanizava, as colocava no caminho das hortaliças e fazia das tais pequenas criaturas, inseparáveis amigas e, quando uma delas se desfazia em minhas mãos, de tão sensível corpo minhas meninas, eu chorava desconsolado e minha mãe deixava seu sono aberto de esquecer o dia e corria a me acudir. Aninhava seu menino em seu colo, em seu terno amor sem outro que a faça esquecida e eu me sentia salvo de minhas dores infantis. Por que chora? E eu que tinha meu enorme mundo em casa, protegido nos braços maternos, hoje sou filho da pressa, das vertigens, do calor e do asfalto que me enterra e vivo de minha tragédia. Alimento-me de trabalho, tenho filhos, mulher que de mim se distancia e, em passos falsos, piso em formigas que antes eram amigas e me faço de tolo sorrindo mesmo certo de que o mundo não saberá de minhas horas vazias de comer passado e entornar a vida.




Image by Piotr Olech